Religião

19/11/2021 | domtotal.com

A pobreza e o despojamento evangélico: contra-caminho ao consumismo


Francisco Thallys Rodrigues*

Em nossa sociedade globalizada, ano após ano nossa capacidade produtiva de alimentos, bens e serviços se expande continuamente se reinventando a fim de atrair novos consumidores. Por sua vez, os meios de comunicação, as redes sociais e o "estilo" de vida contemporâneo propagam constantemente e/ou acentuam o desejo por possuir sempre mais, para além das necessidades essenciais. O consumismo é um mal denunciado continuamente pelo Papa Francisco. Na lógica do Evangelho, os discípulos de Jesus deverão ser capazes de assumir a pobreza e o despojamento evangélico como meios concretos do seguimento a Jesus, apontando para a novidade do Reino por Ele inaugurado, denunciando as agressões subjacentes à lógica consumista, tanto ao planeta quanto ao ser humano.

A sociedade industrial abriu espaço para a inovação tecnológica que conseguiu aumentar significativamente a capacidade de produção de alimentos e bens de consumo, ao mesmo tempo em que desenvolveu uma lógica de consumo bastante eficaz na medida em que encontrou nos meios de comunicação e interação social um poderoso aliado. Por meio de algoritmos e de uma vigilância extremamente eficiente, as grandes corporações e empresas acompanham, influenciam e determinam as formas de consumo da população. Por conseguinte, numa sociedade da imagem, que valoriza mais a estética do que a ética, o consumo desenfreado apresenta-se como o instrumento privilegiado de manutenção deste modelo societário.

O resultado tem sido devastador: um pequeno grupo dispõe dos melhores recursos existentes, outra parcela maior consome uma infinidade de produtos, bens e serviços, enquanto uma parcela bastante significativa está privada do acesso a estes serviços dada sua condição financeira. A pobreza, neste caso, longe de ser uma opção, é uma consequência de uma sociedade desigual incapaz de gerar as mesmas oportunidades. Nesse sentido, não se pode falar de meritocracia quando as condições de possibilidades, oferecidas aos indivíduos, são tão díspares. No Brasil atual, metade da população enfrenta a insegurança alimentar com preços de alimentos a níveis alarmantes, ao mesmo tempo em que os bancos batem recordes em lucros com as benesses concedidas pelo Banco Central. O consumismo é um traço que atravessa a sociedade como um todo num círculo vicioso que gera o "fetiche" da necessidade de consumo para autoafirmação pessoal enquanto insiste na necessidade cada vez maior de aumento da produção sem equilíbrio social e ambiental.

Diante disso, o Evangelho de Jesus, a lógica do Reino, aponta na direção contrária, tornando-se um contra-caminho. A vida de Jesus e dos discípulos se desenrolam numa total austeridade, sem ter onde reclinar a cabeça, o homem de Nazaré vive de modo itinerante e mendicante, vivendo do que lhe oferecem. Anuncia a chegada de um novo tempo que deve mostrar-se numa nova mentalidade e atitude na qual todos são considerados como irmãos e irmãs. A fraternidade, anunciada por Jesus, exige a conversão de todos os pecadores, sobretudo daqueles que detém o poder e a riqueza. Nesse sentido, a salvação dos ricos passa pelo cuidado e partilha com os pobres. Assumir uma vida mais austera e despojada, tendo aquilo que é o essencial, o que não significa viver na miséria, é condição e caminho para um autêntico seguimento a Jesus.

O convite de Jesus, a vida de despojamento, foi assumido em diferentes tempos, lugares e contextos pelas mais variadas pessoas: homens e mulheres de diferentes gerações procuraram assumir a pobreza evangélica e o despojamento como elementos de sua vida. Mais recentemente, a teologia latino-americana da libertação e o Papa Francisco chamaram a atenção para a necessidade de repensar nossa sociedade a partir dos pobres e excluídos. Recordaram que não é suficiente dar-lhes assistência se não mudarmos a lógica interna, do contrário estaremos simplesmente gerando novos consumidores, o que não resolve o problema. A própria natureza dá seus sinais de desgaste e impossibilidade de continuar nesta lógica perversa, a encíclica Laudato Si apontou para a necessidade de pensar uma outra economia tendo em vista a ecologia integral.

 Nesse processo de mudanças, a espiritualidade cristã pode oferecer uma contribuição fundamental na medida em que assume concretamente o despojamento exigido por Jesus para os seus discípulos. É bem verdade que não se pode esperar que as pessoas assumam uma vida itinerante como a de Jesus, vivendo da mendicância, pois este é um carisma que poucos poderão assumir. Contudo, pode-se favorecer que os batizados sejam capazes de discernir os caminhos a serem tomados, para que consigam distinguir entre aquilo que é extremamente necessário e aquilo que é supérfluo. O discernimento torna-se ferramenta fundamental para este despojamento, sendo assumido por todo aquele que atingiu um grau de maturidade na fé, entrando na escola de seguimento a Jesus de Nazaré. Portanto, a pobreza e o despojamento evangélicos, livremente assumidos numa vida de discernimento, podem ser um contra caminho para o consumismo.

*Presbítero da Diocese de Crateús. Mestrando em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), bolsista CAPES. Especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR).

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