Cultura

23/11/2021 | domtotal.com

Quanto mais vida melhor: uma estreia de morte

Trama genérica gera decepção no horário das sete

Neném (Vladimir Brichta), Guilherme (Mateus Solano), Flávia (Valentina Herszage) e Paula (Giovanna Antonelli) sofrem um acidente aéreo em 'Quanto mais Vida, Melhor!'
Neném (Vladimir Brichta), Guilherme (Mateus Solano), Flávia (Valentina Herszage) e Paula (Giovanna Antonelli) sofrem um acidente aéreo em 'Quanto mais Vida, Melhor!' (Globo / João Miguel Jr.)

Alexis Parrot*

Houve um tempo em que o público aguardava ansioso pelo início de uma nova novela das sete. Era a época em que autores como Silvio de Abreu, Cassiano Gabus Mendes e Carlos Lombardi usavam o horário para divertir e fazer sonhar.

Foi a partir de Jogo da vida, de 1982, que a Globo recalibrou o espaço, passando a dedicá-lo quase que exclusivamente à comédia. Novelas memoráveis se seguiram, como Bebê a bordo, Brega e chique, Ti-ti-ti, Cambalacho, Vereda Tropical, Um sonho a mais e Guerra dos sexos – esta, provavelmente, o capolavoro folhetinesco do bom humor da televisão brasileira.

Com o passar dos anos, algo se perdeu, e nem o horário tradicional pôde se manter na cada vez mais inflada grade de programação global. A exemplo da novela das nove (que já foi das oito e agora começa às nove e meia), a das sete inicia às sete e quarenta. Na tentativa de reviver a era de ouro, passou-se a investir em remakes, como os de Sassaricando e Ti-ti-ti. Indicativo de que este não deve mesmo ser a melhor estratégia, a segunda versão de Guerra dos sexos naufragou fragorosamente.

Se Pega-pega, de Claudia Souto, conseguiu recuperar algo do espírito que norteava as produções do horário (com a trama leve e amalucada, misturando um assalto milionário, amores desencontrados e drag queens), não se pode dizer o mesmo de Deus salve o rei, O tempo não para, Verão 90 ou Salve-se quem puder. Do pacote pós-Pega-pega, apenas Bom Sucesso possui méritos o suficiente para driblar o esquecimento puro e simples, muito graças ao bem sacado elogio da literatura que desenvolveu. 

A julgar pela estreia, ontem, de Quanto mais vida melhor, não há nenhum motivo para soltar fogos de artifício. Se for lembrada ao seu término, será por motivos outros que não sua dramaturgia – como a primeira novela a trazer três atrizes trans no elenco, a primeira do horário totalmente gravada após o advento do coronavírus, ou por trabalhar a Morte como personagem.  

A trama é daquelas o mais genérico possível: quatro pessoas ganham da Morte uma chance de voltar à terra, após morrerem antes do previsto. Na entrevista coletiva de lançamento, o autor, Mauro Wilson, declarou que teria tido a ideia para a novela em 2005, após "quase morrer", sem conseguir respirar e acreditando que teria ganhado uma segunda chance. 

O susto deve ter sido mesmo enorme, a ponto de fazê-lo esquecer da existência de inúmeros filmes com a mesmíssima história, a começar pelo mais marcante, O céu pode esperar.

Tanto o original de 1943 quanto o remake de 1978, com Warren Beatty e James Mason, seguem pela trilha que a novela de Wilson agora recicla.

Isso para ficar só no mundo do cinema, uma vez que a própria Globo já usou a premissa em Um anjo caiu do céu, estrelada por Tarcísio Meira e Caio Blat, em 2001. Lá, era um anjo que acompanhava os passos de um fotógrafo revivido que ganha a tal segunda chance por um período determinado, para desatar alguns nós que havia deixado para trás.

Não há problema nenhum em inspirar-se ou citar filmes clássicos nas novelas – vide toda a carreira de Silvio de Abreu, que fazia isso como ninguém. O erro monumental é não dar o crédito devido à matriz, apresentando a ideia como nova e fresca. Se não foi por ignorância pura (o que é difícil de acreditar nesse caso), fica no ar um cheiro de má fé.

Mais preocupante ainda é o tipo de cobertura que a televisão recebe de nossa imprensa. Em nenhuma das matérias que se seguiram à entrevista coletiva, publicadas em vários sites de entretenimento, essa lebre foi levantada. Parece que o autor pode dizer qualquer coisa e fica tudo por isso mesmo. Sem questionamento, perde-se a qualidade da informação e o jornalismo assume o mero papel de assessoria de imprensa gratuita e terceirizada.

Sobre a novela em si, não há muito a dizer; pelo menos nada de muito bom. Os diálogos são infantis e simplesmente utilitários, sem nuances ou qualquer rastro de ironia. Talentos como os de Mateus Solano, Maria Lucia Torre, Júlia Lemmertz, Marcos Caruso, Elizabeth Savalla e Barbara Colen restam totalmente desperdiçados pela falta de força do texto.

Até mesmo a pandemia, assunto central da vida de qualquer um, é tratada com desleixo e superficialidade, vindo à tona em conversas casuais e enfiadas a fórceps em um roteiro previamente pronto. Usa-se o tema apenas para marcar o tempo presente da narrativa, sem consequência dramática e abrindo mão de qualquer comentário sobre o real.

Os quatro protagonistas sofrem um acidente de avião em um momento decisivo de suas vidas ou carreiras e morrem. Unidimensionais, são personagens clichê e de personalidade previsível, cada qual à sua maneira, e rescendem a naftalina por não trazerem nada de novo ao front das novelas.

Chama a atenção a escalação equivocada de Wladimir Brichta no papel de um jogador que deseja voltar aos campos de futebol e reviver seus dias de glória, mesmo já tendo passado dos quarenta anos. Mesmo emprestando simpatia ao personagem, o ator repete o mesmo papel que vem desempenhando há anos, o de Wladimir Brichta. O texto pode até mudar, mas sua interpretação segue rigorosamente a mesma para qualquer personagem.  

A exemplo da cena da cirurgia em que o médico vivido por Solano salva a vida do paciente na mesa de operação, tudo parece meio frio e falso, sem emoção. A trilha sonora do primeiro capítulo, recheada de músicas de concerto e operísticas conseguem o oposto do pretendido, reforçando a impressão de artificialidade de todo o conjunto. A exceção foi o bom moço Jaffar Bambirra cantando uma música fofa em uma boite daquelas mal afamadas de Copacabana; uma cena risível e completamente desconectada da realidade.

A abertura caótica e opulenta, embalada pela quinta sinfonia em vários ritmos, é daquelas de dar dor de cabeça e fazer Beethoven se revirar no túmulo. Dá saudade de outros tempos, onde a simplicidade dava as cartas, atingindo resultados bem mais efetivos. Quem não se lembra da abertura de Ti-ti-ti, por exemplo, com o duelo de tesouras, linha, agulha e outros objetos de costura? A mensagem era clara e direta, além de introduzir sem delongas e simbolicamente o drama central da narrativa, a rivalidade entre dois estilistas.

A literalidade da abertura segue a pobreza dramática do texto; nisso, pelo menos, a novela é coerente. Sem termos sido apresentados ainda à Morte corporificada (papel da estreante A. Maia), é melhor aguardar o que vem por aí com um pé atrás. Pelo que já foi visto, não é absurdo temer pelo tratamento que será dado à personagem. Suas representações ficcionais são várias e fascinantes, trabalhadas por grandes autores e atores ao longo da história do cinema e das artes, de um modo geral.

Mas o que esperar da Morte em uma novela que, desde a abertura, abole o simbólico e se agarra ao literal puro e simples para construir sua narração? Vamos torcer pelo melhor, mas pelo jeito que o navio zarpou, fica difícil alimentar maiores esperanças.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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