Cultura

28/12/2021 | domtotal.com

Leifert versus Ícaro: a batalha

De perto ninguém é o santo que gostaria de ser ou aparentar

Tiago era apresentador do BBB
Tiago era apresentador do BBB Foto (Reprodução)

Alexis Parrot*

Uma das maiores polêmicas deste fim de ano envolve dois talentos da televisão. A discussão pública entre o ator Ícaro Silva e o apresentador Tiago Leifert assumiu ares de novela, fomentada e magnificada pela avalanche de opiniões, apoios e ataques gerados a cada nova postagem nas redes sociais - lances de uma inglória partida que os globais decidiram disputar.

Primeiro foi o ator que externou sua opinião no Twitter, dizendo em publicação posteriormente apagada que nunca participaria do BBB (chamado por ele de "Big Boster Brazil"), porque sente "ódio por entretenimento medíocre" e "repulsa por dividir banheiro". Até aí morreu Neves, porque o BBB é mesmo entretenimento medíocre, apesar da tremenda audiência.

Agora, se o rapaz se recusa a dividir banheiro, vamos torcer para que ele consiga segurar o xixi até chegar em casa, se de repente ficar apertado quando estiver passeando em um shopping ou viajando de avião. Deus o livre se a necessidade for de fazer o número dois.

Apesar da provável deselegância de descer a lenha em um programa da emissora em que trabalha, tudo poderia ter ficado deste mesmo tamanho - não fosse a resposta que Tiago Leifert publicou em seguida no Insta, sentindo-se pessoalmente atingido pelo post do ator. Aí o caldo entornou de vez. A publicação só não é mais infeliz do que aquela carta chorosa que Temer enviou para Biden, no que acabou se revelando o prenúncio do golpe.

Para ser fiel na análise, é bom recordar a íntegra do desastroso pronunciamento de Leifert (agora também um ex-BBB):

"Meu sossego foi interrompido por um tweet do ator @icaro. Oi, Ícaro, sou o ex-apresentador do BBB. Não vou tentar mudar sua opinião: você tem total direito de achar qualquer produto 'medíocre'. Assim como eu, por exemplo, posso dizer o que penso de você: você é um excelente ator. Contudo, sua opinião sobre realities não é uma crítica construtiva e, sim, apenas uma agressão gratuita a quem nunca te fez mal (aliás, não só não te fizemos mal como provavelmente pagamos o seu salário nessa última aê!). Achar que o que você faz é superior não é baseado em fatos, é arrogância mesmo. Nenhuma métrica é capaz de dar embasamento ao que você escreveu: nem audiência, faturamento, repercussão, relevância, etc. Só seu gosto pessoal está do seu lado nessa, mas ele deixa de ser pessoal quando você o escreve na rede social. Mesmo apagando depois. Eu também pretendo apagar esse post aqui. Respeita nossa história, nossas equipes e o entretenimento que a gente proporciona. Se você realmente acredita no que você escreveu, você deveria ser adulto e nunca mais aceitar trabalho de nenhuma empresa que promova o entretenimento que você acha ruim. Que tal? Qual seu plano pra 2022? Alguma novela? Talvez seja hora de repensar, não se misturar com produtos inferiores a você. Vai firme e feliz ano novo."

Isso que dá interromper o sossego do Tiago Leifert. Quem diz o que quer, ouve o que não quer. Mordendo e assoprando ao longo do virulento post, mesmo não dizendo com todas as letras, Leifert acusa o ator de hipocrisia - além de arrogância, mas isso está dito literalmente.

Até aí tudo bem, também. É o ponto de vista do rapaz e, assim como ele diz não querer mudar a opinião do outro, que cada um tenha o direito de achar o que quiser e falar o que quiser, arcando com as consequências depois. Porém (e são tantos poréns), como dizem os gaúchos, ele "se passou" ao externar a indignação.

"Pagamos o seu salário"? Leifert comprou a Globo e ninguém sabia. Ou isso, ou desistiu de apresentar programas para ir trabalhar no RH da emissora. E, ao contrário do que parece acreditar, o gosto de alguém não deixa de ser pessoal por ter sido publicado em uma rede social. Torna-se público, mas segue sendo pessoal. Como de resto é toda essa altercação.

Como se não bastasse, termina ameaçando veladamente o colega de canal, mostrando que além do BBB deixou também para trás a persona de bom moço. O que mais decepciona é a revelação de um lado mesquinho e pequeno de Leifert, até então desconhecido publicamente.

Silva, atingido nos brios, voltou à carga e produziu tréplica à réplica. Usando o mesmo tom de polidez modelo falsiane, o ator foi na jugular do neo desafeto em post mais quilométrico ainda que começa assim:

"Li sua cartinha e fiquei positivamente tocado pela contemplação do teu tempo. Imagino que para ter escrito um textão desse (o que não ocorreu nos casos de racismo, intolerância religiosa, misoginia, homofobia e abuso sexual no programa que você apresentava) é porque de fato te atravessei, o que sinceramente me envaidece como artista. Impressionante como tem coisa que passa e outras que interrompem nosso sossego, né?"

E segue com este outro trecho; meio confuso no início, puxando o saco da Globo no meio e maliciosamente ferino no desfecho:

"'Ser adulto' e artista no meio midiático é justamente estar a par das deficiências culturais do país e contribuir de alguma forma para saná-las. Se trabalho na emissora de onde você saiu é porque esta é tão plural quanto o Estado brasileiro e abriga (me impressiona que você não tenha percebido) de certa forma, tanto quem está no corre, quanto quem nasceu com o sobrenome 'correto'"

A esta altura todo mundo já sabe, mas não custa relembrar: o pai de Leifert foi manda-chuva na área comercial da Globo durante 30 anos, até 2018. Daí este "sobrenome correto" lançado no texto pelo ator, mais um golpe abaixo da cintura do que um argumento válido no contexto da discussão em curso.

Provavelmente também incomodado com a ousadia de Ícaro Silva de incomodar sua aposentadoria, o Sr. Leifert (tal pai, tal filho) foi à carga para defender publicamente o rebento no Instagram. Afirmou que, do alto de seus 70 anos, cresceu "vendo a nação brasileira conviver com impunidade; negar o mérito das pessoas, suspeitar da honestidade e da integridade de quem alcança o sucesso".

Pai coruja como ele só, segue o texto exaltando as qualidades do filho genial e relembra sua trajetória profissional no Brasil e EUA. Admite que arrumou o primeiro estágio para ele aos 16 anos, mas nega ter prestado qualquer ajuda à cria ou ter agido de qualquer forma para influenciar sua escalada ao sucesso a partir daí.

É digno de pena mesmo o Leifert Jr. Não deve ser fácil carregar nas costas o trauma de saber que o próprio pai sempre fez tanta força para não ajudá-lo em nada na vida. (A verdade é que

qualquer um que defenda tanto assim a "meritocracia" geralmente está tentando justificar o próprio privilégio.)

O episódio, por mais deplorável que seja, pode nos ajudar a pensar algumas questões relativas ao nosso tempo e em como lidamos (mal) com a exposição interativa que as redes sociais proporcionam.

Se as duas estrelas decidiram lavar a roupa suja em público, isso é problema deles - e que aguentem o tranco, já que se expuseram dessa maneira. E o caminho para onde levaram o debate só mostra que de perto ninguém é o santo que publicamente gostaria de ser ou aparentar.

Criada a polêmica, veio a avalanche de apoios e ataques para ambos os contendores. Importa cada vez menos o assunto inicial; o que vale agora é comentar, curtir e compartilhar. Quem acompanha a história desde o princípio escolheu um lado e se manifestou. Muitas vezes, violentamente.

Daí uma série de agressões a Silva e Leifert que, além de serem indesculpáveis, em nada dizem respeito ao que está sendo discutido. Mais que seguidores, estamos nos tornamos juízes, dando sentenças e condenações a partir do post alheio. Para ter razão e dar a última palavra, vale tudo.

Como uma correnteza, as redes sociais são avassaladoras e não poupam ninguém. Como um espelho, revelam algo de cada um de nós que nem sempre vale a pena mostrar.


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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