Cultura

08/11/2021 | domtotal.com

Outra vida lá vem

E mais: na qualidade de branco, namorei uma preta. De alma negra e bela, acrescentaria eu

Mas esse tempo lá de trás, que atravessei às vezes corajosamente e às vezes cheio de medos, terá sido melhor do que hoje?
Mas esse tempo lá de trás, que atravessei às vezes corajosamente e às vezes cheio de medos, terá sido melhor do que hoje? (Unsplash/Désirée Fawn)

Afonso Barroso*

Como velho marinheiro, pertenço à tripulação mais antiga desta embarcação maluco-beleza a qual o Criador deu o nome de Vida. Não faz muito tempo subi no mastro da gávea, assestei a luneta, mirei o horizonte e gritei: Eternidade à vista.

A esta altura da minha já longa viagem, posso dizer que naveguei todos os mares, vivi procelas e calmarias, ultrapassei os cabos das tormentas, da boa esperança, das venturas, aventuras e desventuras. Tenho muito o que revelar e pouco a esconder.

Revelo, por exemplo, que nasci e passei a infância e juventude num tempo em que o preto e o branco conviviam harmoniosamente, sem os males da discriminação, do racismo e do preconceito. Jornais eram em preto e branco, televisão era em preto e branco, cinema era em preto e branco, o mundo era em preto e branco.

Era preto o melhor amigo do meu pai (e, por extensão e convivência, de toda a nossa família de brancos), um negão de músculos ameaçadores, conhecido como Zé do Servino.

Era preto meu companheiro e protetor de viagens Divardo Venâncio, que me levava pra estudar na sede do município, cinquenta quilômetros a cavalo.

Era negra a inspetora escolar de nome pomposo e aristocrático, a severa mestra Iraci Iraídes da Conceição Veloso, sempre armada com uma temível varinha de marmelo.

Era negro o Padre Joaquim, de uma vila vizinha, que casava todos aqueles que se amavam com fé, mesmo sem documentos ou comprovação de credo.

E mais: na qualidade de branco, namorei uma preta. De alma negra e bela, acrescentaria eu. E foi um crioulo bonito como o diabo que certa vez me tomou uma namorada loura de olhos verdes. Preto fidumaégua, eu pensei sem dizer, porque se preto não era ofensa, fidumaégua, ah, isso era.

Também sou do tempo em que gay era realidade meio submersa, mas sem intolerância. Brincava-se com isso na naturalidade dos folguedos de carnaval. Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? E a Maria Sapatão, que de dia era Maria é de noite era João? Qual o busílis? Qual o problema? Qual o crime? Qual o pecado? Não, não indiciaram nem prenderam o Chacrinha, que continuou numa boa, cantando sua marchinha, buzinando a moça e balançando a pança.

Naquele meu tempo chamava-se gordo de gordo, careca de careca, magro de magricela, branca de branquela. Sem drama, porque só depois de muito tempo apareceu o tal politicamente correto, que eu acho politicamente careta.

Mas esse tempo lá de trás, que atravessei às vezes corajosamente e às vezes cheio de medos, terá sido melhor do que hoje? Não posso dizer que sim nem que não. Digo apenas que gostava, sem me preocupar se era bom ou ruim. Simplesmente vivia com a liberdade que só me foi tirada após a malfadada Revolução de 1964. Aí, sim, disso eu não gostei nada. Mas quem terá gostado?

Teria muito mais a tratar, mas a crônica é curta que nem essa vida que não demora devo entregar aos Céus. O que farei não sem protesto, mas de alma lavada e enxaguada, como diria o saudoso prefeito Odorico. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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