Meio Ambiente

23/12/2021 | domtotal.com

Ilha Gorgona: um tesouro natural surgido do terror na Colômbia

A maior ilha do país no Oceano Pacífico ficou famosa pela prisão que abrigou durante duas décadas

Formações rochosas de origem vulcânica no litoral da ilha de Gorgona, na Colômbia
Formações rochosas de origem vulcânica no litoral da ilha de Gorgona, na Colômbia Foto (Luis ROBAYO/AFP)

De origem vulcânica, rodeada de montanhas e um refúgio para as baleias, a ilha Gorgona é uma joia natural que emergiu dos restos de uma sinistra prisão que incutia terror na Colômbia.

A maior ilha do país no Oceano Pacífico, de 44 km², ficou famosa pela prisão que abrigou durante duas décadas.

Hoje, no entanto, é um parque natural formado por duas ilhas - Gorgona e Gorgonilla - de cascalho preto, arrecifes coloridos, densas florestas e fauna exuberante, com temperaturas em torno dos 30 °C.

Confira abaixo algumas informações e curiosidades sobre o local:

A conquista

Os espanhóis desembarcaram ali em 1526 e batizaram a ilha como San Felipe. Francisco Pizarro, o "conquistador" do império Inca, lhe deu o nome de Gorgona, a perigosa Medusa da mitologia grega.

A ilha foi, primeiro, um refúgio de piratas na região, antes de ser cedida no século XIX por Simón Bolívar a um inglês que participou das guerras de independência.

No fim da década de 1950, o Estado colombiano expropriou a ilha de seus donos particulares para construir uma penitenciária de segurança máxima.

Gorgona é parte de um corredor migratório para a fauna marina e as aves, que inclui outras ilhas da região, como Galápagos (Equador), Malpelo (Colômbia), Coiba (Panamá) e Cocos (Costa Rica).

Prisão sinistra

Os criminosos mais perigosos da Colômbia ficaram reclusos em Gorgona, submetidos a torturas e maus-tratos. Em 1984, a prisão foi fechada devido a pressões de grupos de defesa dos direitos humanos e ambientalistas que queriam proteger este pedaço de natureza virgem.

Gorgona figura na "lista verde" da União Internacional para a Conservação da Natureza por seu modelo de sustentabilidade.

Poucas dezenas de pessoas vivem na ilha durante o ano todo: funcionários do parque, empregados do único hotel, um instrutor de mergulho e militares.

Apesar de ter se tornado uma área de preservação permanente, a ilha ainda enfrenta diversas ameaças, como "a erosão costeira de algumas praias; questões relativas ao aquecimento das águas e ao aumento do nível do mar, para o qual a ilha seria obviamente muito vulnerável", afirma o biólogo Christian Díaz.

Além disso, mesmo que não seja visível à primeira vista, "a poluição por microplásticos é real", acrescenta o especialista. Álcool e plásticos descartáveis estão proibidos no local, mas as praias sofrem com o lixo trazido pelo mar.

Biodiversidade

Gorgona se tornou um parque nacional no mesmo ano em que a prisão foi fechada. Sua área protegida reúne quase 62 mil hectares, sendo que 97% são zonas marinhas de cuidado especial, explica um dos funcionários do parque.

São 500 variedades de plantas terrestres, entre elas muitas orquídeas; 380 de peixes; 19 de tubarões; 41 de répteis (18 serpentes); 167 de aves (atobás-pardos, pelicanos e fragatas), e cerca de 15 mamíferos, entre eles preguiças e macacos-prego. Também há 14 tipos de morcegos e o lagarto-azul de Gorgona, uma espécie endêmica e única no mundo.

A poucos metros da costa, baleias-jubarte brincam em uma área de 12 km onde, em teoria, a pesca e a navegação estão proibidas. Tartarugas-marinhas, atuns, barracudas, tubarões-martelo, golfinhos, cavalinhas, arraias, meros e moreias nadam à vontade em seu litoral.

"Gorgona tem dois ecossistemas", resume o diretor do parque, Santiago Felipe Duarte: "a floresta tropical úmida, da qual ainda há muito que estudar, e seu excepcional ecossistema marinho, com os arrecifes de coral mais bem conservados do Pacífico Oriental colombiano".

As serpentes que inspiraram seu nome se escondem pela vegetação rasteira. A jararaca, a cobra-coral e a serpente marinha, para a qual não há antídoto para o seu veneno, são as mais perigosas.

A prisão, por sua vez, já foi quase engolida pela vegetação, mas "continua atraindo visitantes". No entanto, sua relevância é muito menor que a "excepcional biodiversidade" que a ilha reúne, frisa Duarte.

Visitado por apenas 3.000 turistas por ano, o parque é ideal para avistar baleias, mergulhar entre a diversidade de peixes e apreciar os arrecifes de coral. "As baleias aprendem a cantar aqui. Ouvi-las sob a água é encantador", afirma o diretor.

Narcotráfico

A força pública colombiana mantém em Gorgona um pequeno contingente. Em 2014, a ilha foi alvo de uma espetacular incursão da extinta guerrilha das Farc, o que provocou o fechamento do parque por dois anos.

Gorgona está situada em um corredor de narcotráfico que segue para o norte. "Às vezes, pela noite, é possível ouvir os motores dos traficantes em alto-mar", admite um empregado.

Contudo, "comparada com outros parques do país, a ilha é um pequeno paraíso de tranquilidade", afirma o diretor.

No alto da montanha está sendo construído um radar contra o narcotráfico. "Esperamos apenas que Gorgona continue sendo um lugar especial para onde as pessoas venham para se encontrar consigo mesmas, para se conhecer. Um lugar para a renovação espiritual", conclui Duarte.


AFP



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.