Religião

19/11/2021 | domtotal.com

O consumismo como má relação com a criação

Não se pode discutir a questão da crise ecológica sem levar em conta a crise ética, cultural e espiritual do nosso tempo

Faz-se necessário que recuperemos a harmonia com a Criação, superando a ideia de dominação e exploração, para reconhecer o dom, a beleza e a bondade de cada criatura
Faz-se necessário que recuperemos a harmonia com a Criação, superando a ideia de dominação e exploração, para reconhecer o dom, a beleza e a bondade de cada criatura (Unsplash/Alexander Schimmeck)

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

A questão ecológica mostra-se cada vez mais urgente, não apenas devido aos grandes desastres ambientais, mas também pelos desastres sociais, pois os pobres são sempre os que mais sofrem com as secas, enchentes, imigrações, crise de abastecimento de alimentos, alta nos preços da energia, etc. Desta forma, o debate acerca do meio ambiente não pode se restringir aos bens da Criação, mas precisa fazer parte também da agenda cultural, educacional e política. Haja vista, que "tudo está interligado" (Laudato Si?' n. 117). Não se pode discutir a questão da crise ecológica sem levar em conta a crise ética, cultural e espiritual do nosso tempo. "A gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que 'a realidade é superior à ideia?" (Laudato Si', n. 201).

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Para a cultura do consumo e a economia de mercado, tudo se torna mercadoria. A própria felicidade e o sentido do existir ficam vinculados à capacidade de consumir. "Consumo, logo existo!" Se não posso consumir, sou descartado, jogado para fora das rodas sociais. Como nos lembra o papa Francisco: "quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, possuir e consumir. Em tal contexto, parece não ser possível, para uma pessoa, aceitar que a realidade lhe assinale limites; [...] não pensemos só na possibilidade de terríveis fenômenos climáticos ou de grandes desastres naturais, mas também nas catástrofes resultantes de crises sociais, porque a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo, quando poucos têm possibilidades de mantê-lo, só poderá provocar violência e destruição recíproca" (Laudato Si', n. 204).

Essa lógica inspirada na economia de mercado que estimula o acúmulo, a maximização do lucro e o consumismo e que gera, ao mesmo tempo, bolsões de pobreza e exclusão, está totalmente em desacordo com a lógica de Jesus que prega a partilha, a doação e a solidariedade. Jesus ensinou aos seus discípulos a rezarem pedindo o pão do cotidiano (Mt 6, 11), mas também mostrou que a partilha é condição para que todos possam ter o suficiente para viver com dignidade, pois quando pão é partilhado, todos comem e ainda sobra (Marcos 6, 30-44). Porque para um coração egoísta e cheio de ganância sempre há uma falta. Mas, para quem descobriu a alegria da partilha, sempre sobra algo para doar ao outro! Neste sentido, recorda-nos Bento XVI, "comprar é sempre um ato moral, para além de econômico"; e, por isso, a questão da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós.

Educar-se para uma relação de alteridade com a Criação, cultivando um modo de vida mais austero e responsável, começando pelas pequenas coisas do cotidiano (produzir menos lixo, evitando o uso dos descartáveis; reciclar e reutilizar sempre que possível; cultivar uma espiritualidade mais integrada com a natureza, etc.), talvez seja a primeira saída para a crise ecológica em que vivemos. Porque muitas vezes os nossos discursos são contraditórios. Falamos de consciência ecológica, mas apoiamos uma economia de mercado que visa tão somente a maximização do lucro, bem como, queremos estar inseridos na cultura consumista e do bem-estar pessoal que não leva em conta a vida do outro e o cuidado com a nossa Casa Comum.

O consumismo é uma forma errada de lidar com a Criação. Pois não há um pensamento de cuidado para que os outros também possam usufruir desses bens. O que se vê é uma mentalidade colonizadora que busca explorar e destruir como se fossem os únicos e últimos habitantes dessa nossa Casa Comum. "Dado que o mercado tende a criar um mecanismo consumista compulsivo para vender seus produtos, as pessoas acabam sendo arrastadas pelo turbilhão de compras e gastos supérfluos. O consumismo obsessivo é o reflexo subjetivo do paradigma tecnoeconômico [...]. O referido paradigma faz crer a todos que são livres, pois conservam uma suposta liberdade de consumir, quando na realidade apenas a minoria que detém o poder econômico e financeiro possui a liberdade" (Laudato Si' n. 203).

Faz-se necessário que recuperemos a harmonia com a Criação, superando a ideia de dominação e exploração, para reconhecer o dom, a beleza e a bondade de cada criatura. Daí a importância e a urgência de uma verdadeira conversão ecológica. Como nos exorta o papa Francisco: "Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da existência cristã, mas parte essencial de uma existência virtuosa" (Laudato Si', n. 217). Como crentes, que professamos a fé no Deus Criador do céu e da terra, e ainda mais, no Deus encarnado, Palavra eterna do Pai, que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 16), não podemos calar a nossa voz diante dos desmandos ambientais, nem tampouco nos compactuar com essa mentalidade consumista que não condiz com o ensinamento de Jesus, com a lógica do Evangelho.

Urge, portanto, um novo modo de nos relacionar com a Criação. Não mais como objeto de consumo e exploração, mas como dom que exige admiração e cuidado. Pois "quando não se aprende a parar, a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso sem escrúpulos" (Laudato Si', n. 215). Somente com um olhar de contemplação vamos aprender a amar a obra da Criação e, sentir-nos intimamente unidos a ela; como se sentia São Francisco de Assis, que chamava de irmã e mãe, essa terra que nos sustenta e governa.

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia ?" Arquidiocese de Teresina-Piauí.



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