Religião

23/12/2021 | domtotal.com

O dom do burnout: como deixar meu emprego me permitiu florescer

Meu trabalho não iria consertar meus problemas ou salvar minha alma. Podemos perder o controle e ainda florescer. Na verdade, perdê-lo era a única maneira que eu tinha nesse momento.

Um avião de papel vermelho desvia em um caminho diferente de vários outros aviões de papel.
Um avião de papel vermelho desvia em um caminho diferente de vários outros aviões de papel. Foto ((iStock))

America Magazine

Eu sabia que algo estava errado quando não conseguia me levantar da cama para ir para o emprego dos meus sonhos como professora de teologia. Havia passado sete anos na pós-graduação e vencido as adversidades do mercado de trabalho acadêmico para conseguir o cargo. Nos termos de Frederick Buechner, ser professor era meu grande desejo e uma resposta à grande necessidade de conhecimento dos alunos. Ou simplesmente era trabalho.

E por muito tempo odiei isso. Não no começo. Nos primeiros anos, parecia um trabalho desafiador, mas recompensador. Na aula, explicava com paixão enquanto diagramava conceitos teológicos no quadro. Passei horas recortando e colando fragmentos dos Evangelhos para um exercício de crítica textual. Eu me senti pessoalmente validado quando publiquei um artigo, ganhei uma bolsa e o prêmio da estabilidade.

Mas com o tempo, o esforço parecia cada vez menos compensador. Meus alunos pareciam indiferentes em sua maioria. Eles me disseram que eu levava a aula muito a sério; afinal, era um requisito inútil, irrelevante no "mundo real". Quando voltei meu esforço para melhorar o currículo e a cultura da faculdade, fiquei frustrado com os obstáculos administrativos. Senti que meu trabalho não importava.

Depois de 11 anos, fiquei sem ideias de como tornar esse trabalho, que parecia perfeito por fora, mais suportável. Então tive que parar.

Mais tarde, percebi que estava passando por um esgotamento profissional. O esgotamento ou burnout acontece quando um trabalhador é cronicamente questionado entre os ideais dessa pessoa sobre o trabalho e a realidade da atividade. É mais do que um cansaço comum. Minha exaustão nunca foi embora com descanso. Na verdade, tirei um semestre de licença, mas voltei tão exausto quanto antes. Todas as esperanças que tinha em relação à minha carreira viraram fumaça.

E, no entanto, parte de mim está feliz por isso ter acontecido. Minha miséria me tirou de um trabalho que não era mais o adequado para mim. Isso destruiu os ídolos que tinha feito de status acadêmico e estabilidade. E também me empurrou para uma nova carreira como escritor e me imprimiu um senso mais modesto sobre o que uma carreira deve significar na vida de uma pessoa. Eu não desejaria a dor que sofri em ninguém, mas de certa forma, o esgotamento foi uma graça salvadora.

Os psicólogos formularam o conceito de burnout em meados da década de 1970, após pesquisar as queixas de assistentes sociais sobrecarregados, advogados de pessoas pobres e de clínicas gratuitas. Mas o termo já existia há mais de uma década. Um relato inicial proeminente foi o romance de Graham Greene de 1960, A Burnt-Out Case, um estudo sobre como a exaustão e o desespero podem abrir a porta para o crescimento espiritual.

O romance se concentra em um famoso arquiteto europeu chamado Querry, que abandona seus designs de vanguarda e uma série de amores para trabalhar como voluntário em um hospital de hanseníase no Congo. Quando um médico pergunta por que Querry veio ao local, ele diz: "Eu sou um dos mutilados". Sua alma está tão devastada quanto os membros das vítimas da lepra.

A resposta do médico oferece uma pista de que algo positivo pode estar do outro lado do sofrimento: "Talvez suas mutilações não tenham ido longe o suficiente ainda. Quando um homem chega tarde demais, a doença precisa se extinguir". O que quer que tenha causado sua miséria ainda estava com ele.

Querry acha que a doença subjacente é a vocação profissional que anteriormente significava muito para ele. Agora reclama que os fregueses comuns da igreja arruinaram seus projetos eclesiásticos, "bagunçando-os com seus santos de gesso baratos". Eu reconheço esses sentimentos de ressentimento.

A noite escura é como uma longa permanência no deserto. Priva a pessoa dos sentidos e transpira tudo o que distrai do ponto mais elevado da alma.

Enquanto Querry se acomoda no trabalho do leprosário, um padre sugere que, na verdade, ele "recebeu a graça da aridez", aludindo à "noite escura" descrita pelo místico do século 16, São João da Cruz. A noite escura é um estágio de contemplação que purga a pessoa de imperfeições e impedimentos ao progresso espiritual.

A noite escura é como uma longa permanência no deserto. Ele priva a pessoa dos sentidos e faz sair tudo o que distrai do ponto mais elevado da alma. "Essa aridez", escreve São João, "faze as pessoas andarem com pureza no amor de Deus. Eles não são mais movidos a agir pelo prazer e satisfação que encontram em um trabalho, como talvez o fossem quando derivaram isso de seus atos, mas pelo desejo de agradar a Deus". Querry, embora já tivesse desistido da fé há muito, mostra grande compaixão pelos pacientes. Até começa a projetar novas estruturas humildes para o hospital.

Os casos de esgotamento refletem o papel conflituoso do autodesvaziamento, ou kenosis, na vida cristã. São Paulo escreve que Cristo «se esvaziou» ao tornar-se humano, depois submeteu-se obedientemente à morte de cruz (2 Fl 2, 7-8). Essa ideia fornece uma justificativa teológica para o ideal moral do amor auto-sacrificial.

Aplicada à nossa vida profissional, a kenosis se encaixa perfeitamente no ideal americano de devoção "altruísta" ao trabalho. Muitos trabalhadores, como enfermeiras da linha de frente e motoristas de entrega durante a pandemia, foram chamados para sacrificar seu bem-estar pelas demandas de seus empregos. Os americanos esperam que os bons trabalhadores "deem o 100%" ao seu trabalho. Este é um falso ideal; não devemos ter que nos esvaziar para a empresa ou faculdade.

Contudo, como aprendi, muitas vezes ficamos melhor quando esvaziamos nosso orgulho e devoção ao trabalho, mesmo quando essas emoções constituem muito de quem acreditamos ser, porque podem ser obstáculos para nosso bem-estar espiritual. Como o teólogo jesuíta Karl Rahner escreveu em A necessidade da oração: "Tudo o que pode ser tirado de você não é Deus". Meu trabalho, incluindo qualquer senso de vocação que eu trouxe para ele, era bom, mas não era um bem final. Não iria consertar meus problemas ou salvar minha alma. Eu poderia perder o controle e ainda florescer. Na verdade, perdê-lo era a única maneira que eu poderia fazer.

As pessoas podem persistir em trabalhos insatisfatórios, até mesmo prejudiciais, durante anos. Algumas pessoas têm pouca escolha. Tive a sorte de desistir e confiar que minha esposa seria o principal ganha-pão. Temo o que poderia ter acontecido se isso não tivesse sido possível, se meu esgotamento tivesse continuado latente. Que doença não tratada do corpo, mente ou espírito teria me mutilado, se eu nunca tivesse me queimado completamente?

Eu não diria que minha vida agora é um modelo de integridade espiritual ou mesmo de equilíbrio adequado entre vida profissional e pessoal. Ainda estou suscetível à ansiedade quanto ao status e ao reconhecimento: qual é a classificação das vendas do meu livro? O que os revisores estão dizendo? Quantos novos seguidores no Twitter eu tenho? Mas, como sou freelance e dou aulas em meio período, nenhum trabalho exige tudo de mim. Depois de ficar vazio, agora estou pelo menos parcialmente satisfeito.

Traduzido por Ramón Lara.

*Jonathan Malesic é professor de teologia e o autor de vários livros. @jonmalesic



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