Cultura TV

09/11/2021 | domtotal.com

A estreia sem brilho de Um lugar ao sol

Um buraco na camada de ozônio da criatividade da Globo

Cauã Reymond e Alinne Moraes
Cauã Reymond e Alinne Moraes (Divulgação/Globo)

Alexis Parrot*

A respeito do coronavírus, estamos hoje em um período de transição, algo como uma antessala da pós-pandemia. Se ainda não é possível o relaxamento total, em certos ambientes as máscaras começam a cair, revelando a proximidade de um tempo em que será possível retomar o hábito de aglomerar livre e indiscriminadamente, com a esperança que os dias de lockdown tenham ficado em definitivo para trás.

Um dos sinais mais evidentes desta nova fase é a retomada da produção dramatúrgica de nossa televisão. Ainda seguindo protocolos (ainda que mínimos) de segurança sanitária, a fábrica noveleira de salsichas da Globo já se encontra a pleno vapor, agora sob nova direção.

A julgar pela estreia da novela das nove (agora às nove e meia), Um lugar ao sol, o cardápio do delivery é o de sempre: aquele produto esteticamente bem cuidado, de embalagem impecável e feito para impressionar à primeira vista. Mas há tantos problemas na receita e no recheio que o pedido pode acabar causando indigestão.

A começar pelo título do folhetim. Um lugar ao sol lembra muito Segundo sol, duas novelas próximas demais na timeline do horário nobre. É muito sol para pouca sombra, evidenciando descuido ou, quem sabe, um buraco na camada de ozônio da criatividade dos executivos da emissora.

A direção megalômana e exibicionista peca por buscar tão artificialmente uma qualidade que possa ser considerada "cinematográfica". Em nome do equívoco, já no início do primeiro capítulo, ofertou planos desnecessários, que nada significam. Como exemplo, a computação gráfica com os dois bebês ainda dentro da barriga da mãe ou a câmera se aproximando em zoom dos olhos da parturiente, até o mega close-up da pupila que se transforma em um corredor mal iluminado do hospital.

E dá-lhe drones, muitos drones - esta verdadeira maldição do audiovisual contemporâneo. De manejo simples se comparado a uma grua e muito mais econômico que a locação de um helicóptero, seu uso gratuito vem transformando todas as paisagens que vemos nas telas na mesma paisagem.

É graças ao drone (que seria o ponto de vista de quem?) que todo carro trilhando uma estrada torna-se qualquer carro percorrendo uma estrada genérica, indefectivelmente ladeada por árvores, quanto mais imponentes, melhor. Mandada a linguagem às favas, o convite é para que apreciemos a vista, independente da narrativa.

Cauã Reymond assume novamente a jornada dupla de encarnar gêmeos, repetindo o feito da minissérie Dois irmãos. Sem mais contar com a matriz privilegiada do lírico romance de Milton Hatoum, entrega-se agora a uma revisitação barata do melodrama clássico em que o plebeu toma o lugar do príncipe. Francisco Cuoco já viveu essa aventura em O outro e Gloria Pires nadou de braçada quando personificou Ruth e Raquel em Mulheres de areia.

Mas Cauã não é Cuoco nem Pires e, definitivamente, Licia Manzo está longe de atingir o calibre de um Aguinaldo Silva ou uma Ivani Ribeiro. Sua limitação como autora é evidente, tanto que estreia no horário nobre como se ainda estivesse escrevendo uma novela das seis.

Sem o apoio de um bom texto, evidencia-se mais ainda a pobreza de Reymond no que diz respeito a seus talentos de interpretação. Mais galã que ator, sua principal qualidade parece ser a inabalável autoestima, capaz até de convencê-lo que, já tendo entrado na casa dos quarenta, poderia interpretar um rapaz de dezoito anos (ou mesmo vinte e oito, após o salto temporal da narrativa). Se fosse teatro seria possível, porque lá a mágica é outra; bem diferente do pacto a que nos convida a telenovela.

Por coincidência, antes de assistir à estreia desta Um lugar ao sol, revi Viva a liberdade, filme em cartaz na edição 2021 do Festival de Cinema Italiano, mais uma vez exibido online em função da pandemia. Toni Servillo interpreta dois irmãos, um político desencantado e um filósofo maluco que acaba assumindo sua identidade.

Este é o tipo de papel com que devem sonhar os grandes atores. Em um mesmo trabalho, ser capaz de trazer à vida duas personalidades distintas, ainda que embrulhadas pela mesma carcaça. E Servillo realiza a tarefa com a perícia habitual. Apenas um olhar, um gesto, um menear de cabeça, e o grande ator nos diz qual dos personagens está em cena.

Passar quase que imediatamente de uma experiência à outra, do filme à novela, foi traumatizante. Se o eterno Jep Gambardella (o escritor entediado de A grande beleza) destilava graça e poesia enquanto se alternava entre os dois papéis, Cauã Reymond parece acreditar que uma simples troca de perucas é o bastante para dar conta do recado.

Mesmo entendendo tratar-se de um aperitivo enquanto não estreiam o próximo texto de João Emanuel Carneiro e o remake de Pantanal (este sim, prometido como o próximo blockbuster da TV brasileira), uma ocasião tão simbólica merecia produção mais à altura.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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