Religião

05/12/2021 | domtotal.com

Papa critica o 'naufrágio da civilização' por abandono de migrantes na ilha de Lesbos

Mediterrâneo 'está se tornando um cemitério frio sem lápides', disse o papa

O papa Francisco em sua chegada à ilha grega de Lesbos, para visitar o campo de refugiados de Mavrovouni, em 5 de dezembro de 2021
O papa Francisco em sua chegada à ilha grega de Lesbos, para visitar o campo de refugiados de Mavrovouni, em 5 de dezembro de 2021 (Andreas SOLARO/AFP)

O papa Francisco denunciou, neste domingo (5), o "naufrágio da civilização" que abandona os migrantes, em sua chegada ao acampamento de refugiados da ilha grega de Lesbos, onde foi calorosamente recebido por numerosas famílias.

O segundo dia da viagem do pontífice à Grécia é marcado por uma visita ao campo de Mavrovouni, que ainda abriga cerca de 2.200 requerentes de asilo em condições difíceis.

No local, durante um discurso emotivo, Francisco fez um apelo para enfrentar o "naufrágio da civilização", cinco anos após sua primeira visita a esta ilha grega em meio à crise migratória.

O Mediterrâneo "está se tornando um cemitério frio sem lápides [...] eu imploro, vamos parar este naufrágio da civilização!", declarou ao ser recebido por vários refugiados que se reuniram entre os contêineres e tendas.

O pontífice argentino cumprimentou longamente e abençoou as famílias presentes, incluindo muitas crianças. "Bem-vindo!", "nós te amamos", disseram a ele.

Mavrovouni é uma estrutura construída às pressas em um antigo campo de tiro do exército após o incêndio no acampamento de Moria, em setembro de 2020. Este acampamento insalubre era o maior da Europa.

Cerca de 40 requerentes de asilo, a maioria católicos de Camarões e da República Democrática do Congo (RDC), vão assistir ao Angelus dominical e estiveram presentes no discurso proferido pelo papa sob uma tenda, na presença de vários líderes religiosos, da presidente grega, Katerina Sakellaropoulou, do vice-presidente europeu, Margaritis Schinas, e do ministro grego das Migrações, Notis Mitarachi.

Christian Tango, um congolês de 31 anos, falará ao papa. Ele "espera que o papa leve a voz" dos refugiados "a todo o mundo e em particular aos países europeus que devem acolher os refugiados com mais humanidade os refugiados".

"Esta visita é uma bênção. O papa é o nosso líder espiritual", disse neste domingo à AFP a congolesa Roseta Leo, enquanto aguardava a chegada do pontífice.

"Humanos, não prisioneiros"

Sua compatriota Orphée Madouda, que assistirá ao Angelus, comemora: "é a primeira vez que vou ver o papa", mas depois lamenta: "Nós refugiados somos seres humanos e devemos ser tratados como tal e não como prisioneiros".

Em 2016, a ilha de Lesbos tornou-se a principal porta de entrada para milhares de migrantes que tentavam chegar à Europa. "Somos todos migrantes", disse Francisco quando visitou o campo de Moria em abril daquele ano.

Alguns refugiados agora esperam voltar com ele para Roma, como aconteceu em 2016. Naquele ano, ele voltou com 12 refugiados sírios. Desta vez, 50 migrantes serão transferidos de Chipre, onde esteve na quinta e sexta-feira.

De fato, em Atenas, a possibilidade de que alguns dos requerentes de asilo de Mavrovouni possam acompanhar o papa de Lesbos à Itália não foi descartada.

Três acampamentos do tipo já foram abertos nas ilhas de Samos, Leros e Cos, e outros em Lesbos e Chios estão previstos para o próximo ano. Eles são cercados por arame farpado e fechados com portas de raios-X.

A visita do papa a Lesbos, mais curta do que em 2016, será seguida no domingo em Atenas por uma missa para cerca de 2.500 fiéis.

Tema principal de seu pontificado, a causa dos refugiados continua sendo a pedra angular da 35ª viagem do papa.

O pontífice argentino "está convencido de que a questão dos migrantes é a maior catástrofe humanitária após a Segunda Guerra Mundial", segundo o escritor italiano Marco Politi, especialista em notícias do Vaticano.

Jorge Bergoglio, que vem de uma família de migrantes italianos radicados na Argentina, tem defendido constantemente o acolhimento de milhares de "irmãos e irmãs", independentemente de sua religião ou condição de refugiado.

Em Atenas, no sábado, criticou perante os dirigentes gregos "a comunidade europeia, dilacerada pelos egoísmos nacionalistas", que "às vezes parece bloqueada e descoordenada, em vez de ser um motor de solidariedade".


AFP



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