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07/12/2021 | domtotal.com

Meninas com rara chance de estudar sob o domínio Talibã se atrevem a sonhar

Centro de ensino em Nawabad permaneceu em funcionamento porque é administrado por uma ONG, o que reflete as contradições no país

Mulheres assistem aula na escola Noorania, na cidade de Sharan, na província afegã de Paktika, em 16 de novembro de 2021
Mulheres assistem aula na escola Noorania, na cidade de Sharan, na província afegã de Paktika, em 16 de novembro de 2021 (Hector RETAMAL/AFP)

Quando os talibãs assumiram o controle da cidade de Nawabad, na região central do Afeganistão, as aulas continuaram na escola local no Ensino Médio para meninas, uma exceção na comparação com a maior parte do país, onde as adolescentes foram impedidas de prosseguir com os estudos.

O centro de ensino permaneceu em funcionamento porque é administrado por uma ONG, o que reflete as contradições no país com as regras implementadas pelo novo governo. "Os talibãs vieram e viram as estudantes e as aulas. Eles ficaram felizes porque todas usavam o hijab", afirmou à AFP uma das professoras, Forozan.

Desde seu retorno ao poder em agosto, os talibãs anunciaram restrições severas às mulheres, apesar das promessas de um regime com menos brutalidade que o de seu mandato anterior (1996-2001).

Em algumas províncias, as autoridades locais talibãs foram convencidas a reabrir as escolas, mas milhões de meninas continuam marginalizadas.

Em Nawabad, a escola é administrada pelo Comitê Sueco para o Afeganistão (SCA), uma organização presente no país há quatro décadas. A localidade fica na província de Ghazni, controlada pelos talibãs durante muito tempo e onde a educação feminina é tolerada de maneira geral.

Sonhos universitários

Em Langar, outra localidade do distrito, a única turma para adolescentes e mulheres jovens de outro projeto administrado pelo SCA também prossegue com aulas.

"Quando os talibãs tomaram Cabul, não tínhamos nenhuma esperança de que deixariam a escola continuar", disse Mahida, de 18 anos.

Sua turma é formada por mulheres de 18 a 26 anos, que se preparam para exames de fim de ano. "Estávamos com medo de frequentar a escola. Não podíamos sair de casa devido à guerra", conta Mahida.

Todas as jovens de Langar esperam continuar com os estudos para virar professoras, médicas ou engenheira. Mas ainda não sabem se poderão fazer as provas de acesso à universidade.

Mesmo antes do retorno dos talibãs, muitas jovens da província de Ghazni estavam privadas das aulas do Ensino Médio em consequência da distância, da pobreza, do conflito e dos casamentos precoces.

No vilarejo remoto de Jangalak, Zahra, de 19 anos e que sonha em ser engenheira, comparece a uma aula do SCA para estudantes com lacunas na educação.

Os talibãs aprovaram as turmas, mas a aula de orgulho cívico e patriotismo foi substituída por educação religiosa.

"Vejo os talibãs todos os dias quando vou para a aula" explica Zahra. "Eles não têm problemas conosco", afirma.

Porém, no mesmo prédio, outras alunas que antes frequentavam aulas administradas pelo Estado ficaram retidas em casa desde a mudança de poder.

- Desigualdade -

Dados de 2016 do ministério da Educação mostraram que menos de 20% das mulheres sabiam ler e escrever no Afeganistão, contra mais de 60% do homens.

O secretário adjunto de Cultura da província de Ghazni tenta justificar a suspensão das aulas. "Precisamos encontrar dinheiro para pagar os salários dos professores", declarou à AFP Mansoor Afghan.

E os currículos escolares também devem ser avaliados para sabe se são "bons ou ruins" e mais professores devem ser contratados, completa.

O porta-voz talibã Suhail Shaheen declarou à AFP que espera o retorno das alunas nos próximos meses. Mesmo com a volta às aulas, os próximos passos sonhados pelas estudantes de Langar e Nawabad, universidade e carreira, parecem fora de alcance.

Desde agosto, as mulheres foram amplamente vetadas de trabalhar fora das áreas da educação e saúde.

Muitos expressam ceticismo com as promessas dos talibãs, que foram particularmente brutais com as mulheres durante seu primeiro mandato.

A esperança é que, em seu esforço para tentar obter apoio internacional e recuperar a ajuda financeira, os fundamentalistas façam concessões.

"Esperamos que reabram as universidades e que, quando terminarmos o Ensino Médio, consigamos frequentar sem problema", afirmou Shafiqa, de 17 anos, sentada na primeira fila da aula de Nawabad e que deseja estudar Medicina.


AFP



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