Religião

03/12/2021 | domtotal.com

Papa faz apelo à superação de divisões em Nicósia

Em encontro com migrantes, Francisco pediu 'humanidade sem muros de separação' e desafiou Chipre a ser 'laboratório de fraternidade'

O papa Francisco celebra missa no estádio municipal de Nicósia, Chipre
O papa Francisco celebra missa no estádio municipal de Nicósia, Chipre (Andreas SOLARO/AFP)

O papa Francisco reiterou nesta sexta-feira (3) os apelos por "fraternidade" e "diálogo", durante uma missa para milhares de pessoas em Chipre, no segundo dia de sua visita a esta ilha do Mediterrâneo.

O pontífice pediu para recuperar a "fraternidade diante de nossas próprias sombras e dos desafios que a Igreja e a sociedade enfrentam", durante a missa para 7.000 pessoas no estádio municipal de Nicósia.

"Se não nos reunirmos, se não falarmos, se não caminharmos juntos, não poderemos sanar plenamente nossa cegueira", disse Francisco diante do presidente cipriota, Nicos Anastasiades, e de um importante dispositivo de segurança.

Ele pediu aos fiéis que "permaneçam sempre unidos". No público eram observadas bandeiras libanesas, argentinas e até filipinas. Um coro de 130 pessoas de diferentes nacionalidades entoou canções em árabe, inglês e grego diante do altar.

"Mensagem de amor"

Entre os participantes da missa estavam membros da comunidade católica cipriota, que tem 25.000 pessoas, em sua maioria imigrantes asiáticos e africanos.

Janine Daou, de 39 anos, viajou do Líbano, "apesar das dificuldades econômicas", para "pedir ajuda" a seu país.

Jackylyn Fo Bulado, uma trabalhadora doméstica filipina de 31 anos, afirmou: "Temos muita sorte, esperamos uma simples mensagem de amor e de paz do papa, e que abençoe o Chipre e o mundo".

A viagem é marcada pela vontade de diálogo com a Igreja ortodoxa, separada da Católica desde o cisma de 1054 entre Roma e Constantinopla.

Nesta sexta-feira, o arcebispo Crisóstomo II, primaz da igreja local, recebeu o pontífice pouco antes de Francisco se encontrar com o Santo Sínodo, que reúne as principais autoridades ortodoxas da ilha na catedral de Nicósia.

"Espero sinceramente que tenhamos mais oportunidades para nos encontrarmos, para que nos conheçamos melhor, rompendo os muitos preconceitos e ouvindo de maneira dócil as experiências de fé de uns e outros", declarou o papa, antes de assegurar aos "irmãos" a "proximidade com a Igreja Católica".

Na quinta-feira, Francisco fez um apelo à "unidade", ante a "terrível ferida" da ilha cipriota, dividida desde 1974, quando aconteceu a invasão turca que desencadeou a formação da autoproclamada República Turca do Norte do Chipre (RTNC).

Oração ecumênica

Em uma região afetada pelos conflitos e a crise migratória, o papa alertou novamente a Europa sobre o perigo dos "muros do medo" e dos "interesses nacionalistas".

Após a visita de Bento XVI em 2010, esta é a segunda viagem de um papa à ilha de Chipre, que Francisco considera "um verdadeiro ponto de encontro entre diferentes culturas e etnias".

Com esta viagem, a 35ª desde sua eleição em 2013, Francisco pretende chamar a atenção sobre o tema migratório, um grande problema em Chipre e na região, que provoca tensões na União Europeia.

Francisco, de 84 anos e filho de migrantes italianos que se mudaram para a Argentina, não para de pregar sobre o acolhimento de milhares de "irmãos e irmãs", sem distinção de religião, ou de status de refugiado ou migrantes econômico.

Nesta sexta-feira, ele também presidiu uma oração ecumênica, um momento de união de todos os cristãos, ao lado de migrantes em uma igreja da zona intermediaria da ilha administrada pela ONU.

O papa também cogita em levar para a Itália 50 migrantes que estão em Chipre, afirmou na quinta-feira o presidente da ilha. Mas o Vaticano não confirmou a informação.

As autoridades de Chipre afirmam que recebem o maior número de pedidos de asilo da UE em comparação a sua população: quase 10.000 durante os 10 primeiros meses do ano.

Encontro com migrantes

O Papa encontrou-se hoje com um grupo de migrantes, na igreja da Santa Cruz, em Nicósia, pedindo uma humanidade sem "muros de separação".

"Deus chama-nos também a não nos resignarmos com um mundo dividido, com comunidades cristãs divididas, mas a caminhar na história atraídos pelo sonho de Deus, isto é, uma humanidade sem muros de separação, liberta da inimizade, sem estrangeiros, mas apenas concidadãos", referiu, durante o encontro ecuménico de oração, que decorreu esta tarde na capital cipriota.

Os migrantes estavam acompanhados por responsáveis de instituições cristãs que os acompanham, como a Cáritas.

"Quantos dos vossos irmãos e irmãs ficaram pelo caminho. Quantos, desesperados, iniciam o percurso de forma muito difícil, precária, e não conseguiram chegar. Podemos dizer que este mar se tornou um grande cemitério", advertiu o Papa.

Numa passagem improvisada da sua intervenção, Francisco recordou quem, ao deixar a sua terra, foi "raptado, vendido, explorado", presos em "verdadeiros ‘lager’" que apresentou como "lugares de tortura".

"É a história da escravatura, uma escravatura universal", denunciou.

O Papa lamentou que a humanidade se esteja a "habituar" a esta situação, aos naufrágios, às tragédias, falando numa "doença grave".

"É a guerra deste momento, o sofrimento de irmãos e irmãs que não podemos calar", acrescentou.

Francisco propôs uma sociedade de "concidadãos reconciliados", agradecendo o testemunho apresentado por quatro jovens: Mariamie, da República Democrática do Congo; Thamara, do Sri Lanka; Maccolins, dos Camarões; e Rohz, do Iraque.

"Não somos números, indivíduos a catalogar; somos irmãos, amigos, crentes», próximos uns dos outros", insistiu.

O Papa alertou para as "feridas" provocadas na vida de tantas pessoas, por "interesses" particulares, convidando todos a reconhecer Jesus no "rosto do irmão marginalizado e descartado".

"Neste mundo, habituamo-nos à cultura da indiferença, à cultura de olhar para o outro lado e adormecer, assim, sossegados. Neste caminho, nunca se pode sonhar, é duro".

Francisco é o segundo Papa a visitar o Chipre, onde Bento XVI, hoje Papa emérito, esteve em 2010.

Em 1974, a Turquia invadiu esta ilha do Mediterrâneo e autoproclamou a República de Chipre do Norte; desde essa altura, o lado norte da cidade de Nicósia está sob jurisdição turca, com uma zona tampão controlada pelas Nações Unidas

Perante a visão de um muro, com arame farpado, o Papa deixou votos de que o país, "marcado por uma dolorosa divisão" se possa tornar, "com a graça de Deus, um laboratório de fraternidade".

O patriarca latino de Jerusalém, D. Pierbattista Pizzaballa, proferiu uma saudação inicial, na qual afirmou que os países do primeiro mundo têm de entender que "o seu futuro" depende também da resposta ao "grave problema" das migrações.

"O futuro da Europa decide-se no Mediterrâneo, por onde passam não só as fontes de energia e de riquezas, mas também os recursos humanos, as pessoas e as populações com que teremos de nos confrontar e sem os quais não haverá desenvolvimento nem futuro", indicou o responsável católico.

A Cáritas do Chipre ajuda, neste momento, mais de 10 mil pessoas em toda a ilha, que recebe "mais requerentes de asilo per capita do que qualquer outro país da União Europeia", segundo os seus responsáveis.

Este foi o último encontro público do Papa em território cipriota, onde chegou esta quinta-feira.

Na manhã de sábado, Francisco parte do aeroporto de Larnaca rumo a Atenas, onde deve chegar pelas 11h10 locais (menos duas em Lisboa), após um voo de 895 quilómetros.

 A 35ª viagem apostólica do pontificado decorre até segunda-feira, incluindo o regresso do Papa Francisco a Lesbos, onde se encontrou com refugiados em 2016.


AFP



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