Religião

19/11/2021 | domtotal.com

Uma vida humanamente responsável: a liberdade frente o consumismo

Somos apenas parte de um todo, de uma estrutura absurdamente maior que nós, que precisa ser mudada

A grande questão é como podemos viver de modo verdadeiramente humano, escravizados pelo imperativo de consumir, por um lado, e alheios à exclusão de pessoas do mínimo para uma vida com qualidade
A grande questão é como podemos viver de modo verdadeiramente humano, escravizados pelo imperativo de consumir, por um lado, e alheios à exclusão de pessoas do mínimo para uma vida com qualidade Foto (Pixabay/stevepb)

Felipe Magalhães Francisco*

Sabe, leitor e leitora, quando bate aquela sensação estranha, às vezes de tédio, às vezes de tristeza, que dá uma vontade de comprar alguma coisa - que nem sempre realmente precisamos -, para melhorar o humor? É o vírus do consumismo correndo em nós. Há um contínuo bombardeio de que precisamos, constantemente, consumir. Muitas vezes podemos chegar a pensar que as propagandas nos intervalos da programação da TV, ou aqueles anúncios antes e durante os vídeos do Youtube - que chegam a nos irritar - não nos influenciam. Mas influenciam, e como! É quase certo que, em algum momento e circunstância, iremos nos lembrar daquela marca específica de produto, quase que de forma afetiva? Não costumamos, inclusive, chamar o produto - que tem nome próprio - pelo nome da marca? Tenho por certo que com você também é assim!

Importa dizer, no entanto, que a reflexão sobre o consumismo não pode ser um processo de demonização, por si, da possibilidade de adquirir coisas, produtos e serviços. No que diz respeito ao consumo, há toda uma questão ética, a respeito da qual é necessário que não nos furtemos em refletir. Desta questão, chamamos a atenção para três elementos: o primeiro, é o capitalismo, sistema econômico predatório e escravizante; o segundo, a teia psíquica e mesmo existencial que nos impõe um ideal de aprazimento e felicidade a partir do adquirir e possuir coisas; o terceiro, e não menos importante, o esbanjamento por parte de alguns, e o não acesso de bilhões de pessoas aos itens básicos para uma sobrevivência digna. Não podemos ignorar que os dois últimos elementos são condições necessárias para a manutenção do primeiro. Por que, pois, trata-se de uma questão ética? Porque a grande questão é como podemos viver de modo verdadeiramente humano, escravizados pelo imperativo de consumir, por um lado, e alheios à exclusão de pessoas do mínimo para uma vida com qualidade.

Tem crescido, felizmente, movimentos que chamam a atenção, de forma propositiva, para formas sustentáveis de viver, sem que isso signifique deixar de usufruir de coisas que se tornaram importantes para a vida. Igualmente, urge que busquemos viabilizar uma participação sustentável e digna, para os empobrecidos e empobrecidas, excluídos do usufruto até mesmo de uma alimentação adequada. É preciso que cresçamos na consciência da responsabilidade, critério indispensável para a liberdade. Cada pessoa exerce um papel importante na mudança de mentalidade, na sua relação com o mundo das coisas. Igualmente importante é que tenhamos a consciência de que somos apenas parte de um todo, de uma estrutura absurdamente maior que nós, que precisa ser mudada, a começar por uma verdadeira revolução em nosso comportamento.

No Dom Especial da semana, dedicamos nossa reflexão a pensar o consumismo, realidade que traz danos para as pessoas e, ainda mais, para o planeta. O primeiro artigo, Consumismo: a objetificação da pessoa, proposto por Robert Dantas, reflete sobre a desumanização, quando o ser humano, ele próprio, torna-se uma mercadoria, inclusive nas relações pautadas pela lógica do consumismo. Rodrigo Ferreira da Costa, no artigo O consumismo como má relação com a criação, traz à discussão a importância de nos pautarmos segundo uma relação de alteridade com o mundo criado, como sinal de conversão de uma mentalidade marcada pela lógica do consumo. Por fim, Francisco Thallys Rodrigues aponta para a pedagogia jesuânica, como alternativa à escravização dos ditames do consumo, no artigo: Pobreza e despojamento evangélicos: contra-caminho ao consumismo.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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