Cultura

22/11/2021 | domtotal.com

Moda de viola

Mas não é só por causa dessas histórias que gosto da autêntica e insuperável moda caipira

Obrigado, Rolando Boldrin
Obrigado, Rolando Boldrin (Darly Gonçalves/ Prefeitura de Sao Luiz do Paraitinga)

Afonso Barroso*

Se você gosta de diversão poética, pegue a passagem no Youtube e dê um passeio pelo universo da música caipira. Modas de viola são uma fonte de versos simples, mas ricos, cheios de compromissos com a vida, o amor e às vezes até com a morte. Refletem e fazem refletir sobre todas as coisas. Contam histórias ora trágicas, ora bem-humoradas.

Conhece a menina que faz o coração do rapaz virar brasa toda vez que ela passa em frente à casa dele pra buscar água na bica?

Sabe a história do moço que pediu a São Pedro que não parasse a chuva? É que ele teve de voltar à casa do seu amor e passar a noite por lá, porque as águas do São Francisco estavam por cima da ponte e ele não pôde atravessar. O que achou foi bom.

Com certeza você já ouviu o almofadinha rei do café se gabando no bar da grã-finagem de ter milhões de pés de café pelo Brasil a fora. Ele leva um chega-pra-lá do moço simples que acabara de entrar, pedir uma pinga, pagar com uma nota de mil cruzeiros e dizer ao garçom pra guardar o trocado. Depois diz ao almofadinha arrogante que amarra um boi em cada pé dos seus cafezais e ainda sobra boi. Em seguida, informa: Se quiser saber meu nome, não se faça de arrogado. É só chegar em Andradina e perguntar pelo rei do gado.

Você já ouviu também a moda toda de rimas em “ó”, aquela que só me alegra quando pia lá praqueles cafundó o nhambu chitão e o xororó.

E tem a história trágica do caipira traído que conta como procurou a infiel cabocla Tereza, encontrou e se vingou com uma arma alumiando. Ela fugira de casa com outro. Sentiu o sangue ferver, foi atrás e matou-a. É a minha história, doutor, diz ele ao delegado.

É engraçado o caso do viajante que chega fora de hora ao restaurante familiar na beira da estrada, pede o prato do dia, mas é alertado pela garçonete, ao servir, de que a franga talvez não esteja cozida direito. Ele então diz que se for igual a ela, pode ser até crua que não enjeita. Cabisbaixa, a garota conta ao pai, que ordena à filha: Mate outra franga, tempera, porém não cozinha. Ele mesmo leva a franga crua à mesa do viajante, obriga-o a comer sob a mira de um Smith inglês e gentilmente explica que ali se serve à moda que pede o freguês...

Por que você não passa lá, pergunta o pobre rapaz apaixonado, sem entender por que a amada não aparece nunca. E lamenta: Você sabe onde me encontra, você tem meu endereço, mas você não passa lá...

Agora leia o telegrama do roceiro à sua mãezinha dizendo que se cansou de tanto sofrer na cidade grande e está de partida pra sua terra querida. Foi lá que nasci, é lá que eu quero morrer – diz ele no telegrama.

Conhece você o caso do boi Soberano, que salvou da morte o menino que brincava na rua em Barretos? Foi dramático, mas com final feliz. O boi, preto, bravo, malvado, salvou o menino durante o estouro, protegendo-o da boiada enfurecida. De joelho em terra, o pai comprou o animal e sentenciou: Esse boi salvou meu filho, ninguém mata o Soberano.

É muito boa também a história do rico fazendeiro italiano que cisma de expulsar um mineirinho pobre do pedacinho de terra que ocupa com a família há muitos anos. Entra na Justiça, o mineirinho se desespera, pergunta ao advogado se não seria bom mandar uma leitoa para o juiz. Faz isso não, recomenda o advogado. É o mesmo que entregar a terra pro fazendeiro, porque o juiz é desses paulistas de quatrocentos anos e não aceita suborno. Mas vem o julgamento, o mineirinho ganha a causa e diz ao atônito advogado que tinha mandado uma leitoa pro juiz. Só que mandou... em nome do italiano.

Mas não é só por causa dessas histórias que gosto da autêntica e insuperável moda caipira.

Gosto também por causa das melodias, do som da viola, e porque muitas delas são uma cascata de pura poesia. Você por acaso já ouviu Cafezal em Flor? E o Cheiro de Relva? E a moda da mocinha que tinha os olhos da cor do doce de cidra que ela vendia no leilão?

Não ouviu? Não conhece? Então chega lá em casa pruma visitinha, que no verso ou no reverso da vida inteirinha há de encontrar-me num cateretê. (Obrigado, Rolando Boldrin).

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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