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23/11/2021 | domtotal.com

A consciência e a sorte

Talvez esta 'estranha força', no final das contas, não seja tão estranha assim

O matemático polonês Wac?aw Sierpi?ski descreveu o fractal que leva seu nome em 1915, embora o desenho, como motivo artístico, remonte pelo menos à Itália do século 13
O matemático polonês Wac?aw Sierpi?ski descreveu o fractal que leva seu nome em 1915, embora o desenho, como motivo artístico, remonte pelo menos à Itália do século 13 (Encyclopædia Britannica, Inc.)

Jose Antonio de Sousa Neto*

É sabido que os sinais neurais são enviados por meio de mecanismos como transmissão sináptica, junções de hiato e processos de difusão. Novos estudos sugerem, por outro lado, que há outra maneira de nosso cérebro transmitir informações de um lugar para outro. Cientistas têm constatado que nossas ondas cerebrais podem ser enviadas por campos elétricos. Como já comentamos aqui em texto anterior, "pesquisadores acham que identificaram uma forma, até então desconhecida, de comunicação neural que se auto propaga através do tecido cerebral e pode saltar "sem fio" (wireless, como em uma conexão wi-fi) de neurônios em uma seção do tecido cerebral para outra, mesmo que tenham sido cortados cirurgicamente. Isto seria um avanço relevante de nosso entendimento sobre o funcionamento dos nossos cérebros".

Em um nível ainda mais profundo, pesquisadores têm se perguntado se a consciência pode ser explicada pela física quântica. "A consciência é um assunto que tem fascinado os humanos ao longo dos tempos. Filósofos, teólogos e cientistas têm influenciado a discussão a partir de várias perspectivas. No entanto, nunca tivemos um entendimento amplo sobre o tema. Uma questão que corre como um fio condutor pela discussão científica, em particular, é como surge a consciência".

De fato, uma das questões em aberto mais importantes na ciência é como nossa consciência é estabelecida. Cristiane de Morais Smith (Professora de Física Teórica pela Universidade de Utrecht - Holanda) tem desenvolvido um trabalho inovador para estudar uma variedade de fundamentos da teoria quântica da consciência. Alguns cientistas acreditam que a consciência é gerada por processos quânticos, mas a teoria ainda não foi testada empiricamente. Roger Penrose, Prêmio Nobel de Física em 2020 por sua previsão de buracos negros, juntou-se ao anestesiologista Stuart Hameroff para propor uma resposta ambiciosa. Eles alegaram que o sistema neuronal do cérebro forma uma rede intrincada e que a consciência que isso produz deve obedecer às regras da mecânica quântica. Isso, eles argumentam, poderia explicar a misteriosa complexidade da consciência humana. Inicialmente, no entanto, "Penrose e Hameroff foram recebidos com incredulidade. As leis da mecânica quântica geralmente só se aplicam a temperaturas muito baixas. Computadores quânticos, por exemplo, operam atualmente em torno de -272 ° C. Em temperaturas mais altas, a mecânica clássica assume".

Acredita-se que a atividade combinada dos neurônios gere consciência. Cada neurônio contém microtúbulos, que transportam substâncias para diferentes partes da célula. A teoria da consciência quântica de Penrose-Hameroff argumenta que os microtúbulos são estruturados em um padrão fractal que permitiria a ocorrência de processos quânticos. Na matemática, os fractais surgem como belos padrões que se repetem infinitamente, gerando o que parece impossível: uma estrutura que possui uma área finita, mas um perímetro infinito.

Pode parecer impossível de visualizar, mas os fractais ocorrem com frequência na natureza. Se  olharmos atentamente para as pequenas flores de uma couve-flor ou os galhos de uma samambaia, veremos que ambos são feitos da mesma forma básica, repetindo-se continuamente. O mesmo acontece se olharmos para dentro de nossos próprios corpos: a estrutura dos nossos pulmões, por exemplo, é fractal, assim como os vasos sanguíneos do nosso sistema circulatório. Esses são exemplos de fractais que obedecem às leis da física clássica, em vez da física quântica.

Brócolis Romanesco (Ivar Leidus/Wikimedia)Brócolis Romanesco (Ivar Leidus/Wikimedia)Não é difícil perceber por que os fractais foram usados para explicar a complexidade da consciência humana. "Por serem infinitamente intrincados, permitindo que a complexidade surja de padrões repetidos simples, eles podem ser as estruturas que sustentam as profundezas misteriosas de nossas mentes. Mas se for esse o caso, isso só poderia estar acontecendo no nível quântico, com minúsculas partículas se movendo em padrões fractais dentro dos neurônios do cérebro. É por isso que a proposta de Penrose e Hameroff é chamada de teoria da consciência quântica". E aqui os fractais aos quais estamos nos referindo são aqueles que obedecem às leis da física quântica.

Cristiane de Morais Smith e seus colegas na Universidade de Utrecht organizaram elétrons cuidadosamente em um padrão fractal, criando um fractal quântico. Ao medirem a função de onda dos elétrons, que descreve o estado quântico deles, eles descobriram que estes elétrons também "viviam" na dimensão fractal ditada pelo padrão físico que os cientistas haviam criado. Nesse caso, o padrão que foi usado na escala quântica foi o triângulo de Sierpiński. Mais adiante, usando experimentos fotônicos de última geração, eles foram capazes de revelar o movimento quântico que ocorre dentro dos fractais com detalhes sem precedentes: "nossas observações desses experimentos revelam que os fractais quânticos realmente se comportam de maneira diferente dos clássicos. Especificamente, descobrimos que a propagação da luz em um fractal é governada por leis diferentes no caso quântico em comparação com o caso clássico. Este novo conhecimento dos fractais quânticos pode fornecer as bases para os cientistas testarem experimentalmente a teoria da consciência quântica. Este trabalho também pode ter implicações importantes em campos científicos. Nós podemos ter dado os primeiros pequenos passos em direção à unificação da física, matemática e biologia, o que poderia enriquecer muito nossa compreensão do mundo ao nosso redor, bem como do mundo que existe em nossas cabeças" (Smith, 2021).  E o mundo que existe dentro de nós é apenas um microcosmo do universo como um todo. A constatação disso também tem profundas implicações filosóficas.

Adicionalmente a isso, também já é sabido da interferência de nossas observações (e portanto de nossa consciência) sobre o mundo quântico. Aqui teríamos então uma relação "recíproca" / "circular" e permanente de causa e efeito. Este contexto nos remete à reflexão sobre até que ponto poderia haver uma conexão entre tudo isso e a nossa capacidade de desenhar o nosso próprio futuro. Um estudo científico de dez anos sobre a natureza da sorte desenvolvido por Richard Weiseman, psicólogo da Universidade de Hertfordshire (Reino Unido), revelou que, em grande medida, as pessoas fazem sua própria boa e má fortuna (The Luck Factor / Skeptical Inquirer 2003). Os resultados também mostram que é possível aumentar a quantidade de sorte que as pessoas encontram em suas vidas. A sorte tem o poder de transformar o improvável em possível, de fazer a diferença entre recompensa e ruína, felicidade e tristeza. Há muitos séculos, as pessoas procuram uma maneira eficaz de melhorar a boa sorte em suas vidas. Amuletos da sorte e talismãs foram encontrados em praticamente todas as civilizações ao longo da história registrada. Como Weiseman resumiu, "a superstição vem de uma época em que as pessoas pensavam que a sorte era uma força estranha que só poderia ser controlada por rituais mágicos e comportamentos bizarros". Mas ao longo da pesquisa alguns padrões claros surgiram. Os resultados indicaram que pessoas sortudas geram sua própria sorte por meio de quatro princípios básicos:

  • Elas são hábeis em criar e perceber oportunidades fortuitas.
  • Tomam decisões de sorte ouvindo sua intuição.
  • Criam profecias autorrealizáveis por meio de expectativas positivas.
  • Adotam uma atitude resiliente que transforme a má sorte em boa.

Na verdade, talvez esta "estranha força", no final das contas, não seja tão estranha assim, os livros de autoajuda das lojas nos aeroportos tenham alguma valia e coerência e os "gurus" do pensamento positivo (retirando os charlatões) tenham mais razão do que muitos estejam dispostos a admitir. Para jogar bem qualquer jogo, principalmente o mais importante de todos que "jogo" da vida, é preciso conhecer bem as suas (verdadeiras) regras.

Sources and further reading:

*Professor da EMGE (Dom Helder Tech)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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