Coronavírus

23/11/2021 | domtotal.com

Mundo está entrando na quarta onda da Covid e carnaval pode aumentar transmissões

OMS teme 700 mil mortes adicionais por covid-19 na Europa até março

Mercado de Natal em Salzburgo (Áustria) fechado por restrições contra a covid
Mercado de Natal em Salzburgo (Áustria) fechado por restrições contra a covid (BARBARA GINDL/AFP)

A diretora-geral adjunta de acesso a medicamentos e produtos farmacêuticos da Organização Mundial da Saúde (OMS), a médica brasileira Mariângela Simão, disse na segunda-feira, 22, que o mundo está entrando em uma quarta onda da pandemia de covid-19. A declaração foi dada na conferência de abertura de um evento realizado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

"O mundo, na verdade, está entrando em uma quarta onda, mas as regiões tiveram comportamento diferente em relação à pandemia", apontou Mariângela. "Na região das Américas, há uma transmissão comunitária continuada, com pequenos picos, enquanto a Europa está entrando de novo em uma ressurgência de casos", explicou.

A médica não fez previsões específicas para o Brasil, que tem assistido nas últimas semanas a uma queda sustentada de internações e mortes, além de ver avanço significativo na vacinação. Comentou, porém, que a realização do Carnaval pode ser "extremamente propícia para o aumento da transmissão comunitária" no País.

O aumento no número de casos de covid-19 tem levado países a ampliar o cerco contra não imunizados - a Áustria, por exemplo, impôs um lockdown específico contra esse grupo. A estratégia visa a evitar o surgimento de novas cepas, como a Delta, identificada originalmente na Índia e depois responsável por acelerar o contágio em diversas regiões do planeta.

"A OMS tem o entendimento neste momento que é provável que a gente tenha uma transmissão continuada do vírus por conta das variantes", disse a diretora. Segundo se observa nas curvas epidêmicas, a médica destacou que há países com ondas repetidas, outros com transmissão contínua e há ainda aqueles que tiveram um controle não sustentado no início da pandemia e que agora têm picos agudos de contaminação.

Entre os fatores que continuam influenciando na transmissão do Sars-Cov-2, Mariângela destacou quatro pontos. O primeiro são as variantes mais transmissíveis, como a Delta. Atualmente, conforme mapeamento genético realizado pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS), a Delta corresponde a mais de 97% das variantes em circulação no País.

O segundo aspecto é o fato de grande parte da população seguir sem acesso às vacinas. Dados da OMS apontam que menos de 5% das pessoas de países de baixa renda - grande parte na África e na Ásia - receberam ao menos uma dose de vacina anticovid, mesmo com mais de 7,5 bilhões de doses tendo sido aplicadas no mundo. "A inequidade no acesso à vacina é o maior desafio ético do nosso tempo", disse Mariângela.

Por fim, o terceiro e quarto fatores seriam o aumento das interações sociais, com o fim das medidas de isolamento, e ainda a desinformação em relação às formas de lidar com o vírus. "A mensagem correta, no momento certo, em formato adequado, vinda da pessoa certa (...) pode auxiliar muito", apontou a médica.

Entre domingo e segunda, conforme apontou Mariângela, foram confirmados mais de 440 mil casos em todo mundo e um total de 6 7 mil óbitos. Com isso, o planeta chegou a 255 milhões de diagnósticos positivos da doença e já contabiliza 5,1 milhões de vítimas. "É claro que isso reflete uma enorme subnotificação em vários continentes", disse a diretora da OMS.

Futuro da pandemia

Sobre os possíveis cenários para o futuro, Mariângela destacou o papel das vacinas e disse que, mesmo não tendo impacto significativo na transmissão, elas "diminuem a severidade da doença e a mortalidade". "A gente já tem dados robustos, como do Reino Unido, que mostram uma dissociação de casos e óbitos, por conta da vacinação", destacou.

A diretora da OMS apontou que, pelo que se observa pelas informações de hoje, havendo altos níveis de imunidade populacional em todos os países, a mortalidade pela doença poderá reduzir significativamente. Os surtos de contaminação pela doença, acrescentou, até podem continuar acontecendo entre grupos suscetíveis, como os não vacinados, mas para este caso é necessário intensificar o processo de conscientização.

Mariângela reforçou ainda que "a vacinação sozinha não consegue conter transmissão", o que torna também importante o monitoramento contínuo da situação epidemiológica e a adoção de medidas.

"Me preocupa bastante quando vejo no Brasil a discussão sobre o Carnaval, é uma condição extremamente propícia para o aumento da transmissão comunitária. Precisamos planejar as ações para 2022" disse a diretora da OMS.

Segundo Mariângela, um outro ponto é que há uma "associação forte" entre a cobertura vacinal e o uso de máscaras, o que também acaba sendo um fator de atenção até para países cuja vacinação avançou. "Quanto maior é a cobertura vacinal, menor é o uso de máscaras", destacou.

700 mil mortes na Europa

A Organização Mundial da Saúde (OMS) teme que o avanço da pandemia de coronavírus na Europa provoque 700.000 mortes adicionais até março, caso a tendência atual persista.

Com isso, número total de óbitos por covid-19 chegaria a 2,2 milhões na região.

Em um comunicado, a OMS informou que "se espera" uma alta, ou extrema, pressão sobre as unidades de terapia intensiva (UTI) "em 49 dos 53 países que integram a região, de agora até 1º de março de 2022" e que "as mortes acumuladas contabilizadas devem superar 2,2 milhões até a primavera" (hemisfério norte, outono no Brasil).

A covid-19 provocou 1,5 milhão de mortes até o momento na Europa.

Segundo dados oficiais, as mortes ligadas ao coronavírus dobraram desde o final de setembro, passando de 2.100 por dia para cerca de 4.200, em média, na Europa.

Com uma frase impactante, o ministro da Saúde alemão, Jens Spahn, alertou nesta terça-feira que no final do inverno todos estarão "vacinados, curados ou mortos" devido à disseminação da variante delta no país.

Para a OMS, o aumento de casos se explica pela combinação de três fatores: virulência da variante delta, altamente contagiosa; vacinação insuficiente; e flexibilização das restrições sanitárias.

"A situação na Europa e na Ásia Central é muito séria. Enfrentamos um inverno cheio de desafios", afirmou o diretor da OMS para a Europa, Hans Kluge, pedindo que, à vacinação, sejam somadas medidas de prevenção, como o uso de máscara, higiene e distanciamento físico.

Na União Europeia, 67,7% da população está totalmente vacinada, embora as diferenças entre os países sejam impressionantes. Na Bulgária, apenas 24,2% da população está vacinada, contra 86,7% em Portugal.

Atualmente, a Comissão trabalha em uma "atualização" das recomendações e prevê apresentar as suas propostas de mudanças no certificado europeu nos próximos dias.

Por outro lado, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) anunciou na terça-feira que decidirá em algumas semanas se autoriza a comercialização da pílula anti-covid da Merck, Molnupiravir, vendida sob o nome Lagevrio.

"A EMA avaliará os benefícios e riscos do Lagevrio em um curto espaço de tempo e poderá emitir parecer em poucas semanas se os dados apresentados forem sólidos e completos o suficiente para demonstrar a eficácia, segurança e qualidade do medicamento", afirmou.

Protestos

Enquanto isso, os governos decidiram apertar as medidas para neutralizar o aumento de infecções na região. Na Áustria, a população está novamente confinada desde segunda-feira. Na Bélgica e na Holanda, os governos impuseram novas restrições à saúde, gerando manifestações violentas.

Um ato de "pura violência" por "idiotas", disse o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, referindo-se à agitação que abala o país desde sexta-feira.

Protestos violentos também foram registrados do outro lado do Atlântico, nas Antilhas francesas. Tanto os trabalhadores da saúde como os bombeiros se opõem ao passe sanitário e à vacinação obrigatória do pessoal médico.

Embora, de acordo com a OMS, "haja evidências crescentes de que a proteção induzida pela vacinação contra infecções leves e formas benignas está diminuindo", a organização recomenda um reforço da vacina para os mais vulneráveis, incluindo os imunossuprimidos.

Na França, o Conselho de Defesa vai abordar a questão da terceira dose na quarta-feira, em um contexto de aumento das infecções. Na segunda-feira, o primeiro-ministro, Jean Castex, testou positivo para covid-19.

Esta reunião vai permitir "abordar a questão da terceira dose da vacina, tendo em conta as recomendações que obtivemos de diferentes autoridades científicas e de saúde", afirmou o ministro da Saúde, Olivier Véran.


AFP/Agência Estado/Dom Total



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