Religião

02/12/2021 | domtotal.com

Assembleia Eclesial: o que afeta a todos, deve ser tratado e discernido por todos

Em meio da diversidade, a maioria dos desafios são comuns

Abertura da Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe
Abertura da Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe (Vatican News)

Élio Gasda*

Catorze anos separam a V Conferência do CELAM da Primeira Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe. Nesse período, muitas foram as turbulências sociais, políticas e econômicas que tenham gerado desanimo em colocar em prática os projetos apresentados em Aparecida. Enriquecido pelo Sínodo da Amazônia, a Igreja deu mais um passo no processo sinodal nesta Assembleia: "Somos todos discípulos missionários em saída".

Realizada entre os dias 21 e 28 de novembro a Assembleia reuniu mais de mil participantes de todo continente. A delegação brasileira contou com 314 participantes entre bispos, padres, religiosos e leigos. Atendendo a um pedido do Papa Francisco, representantes dos diversos organismos, ministérios e pastorais tiveram assento, voz e vez. No encontro, 20% dos participantes eram de bispos. Quase 40 % eram de mulheres, principal força de renovação da Igreja. Porém, muitas estão sufocadas pelo clericalismo machista.

O documento oficial ainda não foi apresentado, mas é possível perceber que, em meio da diversidade de culturas, idiomas, a maioria dos desafios, são comuns em toda América Latina e Caribe: migração, fome, impactos da pandemia, cuidado com a Casa Comum, desemprego e exclusão, clericalismo e autoritarismo. Pois, ouvir as periferias existenciais e geográficas, "‘escutar’ a voz de Deus até escutar com Ele o clamor do povo, e escutar o povo até respirar nela a vontade a que Deus nos chama", é a proposta de Francisco.

Para uma igreja verdadeiramente em comunhão, a Assembleia divulgou uma Mensagem apontando desafios e orientações. Entre eles, destacam-se: reconhecer e valorizar o papel dos jovens na comunidade eclesial e na sociedade como agentes de transformação; Promover a participação ativa das mulheres nos ministérios, instâncias de governo e no discernimento eclesial; Impulsionar a participação dos leigos em espaços de transformação culturais, políticas, sociais e eclesiais; Reformular os processos de formação dos seminários, incluindo temas como ecologia integral, povos originários, inculturação e interlocução e interculturalidade e pensamento social da Igreja; Renovar, à luz do Evangelho e do Vaticano II, o conceito e experiência de Igreja Povo de Deus, em comunhão com a riqueza de sua ministerialidade, superando  as formas de clericalismo; A reafirmação do documento "Querida Amazônia"; o acompanhamento de indígenas e afrodescendentes que lutam por direito a vida, a terra e a cultura.

Merece destaque especial o compromisso com o acolhimento aos migrantes e refugiados e o empenho na defesa, promoção e criação de políticas públicas para o respeito do direito humano de migrar, de não migrar, do refúgio e asilo. Também a necessidade de revisar estruturas pastorais de transmissão da fé ultrapassadas, promovendo uma pastoral urbana e misericordiosa que considera os novos sujeitos da evangelização: migrantes, pobres, jovens, pessoas com distintas orientações sexuais e capacidades diferentes. O pobre, sacramento vivo do Cristo, obriga a escolhas sempre mais corajosas.

As novas configurações familiares são apontadas como desafio. O modelo matrimonial, heteronormativo e patriarcal de família perde a hegemonia para famílias fundadas nas relações afetivas, na redefinição dos papéis de gênero e na necessidade de sobrevivência. Se as famílias não são todas iguais, é hora de pensar uma pastoral familiar que integre as novas expressões de família.

A Assembleia é um apelo a abandonar a vida cristã confortável e enfrentar os impasses a partir do "encontro pessoal com Jesus Cristo encarnado na realidade do continente". Esse é o caminho para a construção de uma Igreja configurada como comunidade de iguais.

O processo sinodal culminará em outubro de 2023 em Roma, com a XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos. Sinodalidade é povo de Deus caminhando junto. Discernindo junto. Sínodo é caminho de discernimento do povo de Deus como sujeito ativo da vida da Igreja. Todo batizado, juntamente com os pastores, participa da mesma missão de Cristo.

Quod omnes tangit, ab omnibus tractari e approbari debet (o que afeta a todos, deve ser tratado e aprovado por todos)! Toda a Igreja é discente e docente. Leigos, padres, religiosos, bispos, padres e teológos, são todos aprendizes da escola do Evangelho. A Igreja surgiu do mistério de um Deus encarnado. Ser Igreja é ser discípulo de Jesus. O processo sinodal exige uma ética teológica à altura. Encontrar, escutar, discernir.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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