Cultura

04/01/2022 | domtotal.com

Overdose de Faustão

Em 2022 todo dia será domingão na Band

Faustão é o novo apresentador da Band
Faustão é o novo apresentador da Band Foto (Reprodução/Band)

A exemplo da fábula da Cinderela, tem gente que vira abóbora à meia-noite - mas não Fausto Silva. Como seu contrato com a Globo vencia em 31 de dezembro, bastou dar a meia-noite para que estreasse na telinha da Band, sua nova velha casa.

Após ter sido descartado sem mais nem menos pela emissora da família Marinho e amargar um exílio televisivo de meses, o canal do Morumbi reservou o reveillón para propagandear a presença do célebre apresentador em sua programação a partir de 17 de janeiro. Nada mais que uma chamada de quase uma hora de duração, o reclame foi batizado de Viradão do Faustão (aludindo sem sutileza alguma ao Show da Virada que o mesmo Silva comandou durante anos na concorrente).

Vai funcionar assim: Faustão irá ocupar a faixa das oito e meia da noite de segunda a sexta, cada dia com um programa diferente. A ideia não é má e retoma uma tática que a própria Band usou em meados dos anos 80 com um programa de auditório temático a cada noite da semana, conduzido por nomes como Blota Jr., Moacyr Franco, Sérgio Reis e Luiz Vieira e Xênia Bier. A diferença é que agora não haverá mais rodízio e, como se todo dia fosse domingo, apenas Fausto Silva comandará as atrações.

Ainda que apresentados como novidade, à primeira vista os programas não passam de versões esticadas e requentadas de quadros do Domingão que nos cansamos de assistir por anos a fio.

Segunda entra no ar a Pizzaria do Faustão (que o próprio insistia em chamar de Pizza do Faustão - como era na Globo); terça é a vez de um show de calouros em que o concorrente deve escolher entre receber dinheiro vivo ou investir no aperfeiçoamento do próprio talento; na quarta, uma dança dos famosos sem famosos; na quinta, apresentações musicais; e na sexta, um troço chamado Churrascão do Faustão, que não conseguiram ou não quiseram explicar do que se trata.

Secundado no palco pela jornalista Anne Lottermann (ex-moça do tempo do Jornal Nacional) e pelo filho João Guilherme, Faustão os apresentou como companheiros de trabalho, mas não disse que função desempenharão nos programas. A julgar pela performance atrapalhada dos dois, podemos esperar tropeços e escorregadelas até que peguem o ritmo ditado pelo veterano apresentador. Enquanto Lottermann se esquecia do nome dos quadros ou trocava o dia em que cada um vai ao ar, João Guilherme não conseguia se concentrar, porque deslumbrado demais com a própria estreia na televisão.

Seguem também firmes as dançarinas do Faustão, nada mais que chacretes que sabem dançar. A cada novo título de atração anunciado, saracoteavam fora de sincronia ao som de jingles que, apesar de contar com melodias e letras diferentes, conseguiam a proeza de soar como se fossem a mesma música. E tudo ao sabor da cafonice opulenta típica da Band, uma das marcas incontornáveis da emissora de Johnny Saad.

Para quem (como eu) esperava algum tipo de sintonia com o antigo Perdidos na Noite, o desapontamento será grande. O cenário tecnológico com piso espelhado e letras flutuantes em neon ao fundo indica que o tal padrão Globo de qualidade segue contaminando o métier e ditando regras para os outros canais.

A verdade é que aquele Fausto Silva de mais de trinta anos atrás, que mandou bagunçar o cenário do Domingão após a estreia (porque estava tudo certinho e luxuoso), não existe mais. Há sim o empresário e amigo das celebridades, mais uma grife do que um comunicador. A irreverência ainda é seu carro abre-alas, porém, moldada por uma espontaneidade calculada que não surpreende mais ninguém.

Mesmo sendo um nome consolidado e querido junto ao público, a overdose de sua presença na tela da TV é uma experiência ainda não testada, portanto, um risco em termos de audiência. Mas é uma boa aposta, justamente porque mexe com os paradigmas de programação de nossa TV, acomodada e cristalizada há anos na organização de sua grade.

Mas as atrações meramente recicladas que estão prometendo não animam muito. Fazer com que todo dia tenha jeito de domingo não é problema; o que não dá é querer transformar a semana inteira em um mesmo domingão.


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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