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30/11/2021 | domtotal.com

Hawkeye: Gavião Arqueiro na berlinda

Série traz mais um case de mentoria na franquia Marvel

Hailee Steinfeld e Jeremy Renner na série Hawkeye
Hailee Steinfeld e Jeremy Renner na série Hawkeye (Disney+/Marvel)

Alexis Parrot*

A presença do Gavião Arqueiro entre os membros dos Vingadores é geralmente questionada, e não por acaso. Sem a força do Hulk ou sem uma armadura como a do Homem de Ferro, o exímio arqueiro sempre pareceu um pouco deslocado entre os companheiros de time, uma espécie de primo pobre no meio de tanta gente com algum super poder. Herói sim, mas super? Definitivamente não.

O próprio Jeremy Renner já fez troça com o assunto em quadro memorável do Tonight Show de Jimmy Fallon, em 2015. Caracterizado como o personagem, o ator interpretou uma paródia de Thinking out loud, de Ed Sheeran, questionando se alguém nota sua presença em meio a tantos parceiros poderosos na tela do cinema.

Em clima intimista e ao piano, tenta levantar a própria bola listando qualidades que poderiam colocá-lo em pé de igualdade com os outros membros do grupo - como neste trecho, em tradução livre:

É sério, eu coleciono cachecóis e boinas
e toco trombone numa banda de ska.
Já beijei num encontro do Tinder
e meu gato tem até Instagram.

Eu arraso no Minecraft,
fiz uma ponta num filme legal  
e consigo abrir um pote de picles.
Droga, eu sou o Gavião!
Talvez também seja um super herói.

Aparentemente, estes dias de melancolia e exclusão terminaram. Com a estreia de Hawkeye no Disney+, o mais subestimado entre todos os heróis da Marvel finalmente ganhou uma série para chamar de sua. Mas, como o Gavião será sempre o Gavião, nem na própria série ele consegue ser o protagonista.

A trama movimenta o encontro entre Gavião e Kate Bishop (Hailee Steinfield, a Emily Dickinson da série da Apple TV+), rica herdeira de uma corporação de serviços de segurança e prodígio das artes marciais. Inicialmente a contragosto, ele a colocará debaixo da asa, passando a treiná-la nos segredos do arco e flecha enquanto se digladiam com a Máfia do Moleton, uma gang atrapalhada de criminosos russos baseado em Nova York.

A série é o prelúdio de outro núcleo de aventuras, também presente nas HQs de Stan Lee. A relação entre os personagens pavimenta o caminho para que, em futuro próximo, novas subtramas sejam incorporadas ao já inflado UCM (Universo Cinematográfico Marvel) por meio dos Jovens Vingadores.

Como de costume neste tipo de produção, a pancadaria segue presente, porém, de maneira mais modesta e com coreografias menos engenhosas do que as vistas no cinema. Já as piadas espertinhas (marca indelével da Marvel) assumem uma onipresença que beira o incômodo. A exata calibragem entre caco e texto é uma arte, além de prova de fogo para qualquer realizador. Exímio estrategista neste campo é Taika Waititi, responsável pelas aventuras solo do Thor desde a bem-vinda lufada de ar fresco que foi Ragnarok.

Voltando à trama, trata-se de mais um entre tantos cases de mentoria dentro da franquia. O Gavião Clint Barton assumirá para a neo Gaviona Kate Bishop o mesmo papel que Tony Stark desempenhou junto a Peter Parker, cuja tocha será passada para o Dr. Estranho no próximo filme do amigo da vizinhança. Emula igualmente a relação entre Hank Pym e Scott Lang nos filmes do Homem-Formiga e o que certamente veremos entre Bruce Banner e Jennifer Walters na vindoura série da Mulher Hulk.

Ainda que repetitiva, trata-se apenas de uma storyline a camuflar o verdadeiro epicentro de toda a psicologia de botequim que norteia (e tenta justificar) o que move e teme a grande maioria desses personagens. Thor, Loki, Homem de Ferro, Homem-Aranha, Homem-Formiga, Guardiões da Galáxia e Shang-Chi carregam em comum algum tipo de embate com a figura do pai. No caso de Wandavision e Viúva Negra, apenas troca-se o pai pela mãe.

Esta série do Gavião é só mais um filhote desta mesma ninhada. Os Estúdios Marvel, principalmente na figura de seu todo poderoso CEO Kevin Feige e mesmo em se tratando de uma propriedade da Disney, precisam entender que para ser um filme família o assunto não precisa versar obrigatoriamente sobre família. Seria bom trocar o disco em algum momento, antes que o truque acabe nos cansando em definitivo.

A menina que perde o pai em meio à Batalha de Nova York (como vista em Vingadores, Era de Ultron) e, ato contínuo, se encanta com a atuação heroica do Gavião Arqueiro contra os invasores alienígenas, é o ponto de partida da série. Além de reforçar a analogia com os ataques terroristas de 11 de setembro já contida no filme original, desvela-se mais um episódio entre tantos a se inserir na timeline do conjunto da obra.

E esta talvez seja a grande questão relativa ao UCM. Ao contrário de outras sagas de fantasia consagradas do entretenimento contemporâneo (como Star Wars, O Senhor dos Anéis e Game of Thrones) que almejam a criação de uma nova mitologia em torno de suas narrativas, os filmes da Marvel se contentam em apenas estabelecer uma timeline crível e coerente. Apesar de uma das chaves do sucesso da franquia, esta busca desenfreada por verossimilhança (mesmo dentro de uma realidade fantástica) não deveria ser a grande meta.

Do alto de toda a sua superficialidade planejada, Hawkeye resulta sem dúvida divertida, como todo filme ou série da Marvel (uns mais, outros menos). Mas com tantos super poderes à mão, tantas galáxias à disposição e a atenção fiel de uma legião de fãs, a grife poderia ambicionar mais. Perdida entre a comédia romântica e um filme de ação, a série começa mais ou menos como a trajetória de seu protagonista no grupo dos Vingadores, sem se destacar no conjunto e sem despertar grandes paixões.

Apesar do talento no arco e flecha, ainda não foi desta vez que o Gavião acertou na mosca.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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