Meio Ambiente

25/11/2021 | domtotal.com

A falência do nosso verde

É extinção ampla, geral e irrestrita de emprego, renda e vida

Desmatamento da Amazônia Brasileira
Desmatamento da Amazônia Brasileira (Marizilda Cruppe/Amazon Watch/Amazônia Real)

Ricardo Soares*

Uma das primeiras e mais acachapantes lembranças que tenho da minha primeira viagem pela Amazônia – julho de 1981! – foi ver passar ao meu lado, por toda a extensão da Belém-Brasília e do trecho da Transamazônica que percorri, uma infinidade de caminhões transportando toras de madeira imensas, algumas delas que só mais de 10 homens poderiam abraçar.

Essas visões foram aterradoras e ficam ainda mais ao se pensar que nos últimos 40 anos, em velocidade desenfreada, a quantidade de madeira ilegal retirada da floresta não parou um único dia. Imaginem a devastação além de julho de 1981, que hoje está muito além de Altamira, Tocantinópolis, Araguaína, Paragominas e outros tantos locais por onde passei como repórter da extinta revista Boléia, uma publicação dirigida a caminhoneiros, que era então editada pela também extinta Bloch. Lamentei naquela ocasião não ter contatos ou capilaridade para poder denunciar o que via além de registrar a minha viagem com foco nos caminhoneiros. É por isso, diga-se de passagem, que louvo, apesar de sua prolixidade, a jornalista Eliane Brum, que faz da Amazônia a sua grande e justa causa. Ela tem sido testemunha ocular do horror que lá segue sendo perpetrado.

O tal "horror amazônico", nem é necessário dizer, está sendo multiplicado vorazmente no desgoverno que nos assola e, mesmo assim, muita gente acha exagero e figura de retórica dizer que a Amazônia está morrendo e que em breve essa destruição será irreversível, se é que já não chegamos a esse ponto, conforme apontam alguns estudos.

O mais recente dado aterrador é que foram 745 milhões de árvores que tombaram em um ano para que o número de 13.235 km2 desmatados fosse possível. Esse é o projeto de Brasil que está literalmente sendo "vendido".  O que está ocorrendo segue sendo inaceitável, mas nada vem sendo feito pra se deter o apocalipse verde que não mata só as florestas, mata a todos nós. Sem contar que a alta de 21,9% no desmatamento em um ano está sendo ocultada ou relativizada muito além do tal predatório "agro pop", que quer seguir perpetrando as barbáries que comete com o argumento de geração de emprego e renda. Se seguir assim, é de se perguntar: geração de emprego e renda para quem a curto prazo? Nesse movimento não é geração é extinção ampla, geral e irrestrita de emprego, renda e vida.

A Amazônia definha e fingimos não ver apesar das advertências planetárias. Índios que denunciam os absurdos são assassinados e têm suas terras invadidas pelo garimpo ilegal que, de quebra, detona as águas da maior bacia hidrográfica do mundo. E fingimos não ver. O tal "poder legislativo nacional" legaliza crimes de grileiros e assim caminha nossa desumanidade. E lá vai o Brasil descendo a ladeira rumo ao abismo ambiental, climático e humano.

Tanto na região onde moro na Grande São Paulo, onde especuladores e devastadores maquiam de verde suas propagandas enganosas, até a Amazônia profunda segue, célere, a destruição do tal "verde" que se vende como saudável, mas é carbonizado todos os dias. Muita gente acreditando numa sustentabilidade de mentira esquecendo que o Brasil, infelizmente, se tornou um país criminoso ambiental. Ou seja, se os países da Europa e resto do mundo resolverem mesmo boicotar nossos produtos por conta dos nossos crimes ambientais, estamos é dando um baita tiro no pé. Ou será que nossa intenção é também glamourizar o deserto como Dubai? Se for essa intenção, se liguem na diferença. Aqui não temos petrodólares para financiar o delírio. E seguiremos sendo sim uma nação apostando forte na falência do nosso verde.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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