Brasil

03/01/2022 | domtotal.com

Despedida

'Ao longo de quase seis anos, de maio de 2016 a dezembro de 2021, foram 295 textos produzidos com amor e vigor'

Eleonora lançou três livros: Interstício, Solilóquio e cultura
Eleonora lançou três livros: Interstício, Solilóquio e cultura Foto (Divulgação)

Eleonora Santa Rosa*

Aqui encerro essa colaboração que me foi tão importante e valiosa pessoal e profissionalmente. Fechamento de ciclo, finalização de exercício semanal de reflexão e escrita, de compartilhamento de indagações, de saberes, de questionamentos, de celebração, de indignação, de registro de fatos públicos, de acontecimentos em profusão, de inconformidade com os rumos do país – do desmonte do aparato institucional e das políticas públicas de cultura (como, de resto, de outras áreas estratégicas – educação, saúde, saneamento, habitação, meio ambiente, ciência e tecnologia, pesquisa etc.), de horror diante do rastro de mortandade da Covid-19 e das trágicas consequências do negacionismo governamental –, de crença que saberemos, mesmo a duras penas, reconstruir, refundar e criar novamente do nada, das cinzas, das águas e dos cataclismos políticos um Brasil de dimensão fraterna, generosa e gentil.

Ao longo de quase seis anos, de maio de 2016 a dezembro de 2021, foram 295 textos produzidos com amor e vigor, com todos os órgãos do corpo acesos e mobilizados, banhados em poesia e citações dos mais vividos e sábios, não dos sabidos e dos espertos que tanto pululam no panorama nacional. De toda essa empreitada editorial, três filhos diletos – Interstício, Solilóquio e cultura!, estes dois últimos recém-lançados e em processo de divulgação. Nesses volumes, reúno os artigos, sem censura ou corte, ou seja, publiquei-os na íntegra, sem alteração substancial ou subtração. Por certo, há aqueles melhores, há os mais cotidianos, os mais densos, os mais pessoais e os mais cirúrgicos, por assim dizer, mas todos elaborados tendo como norte a tríade, integridade, ética e consciência crítica. Muitos polêmicos e/ou incômodos, muitos compartilhados em proporção surpreendente, muitos comentados e muitos em silêncio sepulcral.

Da disciplina necessária ao trabalho semanário, o desafio da ‘pena’ afiada, da percepção aguçada para o interesse coletivo, da expressão potencializada de muitos semelhantes em ideias e opiniões em contraste com o senso comum. Nesta crônica-coda, o agradecimento a todos que me concederam a graça da leitura, da manifestação de apreço ou de discordância, dos que clicaram no final de cada publicação, dos inúmeros que me escreveram ou telefonaram, dos que reproduziram meus apontamentos e, sobretudo, dos que me honraram com sua amizade e confiança nesse périplo na Dom Total.

Agradeço a Marco Antonio Lacerda, jornalista e escritor, que me convidou e confiou a missão da colaboração às sextas, a Gilmar Silva e aos demais membros da equipe da revista, sempre atentos e diligentes nas solicitações de ajustes e correções vindas de uma virginiana metódica e perfeccionista (redundância, eu sei); enfim, guardo as melhores impressões de toda essa trajetória.

Não fugiria, por suposto, neste texto derradeiro, à minha predileta das artes, a poesia, que me acompanha em todos os momentos de significado e relevância. Para vocês, queridos leitores, um dos fragmentos mais sublimes das Galáxias, do queridíssimo e saudosíssimo Haroldo de Campos – Haroldo e seu irmão Augusto são exemplo inconteste, no campo poético, de como o Brasil pode ser exemplo, vanguarda, referência e invenção para o mundo. Viva os poetas de Campos e espaços (Caetano dixit)! Viva Haroldo e suas galáxias:

“fecho encerro reverbero aqui me fino aqui me zero não canto não conto

não quero anoiteço desprimavero me libro enfim neste livro neste vôo

me revôo mosca e aranha mina e minério corda acorde psaltério musa

nãomaisnãomais que destempero joguei limpo joguei a sério nesta sede

me desaltero me descomeço me encerro no fim do mundo o livro fina o

fundo o fim o livro sina não fica traço nem sequela jogo de dama ou

de amarela cabra-cega jogo da velha o livro acaba mundo fina o amor...”


Dom Total

Eleonora Santa Rosa – jornalista, editora, gestora e estrategista cultural, foi secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais. A longo de sua consagrada e respeitada trajetória profissional de mais de 35 anos, desempenhou várias funções públicas. Em sua gestão na SEC/MG criou a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, o Conselho de Patrimônio Cultural de MG (Conep), o Fundo Estadual de Cultura de MG, dentre inúmeros outros instrumentos de financiamento à Cultura. Foi responsável pela minuta da Lei Municipal de Incentivo fiscal à Cultura de BH (1993) e da minuta do anteprojeto da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de MG e de toda a sua regulamentação (1997). Foi editora das Coleções Mineiriana e Centenário, ambas da Fundação João Pinheiro. Recentemente, foi diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR. Fundadora do Santa Rosa Bureau Cultural, implantou, na iniciativa privada, diversos projetos de repercussão nacional. Atualmente trabalha como consultora cultural. Autora dos livros Interstício, Solilóquio e cultura!

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

TAGS




Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos

Não há outras notícias com as tags relacionadas.