Cultura

14/12/2021 | domtotal.com

A vida sexual das universitárias: entre as melhores do ano

Sexo, amizade e política em série para fazer rir e pensar

Cena das quatro amigas em 'A vida sexual das universitárias'
Cena das quatro amigas em 'A vida sexual das universitárias' Foto (Divulgação/HBO Max)

Alexis Parrot*

Após dois longa-metragens e uma prequel adolescente, o prazo de validade de Sex & the City foi novamente posto à prova com a estreia do revival And just like that..., construído a partir da máxima de que os 50 anos são os novos 30. Porém, na mesma medida em que a série se tornou indiscutível fenômeno cultural, também deixou em seu rastro uma maldição.

D'après Carrie Bradshaw e companhia limitada, quantas outras séries parecidas nos foram descarregadas sobre os ombros através dos anos? Desde a aclamada Girls, passando por Girlfriends, Younger e The Bold Type, até a recém-estreada Harlem (para citar apenas algumas), a fórmula consagrada por Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha foi revisitada inúmeras vezes, raramente com o mesmo brilho do original.

Em meio a tantos copycats e descendentes bastardos, eis que surge uma grata surpresa; uma série que, a despeito do título um tanto apelativo, está se revelando verdadeiro colírio para nossas retinas tão fatigadas, irremediavelmente grudadas nas telas do streaming.

Trata-se de A vida Sexual das Universitárias, uma verdadeira celebração da amizade. Recém-chegadas ao fictício Essex College na Nova Inglaterra, quatro calouras se tornam companheiras de quarto e futuras melhores amigas, à medida em que vão se conhecendo e se apoiando mutuamente.

As questões são as mesmas de sempre, adaptadas à faixa etária das personagens: amor, sexo, relacionamentos, estudos, família e carreira - na verdade, nada muito diferente do que seguimos enfrentando com o passar dos anos. Celulares e redes sociais surgem não como assunto, mas como parte indissociável da vida contemporânea e trabalhados organicamente no roteiro. O tema principal (tratado com muito bom humor e sagacidade) é a própria vida.

Como em Sex & the City, o ponto de vista é feminino e cada uma das quatro protagonistas tem a personalidade bem definida e diversa. Cada uma, à sua maneira, traz ingrediente próprio para enriquecer a divertida mistura de tipos que convive nos corredores e salas de aula do Essex College. Mas as semelhanças param por aí.

Pauline Chalamet (sim, a irmã de Timothée) é a pobre e romântica Kimberly; Amrit Kaur é Bela, geniazinha da comédia que sonha escrever para o Saturday Night Live e mente para os rigorosos pais indianos, dizendo que estuda neurociência; Reneé Rapp é Leighton, menina rica e mimada que faz questão de ser desagradável - porque escrava das convenções sociais; e, finalmente, Alyah Chanelle Scott é Whitney, brava jogadora de futebol sempre às turras com a mãe (uma senadora republicana) e meio desnorteada graças a um romance proibido.

Com exceção de Chalamet (descoberta para o grande público no recente A arte de ser adulto, de Jude Apatow), não se espante se nunca ouviu falar em Kaur, Rapp ou Scott. Acertadamente, foram escolhidas apenas caras novas e frescas para o elenco principal. Apesar do currículo mínimo ou inexistente até então, a competência da interpretação e carisma das quatro amigas surpreende e é a grande força da série.

Além disso, A vida sexual das universitárias é vitoriosa já na largada, por retratar as diversidades com naturalidade, senso crítico e até ironia, prestando valoroso serviço de utilidade pública. Bota no chinelo a nova versão de Gossip Girl, cujas pautas e elenco politicamente corretos implantados a fórceps na narrativa resultam em um programa superficial e imbecil.

Por exemplo, a menina mais à vontade com o próprio corpo e sexualidade na série é cadeirante. Fugindo do estereótipo geralmente reservado aos gays em séries de protagonismo feminino, um ator não binário interpreta um estudante gay que é apenas chato e não o melhor amigo da mocinha, ou o cara sensível ou a bicha má.

Um dos personagens secundários acabará se revelando o pior tipo de predador sexual, aquele que se faz de bom samaritano para se aproveitar das vítimas. Lobos assim, em pele de cordeiro, são mais corriqueiros do que se imagina, tornando difícil até que os identifiquemos como tal. Em uma época em que a TV está tão tomada por serial killers e psicopatas violentos, este grau de sutileza é digno de aplauso e raríssimo de encontrar em um programa, ainda mais de humor.

Vários dos clichês recorrentes do gênero marcam presença, porém, como alvo de riso ou tratados assumidamente como o que são. Rivalidades entre o time feminino e o masculino; a popularidade como questão da vida escolar; as fraternidades das escolas dos EUA e suas representações simbólicas; e relacionamentos amorosos entre alunos e professores estão entre alguns dos assuntos revisitados pela série. Mas, ao contrário do que estamos acostumados a ver por aí, tudo desemboca naturalmente em questões relacionadas à ética, com o intuito planejado de fazer pensar.

Vai na contramão de The Chair, produção recente da Netflix que movimenta o mesmo ambiente, mas do ponto de vista do corpo docente. Além de fracassar na tentativa de navegar por temas ligados à diversidade, o maior pecado da série estrelada por Sandra Oh é infantilizar emocionalmente os seus protagonistas. Em A vida sexual das universitárias, por outro lado, a juventude encontra um retrato mais fiel.

Batendo cabeça, acertando, errando e aprendendo (ou não) com os próprios erros, os ritos de passagem são diários e nenhum deles passa desapercebido pela pena ferina dos roteiristas da série. Criada pela estrela em ascensão da comédia norte-americana Mindy Kaling (a eterna Kelly Kapoor de The Office) e por Justin Noble (um dos escritores de Brooklyn Nine-Nine), a série não só é engraçada, como essencialmente política.

Primeiro, por tratar com liberdade o tema que seu título ousa dizer literalmente; segundo, por fazer uma elegia da diversidade, sem um mínimo de condescendência. De maneira inteligente e sincera, levanta bandeiras o tempo todo, ainda que sem obrigar-se a hasteá-las ostensivamente.

Se a ideia inicial era parodiar Sex & the City - algo como um Sex & the College - o resultado ultrapassa qualquer expectativa. É uma das melhores séries do ano e vale muito mais que uma loja ou closet repletos de Manolos.

(A VIDA SEXUAL DAS UNIVERSITÁRIAS - primeira temporada disponível na HBO Max).


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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