Religião

19/11/2021 | domtotal.com

De inimiga a aliada: a imprensa na era Francisco

Como o papa atual considera a parceria com os jornalistas um meio eficaz para levar a cabo seu projeto de reforma

Na semana passada, Francisco deu o título de Grã-Cruz da Ordem Pia à jornalista mexicana Valentina Alazraki
Na semana passada, Francisco deu o título de Grã-Cruz da Ordem Pia à jornalista mexicana Valentina Alazraki (Vatican Media)

Mirticeli Medeiros*

Desde o início do seu pontificado, Francisco convida os católicos a uma autocrítica. E convocou até um sínodo para que a instituição possa avaliar-se. Nenhum outro Papa insistiu tanto nesse quesito. Para ele, é hora de fazer as contas.

Quando questionado sobre os abusos sexuais, que foram acobertados sistematicamente por algumas dioceses e congregações no passado, a resposta do atual pontífice é sempre muito simples: ?é necessário vir à tona para que haja o enfrentamento e a prevenção?.

Ele não tolera que as coisas sejam jogadas debaixo do tapete mais. Prefere enfrentar a realidade a ter que lidar com as consequências de uma postura institucional mais preocupada com a preservação da auto-imagem que com a dor das vítimas. E nem precisamos dizer quanto estrago esse tipo de atitude causou nas últimas décadas. Do mexicano Macial Maciel ao ex-cardeal americano McCarrick isso ficou bastante evidente.

Era impensável, até um tempo atrás, que um ?não-clerical? pedisse esclarecimentos à instituição sem ser tachado de ?inimigo da Igreja?. Os jornalistas que o digam.

Em fevereiro de 2019, durante o encontro com os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, onde se refletiu sobre a proteção dos menores na Igreja, Francisco convidou nada mais nada menos que uma jornalista para discursar diante dos prelados. Quis que ela dissesse aos participantes como o mundo da comunicação enxerga esses acontecimentos.

A mexicana Valentina Alazraki, chamada de ?decana dos vaticanistas?, por atuar há 45 anos nas coberturas vaticanas, expôs seu ponto de vista em relação ao problema. E fez isso como mãe, católica e profissional de imprensa, como ela mesma fez questão de frisar. O Papa lhe deu total liberdade para falar e ela agarrou essa oportunidade com todas as forças. Sem rodeios, abriu seu discurso lançando um questionamento:

?Diante de delitos, como no caso do abuso de menores, vocês pensam que uma instituição como a Igreja, para ser fiel a si mesma, possua uma outra via a não ser aquela de denunciar esses crimes? Quem é o mais fraco, o mais vulnerável? O sacerdote que abusou, o bispo que abusou, ou a vítima??.

Sem dúvida, um dos momentos mais fortes já vividos pelos jornalistas que cobrem o Vaticano - como eu. Naquele momento ela nos representou. Tirou aquele nó da nossa garganta. Falou do nosso cansaço ao sermos tachados como ?aqueles que querem destruir a Igreja? por simplesmente nos colocarmos como porta-vozes das vítimas.

É claro que a imprensa não é ilibada. Há colegas que erram feio na checagem das informações e fazem pouco caso das peculiaridades da cobertura religiosa. Estamos cientes também dos interesses políticos e ideológicos que estão por trás de algumas organizações. Além disso, estamos certos que a pedofilia não é um problema exclusivo da Igreja.

Porém, não podemos esconder a indignação quando um sacerdote, chamado a ser portador de vida e de esperança, viola e destrói a vida de um inocente. Não se trata de um simples desvio moral. É um crime. E para nós, católicos, denunciar isso é não querer que a instituição da qual fazemos parte seja associada à impunidade e à morte. Nosso trabalho também ajuda a instituição, por mais que alguns custem a interpretar dessa forma. Menos mal que alguém reconhece a nossa contribuição: o próprio papa.

Nos conforta saber que Francisco conta conosco. Nem preciso esconder a minha satisfação, enquanto católica, de saber disso. No último sábado, 13, quando ele condecorou Valentina como forma de reconhecimento à sua trajetória profissional, ele fez questão de agradecer os jornalistas. O que menos ouvimos, ao longo desses anos, foi um ?muito obrigado? saindo da boca de alguma autoridade eclesiástica por termos tocado nessa ferida. E Francisco o fez:

?Agradeço a vocês por narrarem o que não vai bem na Igreja, e por nos ajudarem a não manter as coisas debaixo do tapete. Agradeço por vocês terem dado voz às vítimas de abusos. Obrigado por isso?, enfatizou.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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