Meio Ambiente

08/11/2021 | domtotal.com

Melhor que o imaginado, menos que o necessário: COP entra em semana crucial

Mais de 100 chefes de Estado e de Governo se comprometeram a cessar o desmatamento até 2030

"Eles vão nos queimar vivos!", denuncia manifestante durante protesto do grupo Extinction Rebellion na cidade escocesa de Glasgow Foto (Paul Ellis/AFP)

A COP26 entra nesta segunda-feira (8) em uma semana crucial. Após o desfile de líderes e famosos, o otimismo do anfitrião Boris Johnson e o pessimismo de Greta Thunberg, 194 países tentarão superar divergências que há anos afetam a luta contra a mudança climática.

Na metade do encontro, o balanço é agridoce. "Em algumas coisas progredimos muito mais do que poderia imaginar há dois anos, mas está longe de ser suficiente", declarou Helen Mountford, do World Resources Institute.

A grande conferência anual da ONU sobre o clima, cancelada ano passado pela pandemia e organizada de 31 de outubro até 12 de novembro na cidade escocesa de Glasgow, registrou na primeira semana uma série de anúncios pomposos.

Países como Brasil, Argentina e Índia reforçaram suas metas de redução de emissões.

Mais de 100 chefes de Estado e de Governo se comprometeram a cessar o desmatamento até 2030. Também anunciaram planos para emitir 30% menos de metano, gás com efeito estufa 80 vezes maior que o CO2.

Quase 50 países prometeram parar de usar carvão para produzir energia elétrica e centenas de entidades financeiras privadas ofereceram bilhões de dólares em créditos.

"Aconteceu um verdadeiro impulso à ação climática", celebrou um porta-voz do governo do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que deseja se apresentar ao mundo como um campeão da luta contra o aquecimento global.

Obama no palco

É algo incomum que uma reunião de cúpula do clima registre tantos anúncios em sua primeira semana, mas estes podem ficar apenas no papel, caso não sejam seguidos por ações concretas.

"Isto não é mais uma conferência do clima. É um festival de 'greenwashing'", criticou a ativista Thunberg na sexta-feira, durante um protesto dos jovens nas ruas de Glasgow no fim de semana.

Após a presença de várias personalidades nos últimos dias, como os atores Leonardo Di Caprio e Idris Elba, o músico Robert Del Naja - conhecido como 3D -, líder do Massive Attack, ou a estilista Stella McCartney, nesta segunda-feira será a vez de Barack Obama.

O ex-presidente dos Estados Unidos assinou em 2015 o Acordo de Paris, que estabeleceu o objetivo mundial de manter abaixo de 2°C, e se possível de 1,5°C, o aumento da temperatura global. Uma ambição para a qual Glasgow deve estabelecer o conteúdo.

Obama discursará ao plenário de quase 200 delegações, que a partir desta segunda-feira contam com os ministros do meio ambiente para as negociações de questões paralisadas há vários anos.

"Sobre a transparência, para que todos possam vigiar o que os demais fazem, ou prometem, não se avançou realmente", reconheceu uma fonte diplomática.

"Sobre o marco temporal comum", para que todos os países baseiem seus compromissos nos mesmos períodos de tempo comparáveis, "tínhamos oito opções e agora temos nove", explicou, antes de considerar o cenário "indecifrável para os ministros".

"E não chegaremos ao pedido de alguns Estados, países especialmente vulneráveis, para que as revisões das medidas aconteçam anualmente, e não a cada cinco anos, acrescentou.

"Decepção"

Outro grande obstáculo: o funcionamento dos mercados de carbono, que permitem vender e comprar direitos para emitir gases na atmosfera.

Ou simplesmente sua existência, à qual países como a Bolívia se opõem.

Os compromissos para 2030, com os quais os países chegaram a Glasgow, deixavam a Terra a caminho de um aquecimento de 2,7ºC, que teria consequências caóticas, incluindo secas, inundações, aumento do nível do mar e o surgimento de milhões de refugiados climáticos.

Rachel Rose Jackson, da ONG Corporate Accountability, denuncia que os países ricos "se apressam a descer pela escada de incêndio em vez de ajudar a apagar o incêndio que provocaram em nossa única casa", ao comentar a responsabilidade histórica das nações industrializadas na emissão de carbono, que já aumentou a temperatura em 1,1ºC na comparação com a era pré-industrial.

Em 2009, os países prometeram conceder US$ 100 bilhões por ano às nações em desenvolvimento a partir de 2020. Mais de uma década depois, a conta não fecha.

"Esta primeira semana foi uma decepção. A maioria das nossas preocupações não foi realmente considerada", declarou Ahmadou Sebory Touré, presidente do Grupo77+China, que reúne 134 países em desenvolvimento e emergentes.

"Perdas e danos"

Além da ajuda financeira para combater a mudança climática, os países em desenvolvimento querem que a COP26 de Glasgow avance em outro tema delicado: as perdas e danos que já estão sofrendo.

Os países ricos prometeram em 2009 às nações mais pobres e expostas à mudança climática uma ajuda anual de US$ 100 bilhões, que deveria ter sido cumprida em 2020.

Mas ainda falta 20% do valor. Os países ricos se comprometeram a regularizar o valor em dois anos.

Mas a mudança climática, afirma grupos de países como os pequenos estados insulares do Pacífico, já afeta seus territórios, com alagamentos de terras de cultivo e alterando significativamente seus planos de desenvolvimento, inclusive sua sobrevivência a longo prazo.

"Vocês são os primeiros a sofrer e os últimos que recebem ajuda", reconheceu o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, durante uma reunião na conferência de Glasgow do Fórum de Países Vulneráveis ao Clima (CVF).

O oitavo capítulo do Acordo de Paris contra a mudança climática, assinado em 2015, é especificamente dedicado às "perdas e danos relacionados com os efeitos adversos da mudança climática, incluindo os fenômenos meteorológicos extremos e os fenômenos de evolução lenta".

Para isto foi criado o denominado Mecanismo Internacional de Varsóvia, em 2019, que até o momento não passa de um portal na internet no qual supostamente devem chegar a um acordo Estados, instituições e seguradora.

"Existe o temor, para não dizer a paranoia, sobre as questões de responsabilidade e as compensações", declarou Yamine Dagnet, do Instituto de Recursos Mundiais. "Mas não se trata disso, e sim do que acontecerá quando estas pequenas ilhas desaparecerem".

Os países mais vulneráveis podem sofrer uma queda de mais de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) por habitante, segundo um relatório publicado nesta segunda-feira pela organização não governamental Christian Aid.

Dos 65 países estudados, a queda média do PIB por habitante seria de 19,6% em 2050, caso persista a trajetória atual de aquecimento do planeta, e de 63,9% até o fim do século.

Mas para seis dos 10 países mais vulneráveis na lista, a queda pode superar 80% no fim do século.

Oito das 10 nações estão na África e duas, Suriname e Guiana, na América do Sul.

Os países ricos desejam que as perdas e danos integrem a adaptação à mudança climática em termos de financiamento.

Mas o dinheiro para a adaptação à mudança climática representa apenas 25% do previsto, enquanto a mitigação representa os 75% restantes.

E é justamente "o fracasso do financiamento da adaptação que se transformou em perdas e danos" explica Abul Kalam Azad, emissário da presidência bengalesa do CVF.

Financiamento adicional

"Precisamos de um financiamento adicional e separado do objetivo anual (de U$ 100 bilhões)" insiste Aiyaz Sayed-Khaiyum, ministro da Economia e Mudanças Climáticas das ilhas Fiji.

E este financiamento não deve ser adicionado à dívida dos países vulneráveis, adverte.

"Fazer com que paguemos por juros sobre o dinheiro destinado a aumentar nossa resiliência seria cruel. Como nos fazer pagar à máfia das energias fósseis responsável pelo terror que esta crise nos inflige", disse.

A redução da dívida externa em troca de investimentos na adaptação é uma das soluções mencionadas.

Uma solução, por outro lado, também proposta por países como o Equador para preservar áreas naturais.

A Aliança de Pequenos Estados Insulares (Aosis) pede que as "perdas e danos" figurem no "balanço mundial (de financiamento) a partir de agora, e com objetivos quantificados

"A tensão aumentou durante as primeiras conversas entre negociadores na COP26", destaca Yamine Dagnet.

Este é o discurso do reverendo James Bhagwan, da Conferência de Igrejas do Pacífico, para quem o debate está demonstrando "as enormes desigualdades em termos de mudança climática".

"No Pacífico, perdas e danos significa vida ou morte", disse. "Se os países ricos não aceitarem, a única opção será levar o caso à justiça".


Afp/Dom Total



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