Cultura

30/12/2021 | domtotal.com

O sentido da arte

'O Artista e a Modelo' é um raro momento de poesia visual que não se deve perder

O veterano Jean Rochefort e a jovem Aida Folch dividem cenas comoventes e sensuais
O veterano Jean Rochefort e a jovem Aida Folch dividem cenas comoventes e sensuais Foto (Divulgação)

Jorge Fernando dos Santos*

Uma pequena joia escondida no canal Prime merece ser conferida por aqueles que gostam de filmes verdadeiramente artísticos. Trata-se de O Artista e a Modelo, do diretor espanhol Fernando Trueba, que escreveu o roteiro com o francês Jean-Claude Carrière. Rodado em preto e branco com um surpreendente resultado, o longa franco-espanhol tem como foco a comovente relação entre um velho escultor e uma jovem modelo.

Lançado em 2012, o filme é estrelado por Jean Rochefort, que morreria cinco anos depois. O consagrado ator espanhol interpreta o artista Marc Cros, contemporâneo de gênios como Picasso e Matisse.

A história se passa em 1943, tendo como pano de fundo o franquismo e a Segunda Guerra Mundial. Entediado e sem motivação, o escultor de 80 anos vê a chama da inspiração reacender, quando a esposa acolhe uma jovem foragida de um campo de prisioneiros.

Triângulo amoroso

A mulher de Cros é interpretada pela italiana Claudia Cardinale, uma das atrizes mais bonitas e talentosas de sua geração. Já o papel da modelo Mercê é vivido pela catalã Aida Folch, cuja sensualidade, beleza e doçura quase saltam da tela. Ambas formam com Rochefort um improvável triângulo amoroso marcado, sobretudo, pela mútua confiança.

Outra notável atuação é a da veterana Chus Lampreave, no singelo papel de Maria. A experiente atriz, de sutil presença cômica, tornou-se conhecida pelo bom desempenho em filmes de Pedro Amoldóvar, entre eles Mulheres à beira de um ataque de nervos, A Flor do Meu Segredo e Maus Hábitos.

Marc Cros tem personalidade forte, mas sem perder a ternura. Sua visão de vida mistura realismo, gentileza e poesia. O filme apresenta metáforas interessantes sobre a realidade e o sentido da arte num mundo marcado por grandes tragédias.

Em busca do conceito

“Essa luz não se pode forjar. Precisa se aproveitar. Aqui fora tudo se move. Até a luz se move. Vê essas folhas? Há milhões delas e todas são singulares. Poderia viver 150 vidas e mal teria tempo para vislumbrá-las. Por isso que você precisa de um conceito. Precisa encontrar um conceito. Se não encontrar, tudo será uma perda de tempo”, diz Marc Cros a Mercê.

Personagens coadjuvantes, como o bando de garotos que tenta a todo custo ver a modelo nua, dão à trama um toque de humor e inocência. O mesmo não se pode dizer da visita de Werner, interpretado por Götz Otto. Professor de História da Arte e biógrafo de Cros, ele serve como oficial no Exército alemão e vem se despedir do amigo, antes de ser enviado para o cerco a Stalingrado, na Rússia.

Sensualidade e beleza se somam à solidariedade numa história comovente. Eis uma boa dica para fechar com delicadeza um ano dramático, marcado pela pandemia de Covid-19 e o pandemônio bolsonarista. Mesmo em tempos duros, quando as trevas tentam engolir a luz, a arte ajuda a manter acesas a esperança e a sensibilidade no coração dos homens. O Artista e a Modelo é um raro momento de poesia visual que não se deve perder.


Dom Total

Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).

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