Cultura

21/12/2021 | domtotal.com

Melhores e piores séries: a lista

O que vivi para ver em 2021

Cena de 'Halston', da Netflix
Cena de 'Halston', da Netflix Foto (Divulgação/Netflix)

Alexis Parrot*

Com o final do ano, chegam aos quilos as indefectíveis listas de melhores issos e aquilos; uma tentativa (geralmente vã) de catalogar e organizar minimamente o tempo que passou e dar-lhe alguma concretude. Listas são problemáticas por princípio porque guardarão sempre algo de incompleto e de lacuna, por mais abrangentes que pretendam ser.

Como produzir uma lista de melhores séries, se é certo que ninguém viu tudo? Porém, a pergunta que de fato interessa talvez não seja esta, mas sim "por que produzir tal lista?" e "por que especialmente neste ano?".

Após perdermos todo e qualquer controle que ainda pudéssemos ter sobre os aspectos mais corriqueiros do cotidiano, talvez nos seja útil o método usado pelo protagonista de Alta Fidelidade, livro de Nick Hornby e depois filme de Stephen Frears. Decupando o mundo em listas, criava para si mesmo a impressão de que exercia algum domínio sobre a própria vida desajustada.

Desajustado como também foi 2021, um ano em que novamente passamos mais tempo diante da TV e do streaming do que gostaríamos (ou mesmo suportaríamos) em condições naturais.

Em recente entrevista à RAI, no programa Che tempo che fa, o italiano Nanni Moretti recordou o impacto da primeira onda do coronavírus, quando a Itália tornou-se um dos epicentros mundiais da pandemia. Quarentenado como qualquer um de nós, relatou ter se entregado às sete temporadas de Madmen durante a primavera europeia de 2020 - com a ressalva de considerar esta atividade como parte de seu trabalho de roteirista e cineasta.

Guardadas as devidas proporções, é neste espírito descrito por Moretti que também inscrevo o ofício ao qual me dedico; assistir televisão é parte obrigatória de minha lida diária, com ou sem quarentena. Que crítico de araque eu seria se não fosse capaz de oferecer aos leitores uma mísera lista de melhores e piores.

Compartilho abaixo análises e impressões sobre o que vivi para ver durante mais este ano atípico que já nos escorre pelos dedos.

(Para aquelas séries já resenhadas, segue o link com o artigo original.)

Nem melhores, nem piores

2021 foi o ano do fenômeno Round 6 (Netflix), ou Squid Game - o jogo da lula, em tradução literal. Por mais que a crítica ao capitalismo seja sempre bem-vinda, sou obrigado a confessar que as interpretações exageradas dignas de filme B com efeitos visuais de filme Z impediram meu engajamento à causa. Perto do Parasita de Bong Joon-ho, de temática semelhante, suas fragilidades ficam mais evidentes ainda.

Outro fenômeno, La Casa de Papel (Netflix), finalmente encontrou o ponto final. Deveria ter terminado na primeira temporada, mas o estica e puxa foi tanto que mais quatro foram paridas. Como bem ensinou Silvio Santos, acabou virando uma versão espanhola do Topa Tudo por dinheiro.

A despeito do sucesso de crítica e popularidade, Succession (HBO) segue não me interessando. Me parece um momento muito inadequado para qualquer tipo de celebração ao cinismo e à crueldade. De família poderosa, rica, branca e disfuncional já me bastam os Bolsonaros.

Da mesma forma, insisto em nadar contra a corrente quando me recuso a aplaudir o bobo Ted Lasso (Apple TV+), justamente por achar que a resposta a este estado geral de coisas em que nos encontramos atolados não deve recair sobre os discursos imbecilizantes da autoajuda e do bom-mocismo compulsório. Principalmente se o veículo escolhido for a comédia, território onde sempre irei preferir que reine a anarquia.
(https://domtotal.com/noticia/1531550/2021/08/ted-lasso-pouco-futebol-muita-autoajuda/)

Chegou a vez da TV incorporar o modelo narrativo da trilogia do Senhor dos Anéis (na verdade um filme dividido em três partes e não uma trilogia). Com apenas um arco dramático ultrapassando as temporadas, cada ciclo dá-se ao luxo de terminar sem desfecho e cheio de ganchos, como uma novela cujo próximo capítulo só chegará no ano que vem. American Rust (Paramount+) e Foundation (Apple TV+) são bons exemplos de séries devagar quase parando que caíram nesta armadilha.

Finalmente, há que se destacar o telefilme The many saints of Newark (HBO Max). Apesar de obrigatório para qualquer fã dos Sopranos, anima apenas por retomar aquele universo e vários dos personagens da série original. Como obra individual não se sustenta, nem aqui nem em Nova Jersey. (https://domtotal.com/noticia/1543241/2021/10/tony-soprano-esta-de-volta-capice/)

As piores séries do ano:

Cowboy Bebop (Netflix): desperdiçaram um clássico para forjar um produto sem alma, recheado apenas de pancadaria histérica e gratuita. De noir a neon, sobrou apenas o título e nada de poesia nesta malfadada adaptação live-action do anime ícone dos anos 90. Por sorte, a primeira temporada foi o suficiente para garantir o cancelamento imediato da série.

Gossip Girl (HBO Max): remake da série clássica, agora usando diversidade de boutique para discutir pretensos problemas do dia a dia de pobres meninos e meninas ricas. Superficial como um post patrocinado de influenciador digital e tão desnecessário quanto uma entrevista da Narcisa Tamborindeguy. · Clickbait (Netflix): (https://domtotal.com/noticia/1536660/2021/08/clickbait-como-nao-fazer-uma-serie-policial/)

Dexter (Paramount+): após o final decepcionante da série original, o serial killer mais querido da televisão retorna apenas para decepcionar mais uma vez. Esta nova temporada não vale a assinatura extra no streaming.

Verdades Secretas 2 (Globoplay): tentativa de pornô light misturado com policial à la CSI. Dramaturgia tão apelativa e sem noção que faz rir involuntariamente - quando não provoca engulhos.

As melhores séries do ano:

10) Halston (Netflix) (https://domtotal.com/noticia/1518030/2021/05/halston-cidadao-kane-da-moda/)

9) A vida sexual das universitárias (HBO Max) (https://domtotal.com/noticia/1555414/2021/12/a-vida-sexual-das-universitarias-entre-as-melhores-do-ano/)

8) Only murders in the building (Star+) (https://domtotal.com/noticia/1545820/2021/10/crime-castigo-e-risadas/)

7) Gomorra (Sky-HBO)

A série fenômeno italiana sobre a máfia napolitana ganha um epílogo coerente e sem dever nada ao vitorioso percurso de cinco temporadas. Construída a partir da experiência do autor Roberto Saviano como infiltrado na Camorra, mas descolada do livro e do filme de Matteo Garrone, a série acompanha a trajetória de Gennaro Savastano e Ciro De Marzio, irmãos no crime e chefes de peso do tráfico de drogas à sombra do Vesúvio. Se no inicio um era o herdeiro de um império fora da lei e o outro um mero soldado, terminam ombro a ombro, disputando o poder em Secondigliano e Scampia, bairros da periferia pobre de Napoli. Sem Gomorra, certamente não teria havido Suburra, outra série impecável que movimenta um universo semelhante. Apesar de ter estreado em novembro tanto na Europa quanto nos EUA, segue inédita por aqui, refém do precário cronograma de lançamentos da HBO Max no Brasil.

6) Dopesick (Star+)

Baseada em fatos reais, está para 2021 o que significou Chernobyl no ano passado. Retrato sem retoques da crise que assolou os EUA a partir de meados dos anos 1990, após o lançamento do opioide OxyContin e da subsequente escalada de vício entre seus usuários. A história é contada do ponto de vista da indústria farmacêutica, dos promotores públicos que afinal conseguiram levar os responsáveis a julgamento, do DEA e de médicos e pacientes que acabaram fatalmente viciados. O roteiro é primoroso, contemplando os inúmeros protagonistas e com idas e voltas sucessivas no tempo, sem que o público se perca em nenhum momento. Michael Keaton encabeça o elenco e é nome certo para o Emmy em 2022.

5) Wandavision (Disney+)

Primeira série de TV dos Estúdios Marvel. A trama dá prosseguimento à história de amor entre a bruxa mutante Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e o androide Visão (Paul Bettany), mesmo após o desaparecimento deste último, como visto em Os vingadores – ultimato. Sem introdução ou explicação, os super-heróis são esdruxulamente retratados como típico casal do pós-guerra em uma cidadezinha do interior dos EUA. Porém, estão presos (?) não nos anos 50, mas em uma sitcom norte-americana dos anos 50, com direito a claque e a todos os clichês do formato. Com citações explícitas à série clássica A feiticeira e fotografia em preto e banco, este é apenas o início de um programa intrigante e encantador. É, na verdade, uma aventura estilística, poderoso exercício de imaginação e uma declaração de amor à televisão.

4) Mare of Easttown (HBO Max) (https://domtotal.com/noticia/1519333/2021/06/mare-of-easttown-subterraneos-da-violencia/)

3) It's a sin (HBO Max)

O inicio da epidemia da AIDS e sua ação devastadora sobre um grupo de amigos queer na Londres dos anos 1980. Em tempos de pandemia e radicalização global do conservadorismo, nunca é demais lembrar que a ignorância e as arbitrariedades geradas pelo preconceito não morrem, apenas hibernam. Escrita com delicadeza e verdade por Russel T. Davies (autor da clássica Queer as folk e da visionária Years and years - primeiro lugar na lista de 2019 - entre outras), a minissérie é a antítese perfeita da artificialidade do remake de Gossip girl.

2) The Morning Show (Apple TV+) (https://domtotal.com/noticia/1550864/2021/11/the-morning-show-bastidores-de-um-cancelamento/)

1) The Beatles - Get back (Disney+)

Mais que uma série, um documentário ou um programa, é o evento audiovisual do ano. Testemunhar em detalhes o esfacelamento do mais importante grupo musical do século XX, enquanto nos deliciamos com seu processo de criação e adentramos na intimidade de Paul, John, George e Ringo, é uma experiência sem igual e até então inimaginável. O diretor Peter Jackson (não por acaso, especialista em épicos) passou quatro anos editando e restaurando o material filmado durante 22 dias, tempo de preparação para o "show no telhado", que acabou sendo a última apresentação dos Beatles em 1969. O resultado é tão ambicioso quanto qualquer outro projeto do realizador: tem quase oito horas de duração, divididas em três episódios. Serve também para reafirmar a força da televisão (ainda que alocada no streaming, segue sendo TV), único meio capaz de abrigar projeto cinematográfico de tal monta e ambição.

As menções honrosas:

Dinner Club (Amazon Prime): a cada episódio, o chef Carlo Cracco percorre a Itália na companhia de um famoso ator italiano (como Valério Mastandrea e Pierfranco Favino), descobrindo os sabores da tradição culinária de cada região. De volta a Roma, o viajante da vez deve reproduzir as receitas e oferecer um jantar aos outros participantes. O programa é ótimo, mas a desorganização linguística do Amazon, por motivos insabíveis, oferece legendas apenas em inglês, espanhol e italiano, o que dificulta o entendimento e a fruição.

Landscapers (Sky-BBC): Olivia Colman e David Thewlis dão o show habitual em minissérie policial finamente roteirizada a partir de acontecimentos reais. Recém-estreada na Europa e EUA, mas ainda inédita no Brasil.

Onde está meu coração (Globoplay): Poderia ser uma subtrama de novela, mas aproveita as grandes interpretações do talentoso elenco principal para mostrar a espiral de destruição empreendida por uma jovem médica viciada em crack. Só atrapalha um pouco o excesso de músicas em inglês da trilha sonora que nos desconecta de quando em quando da narrativa. Parece que largamos o programa para trás e sintonizamos em uma rádio FM. · Hierro (HBO Max): (https://domtotal.com/noticia/1547195/2021/10/hierro-cronica-de-mar-e-ferro/)

And just like that... (HBO Max): Carrie, Miranda e Charlotte (sem Samantha) estão de volta como se nunca tivessem deixado de estar no ar. Inteligente e engraçado, o programa mantém o padrão da série original, embora a necessidade autoimposta de ser atual soe forçada às vezes.

Adnet na CPI (Globoplay): Reafirma-se mais uma vez o gênio cômico de Marcelo Adnet. A exemplo dos esquetes realizados durante a fase mais dura da pandemia e das crônicas em cima do BBB, quanto maior a escassez de recursos, mais inflamável é o resultado que ele consegue produzir. Ao narrar as sessões da CPI da Covid com a voz de Galvão Bueno como se fossem uma partida de futebol, Adnet só maximizou o clima de absurdo e espanto em que vive o Brasil atual.     

Os sonhos de alguns e a realidade de todos

Continuo a assistir sem me cansar e com satisfação aos realities The profit e Masterchef, tanto a versão brasileira quanto a de várias outras nacionalidades que consigo pescar no youtube.


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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