Cultura TV

16/11/2021 | domtotal.com

The Morning Show: bastidores de um cancelamento

A série discute sem maniqueísmos os desafios do nosso tempo

Jennifer Aniston e Reese Witherspoon em cena de 'The morning show'
Jennifer Aniston e Reese Witherspoon em cena de 'The morning show' Foto (Apple TV+)

Alexis Parrot*

Desde a estreia em 2019, The Morning Show (Apple TV+) capturou minha atenção de uma maneira que poucas outras produções televisivas têm conseguido nos últimos anos. Além de uma das mais charmosas aberturas atualmente no ar (remetendo aos grafismos dos créditos do cinema dos anos 1950-60) e do carisma inquestionável de seus protagonistas (Jennifer Anniston, Steve Carell, Reese Whiterspoon e Billy Crudup), a série consegue captar e processar de maneira brilhante todo o desvario e turbulência do tempo em que vivemos.

A escolha dos bastidores de um programa matinal em uma grande rede de TV como cenário não foi aleatória. Desde seu nascimento, a televisão tem sido pródiga em fabricar e ratificar novos ídolos, transformando-os instantaneamente em produtos a serem consumidos à exaustão.

Porém, a deidade que brilha hoje no céu das transmissões digitais pode se tornar facilmente o bezerro de ouro de amanhã, rechaçado e cancelado - justa ou injustamente - com a mesma brevidade de uma viagem ao espaço no foguete de Jeff Bezos (mais ou menos onze minutos contados no relógio, dependendo do trânsito).

É o que acontece com Mitch Kessler, o personagem de Steve Carell, logo no início da primeira temporada. Após vir a público seu histórico de predador sexual, é demitido sumariamente da bancada matinal que dividia com Alex Levy (Jeniffer Anniston) no programa The Morning Show, que dá título à série. Mais que indignado com a acusação, o apresentador é incapaz de reconhecer-se como tal, acreditando não ter feito nada de errado, enquanto refuta qualquer comparação com outros criminosos do calibre de um Harvey Weinstein.

Desenvolvida no rastro do impacto causado pela onda #Metoo, a série mostra perspicácia ao abordar o tema, revelando a força do movimento. Ao denunciar os abusos (potencializados pela pressão popular via redes sociais), atingiu a jugular do machismo, desnudando-o em uma de suas bases fundamentais. Quero crer que homens não assediam e matam mulheres simplesmente porque gostam, como defendem alguns. Trata-se de uma redução simplista da questão, bem mais complexa e aterradora do que emerge à primeira vista. 

Homens fazem o que fazem (e seguem fazendo) porque acham que podem - no que são referendados in saecula saeculorum  por uma malha social que envolve a complacência policial, judiciária, política e até mesmo religiosa. Notadamente, a partir do #Metoo algo se rompeu, forçando mudanças neste contexto. The Morning Show percebe o assunto com rara lucidez e o explora a fundo, construindo dramaturgicamente este bem-vindo ocaso da onipotência do macho, mostrando que tudo se resume a uma palavra: poder.

Mas a série vai além, ao reproduzir a reformulação de outros inúmeros paradigmas culturais em curso no mundo. Termos como empoderamento, politicamente correto e sororidade (bastante desgastados pelo uso exaustivo e superficial que só serve para banalizá-los) retomam toda a força e significado. Trabalhados pelo roteiro de forma corajosa e inteligente são tensionados e colocados à prova a todo momento, trazidos para o centro de um debate público sem maniqueísmos.

Na segunda temporada no ar, Levy decide abandonar o programa matinal um dia antes do lançamento de um livro que revelará pecados cometidos por ela no passado, com medo do inevitável cancelamento. Porém, com uma ajudinha de Bradley (personagem de Whiterspoon), cancela-se o cancelamento vindouro, até que um vídeo viralizado devolva tudo de volta à estaca zero. A rapidez das redes sociais tem disso, a capacidade de levar alguém do inferno ao paraíso e de volta ao ponto de partida antes até que o diabo perceba.

A exposição nesta Tombstone digital é tamanha que nem sempre o inferno são os outros, como dizia Sartre. Há coisa de dias atrás, a mulher de Roberto Justus foi virtualmente apedrejada após confessar que a filha dormia com a babá. Inconformada com as numerosas reações negativas, foi à carga contra os seguidores que a julgaram, como se a conta do Instagram fosse uma trincheira de guerra.

Na tentativa de se justificar, só deixou mais clara sua condição privilegiada e desmiolada. Como uma matriarca  à moda dos Von Trapp, confirmou o que já havia declarado: a criação da filha fica mesmo nas mãos de noviças rebeldes. Na verdade, isso é problema único e exclusivo dela e não deveria importar a ninguém. Mas, como esse detalhe foi declinado publicamente pela própria, a informação passa a ser de domínio público. Se ela não sabia, o peixe morre pela boca - mesmo nas redes.

Talvez o grande problema neste caso não seja nem o que se diz e o que se cala nas redes sociais, ou como se reage a isso. De toda a equação, o que me escapa mesmo é o porquê de alguém se interessar em seguir a mulher do Justus (ou mesmo o Justus, para ser sincero). Qual grande contribuição pode-se esperar do clã? Qual dica indispensável para a vida de qualquer um pode sair dali? Qual revelação, orientação ou mesmo alegria, que seja mínima, podem gerar estes seres, verdadeiros luminares do vazio ?

Este é o mundo em que vivemos, onde a preocupação da mídia com o conteúdo tornou-se a corrida insana pela produção de "conteúdos", sejam quais forem; onde a cada refresh de página da internet nasce uma nova celebridade; onde os 15 minutos de fama preconizados por Andy Warhol foram reduzidos à duração de um stories do Tiktok. Este mundo louco, de confronto, fake news, excessos e ostentação é o que The Morning Show vem retratando, sem se furtar a colocar alguns necessários pingos nos is.  

Martin Short, no papel de um diretor caído em desgraça após ver revelado o histórico de abusos e assédios, declara ao discursar em um funeral: "um dia, no atestado de óbito de todos nós estará escrito 'causa da morte - cultura do cancelamento'". Mesmo entendendo que o personagem tenta justificar o injustificável, mascarando a própria condição de cancelado, a frase nos faz pensar.

Em outro episódio recente, como bem destacou Mauricio Stycer em sua coluna no UOL, a série dá uma aula de como noticiar uma morte, listando as confirmações necessárias antes de qualquer anúncio. O programa fictício deu um baile na quase totalidade de nossa imprensa, levando em conta o show de inépcia e informação desencontrada a que assistimos quando da trágica morte de Marília Mendonça, uma semana depois.  

E, como se não bastasse, The Morning Show é também um novelão, no melhor sentido do termo. O roteiro cheio de reviravoltas surpreende a cada momento, sem que a inverossimilhança tome conta da trama. A rivalidade entre as protagonistas, a perversidade do mundo corporativo, os desencontros amorosos, a tragédia, a comicidade e o drama; de todos os requisitos para um bom folhetim, nada foi esquecido.

No caminho oposto, trilha a teledramaturgia brasileira, preocupada basicamente com o escapismo e a doutrinação religiosa. Enquanto The Morning Show discute organicamente em sua trama pautas como apropriação cultural, racismo, LGTQfobia e até mesmo a Covid e os efeitos da pandemia, a Globo põe no ar mais uma regurgitação do velho O príncipe e o plebeu e a Record encurrala o telespectador no Antigo Testamento bíblico, como aqueles pobres jovens eram jogados no labirinto para dar de comer ao Minotauro.

Em cena memorável, Alex e Bradley almoçam juntas para acertar a volta da primeira ao programa, após uma aposentadoria que durou apenas nove meses. Combinando o que irão dizer à imprensa, Alex dispara: "precisamos decidir o que é a verdade". Em uma só frase é dissecada uma das preocupações centrais da atualidade, assolada por "verdades alternativas" e uma crise ética galopante.

Esta conexão com o tempo presente e o genuíno interesse de refletir e discuti-lo sem subterfúgios é a verdadeira lição que nossas novelas têm a aprender com The Morning Show.

(THE MORNING SHOW - segunda temporada disponível na Apple TV+)    

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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