Cultura

11/01/2022 | domtotal.com

Meu Capitão

A partida de Gilvan Procópio Ribeiro

Seu quartel foi construído na terceira margem do rio.
Seu quartel foi construído na terceira margem do rio. Foto (Arquivo pessoal)

Alexis Parrot*

Em algum momento da vida fomos todos gafanhotos ou Daniel San. Se acabamos nos tornando um Kung Fu ou Karatê Kid, vai muito da qualidade do mestre que encontramos pelo caminho; de sua dedicação, rigor, afeto, persistência e, por que não? - Paciência. Vocação para ensinar sem deixar de ouvir não é para qualquer um.

Impossível não rememorar Sidney Poitier, morto na semana passada aos 94 anos. Se era colossal como ator, sua militância foi fundamental na luta contra o racismo. O primeiro Oscar para um ator negro foi dele, vivendo justamente um professor idealista que se torna referência para uma classe de alunos desajustados no clássico Ao mestre com carinho, de 1967.

Todo jovem é mesmo essa matéria desengonçada em construção, sempre mais potência do que ato, constantemente disponível para a inspiração. Às vezes damos de cara com um daqueles diretores escolares ferozes, como o da escola de Ferris Bueller, em Curtindo a vida adoidado, e o caldo entorna. Pior ainda, imagine cruzar o caminho com um professor de química como Walter White e acabar chafurdando em metanfetamina, crime e solidão. Mas, com a bênção de Paulo Freire, o oposto também acontece - e na vida real, o que é melhor ainda.

Há professores, há educadores e há mestres. De vez em quando as três coisas se juntam em uma pessoa só e não existe nada melhor para um aluno do que estar na classe de alguém assim. Cursando o terceiro período da faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora, em um tempo que hoje me parece antediluviano, tive a sorte de conhecer uma dessas raridades que sintetizava todo o espírito do magistério.

Era o Gilvan Procópio Ribeiro, professor de literatura e poeta, mas um revolucionário apaixonado antes de qualquer outra coisa. Me acompanhou até o final da graduação e foi o meu orientador do projeto de conclusão de curso. Passada esta etapa, o que aprendi com nossa convivência me orienta ainda hoje.

Por acaso (se é que existe mesmo essa palavra), ontem à tarde, ao me sentar em uma cadeira com o assento forrado de palha, pensei nele mais uma vez, ao lembrar do quanto o fascinava a Cadeira com cachimbo, de Van Gogh - motivo de uma longa conversa (entre tantas, sobre todas as coisas) ocorrida em priscas eras. Algumas horas depois me chegou a notícia de sua morte.

Já não o via pessoalmente há uns vinte anos, mas o impacto que exerceu sobre mim como professor e amigo é perene. Não satisfeito em me apresentar a Rimbaud, Mallarmé e Allen Ginsberg, tornou-se para mim o mentor que todo jovem sonha em encontrar durante seus anos de formação. Para além de toda poesia, ao me contar sobre a maneira honrada e corajosa como via o mundo, me preparou para a vida de maneiras que nem ele poderia imaginar.

Restituo neste momento a dignidade à patente de capitão - tão dilacerantemente ultrajada no país em anos recentes - para posicionar os galões do posto de comando sobre os ombros daquele que de fato os merece. Meu Capitão não é o da caserna - muito menos o da cloroquina - e passa longe de qualquer hierarquia militar ou civismo hipócrita.

Meu Capitão se chama Gilvan e seu quartel foi construído na terceira margem do rio. Não é qualquer Capitão, mas aquele exortado por Walt Whitman: O, Captain! My Captain!... Hoje é por ele que tremulam as bandeiras e badalam os sinos. Nós, seus alunos e amigos (e somos tantos!) seguiremos firmes na trincheira certa, lutando as mesmas justas batalhas às quais sua vida foi dedicada. Ele nos deu as armas e será sempre nossa inspiração maior.

Plenos de gratidão, brindando à sua memória e com os bolsos abarrotados de poemas, ninguém há de nos segurar. As encruzilhadas irão se dissipar e os caminhos do mundo serão finalmente de todos, como ele sempre sonhou.

(Dedicado à memória de Gilvan Procópio Ribeiro)


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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