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18/01/2022 | domtotal.com

Faustão, BBB e a vanguarda do déjà-vu

O ano começou ontem para a TV brasileira

A Globo estava na Band, a Band na TV Cultura e o SBT na Globo.
A Globo estava na Band, a Band na TV Cultura e o SBT na Globo. Foto (Pixabay)

Alexis Parrot*

A televisão brasileira viveu ontem uma noite tão histórica quanto esquizofrênica. Com talentos ligados ao seu nome dando o ar da graça na tela da concorrência, as principais emissoras abertas viram o 17 de janeiro se transformar em uma espécie de Brumário 18.

Faustão finalmente estreou seu novo-velho programa na antiga casa; Tiago Abravanel, o primeiro-neto de Silvio Santos, pisou pela primeira vez na casa do Big Brother Brasil; e Jacquin, o chef jurado do Masterchef, se sentou no centro do Roda Viva. Em outras palavras: a Globo estava na Band, a Band na TV Cultura e o SBT na Globo.

Histórica foi também a vitória da Band, segunda colocada na audiência em São Paulo enquanto Fausto Silva permaneceu no ar. A conquista é digna de nota e indica um futuro promissor, mas é também controversa se levarmos em conta o DNA da atração.

Apesar de ter mudado de canal, Faustão continua repetindo a mesma coisa que fez durante mais de trinta anos nos domingos da TV dos Marinho. Até as clássicas video-cassetadas foram importadas do Domingão, a exemplo da competição de dança e o show de calouros estilo Ding-dong que veremos nos próximos dias. Ainda que transmitido pela Band, o programa que atingiu a marca alvissareira no Ibope é algo que nos cansamos de ver na Globo.

Talvez invejosa da Band ter transformado todos os dias da semana em Domingão, a Globo escalou Tadeu Schimdt para substituir Tiago Leifert à frente do BBB. Ainda que trajado de forma mais casual, o apresentador deu uma cara de Fantástico ao Big Brother, aquele fim de feira semanal que prenuncia melancolicamente o advento da segunda.

Fazendo a já costumeira força para aparentar jovialidade, de cada dez palavras que saíam de sua boca, sete eram aquela abreviação que integra o dialeto praticado nas redes sociais, o insuportável "bora". Se é para dar uma espiada nos brothers e sisters, é "bora"; se é para falar ao vivo com eles, é "bora"; se é para exibir o carro da marca patrocinadora, é "bora"; se é para iniciar o jogo da discórdia é "bora". Diante de tamanha pobreza lexical, só nos resta mesmo entregar os pontos e exclamar: partiu!

Se Faustão começou a nova trajetória com o astral lá em cima (Zeca Pagodinho é sempre certeza de alegria e descontração), o BBB patinou com uma estreia protocolar e bem desanimada. Serviu apenas para já identificarmos a que grupo pertencem alguns dos personagens da nova edição do programa, como os metidos, os chatos, as plantas e os carismáticos.

Como de praxe desde o início do novo formato que abriga famosos e não famosos, os anônimos iniciaram a noite se derretendo pelas celebridades e subcelebridades, cuja chegada foi mostrada ao vivo - com destaque para o apagado Lucas querendo muito ser o Salsicha do Pedro Scooby.

Viny, um Gil do Vigor em versão pocket, certamente irá repetir a trajetória do icônico pernambucano do tchaki tchaki. No pólo oposto, a sertaneja Naiara Azevedo (que já entrou na casa cancelada) não conseguiu disfarçar o incômodo de se misturar com os desconhecidos. Desagradável e artificial, é aposta certa para conquistar a antipatia geral da nação e uma épica votação de eliminação.

Não tem jeito mesmo escapar do BBB, por mais que se queira ou tente. Comparativamente, até no Faustão o elenco é dividido entre camarote e pipoca. Ele, evidente, está no primeiro grupo enquanto seu filho João Guilherme e a ex-moça do tempo do William Bonner, Anne Lottermann, integram o segundo.

Se na prévia da estreia, transmitida na virada do ano, não foi explicada qual seria a função dos dois no programa, agora ficou claro: não farão nada. Verdadeiros pesos mortos, se saírem de fininho ninguém sentirá sua falta. Com um bigode que aparecia e desaparecia, desafiando as leis da continuidade, o rebento de Faustão consegue ser ainda mais dispensável graças a um indisfarçável deslumbramento por si mesmo.

Para ele, o que mais importava era a própria estreia na TV e não o programa em si ou os convidados. Com o passar do tempo, nem o novo auditório (apresentado como o maior da TV brasileira) será suficiente para conter o ego do rapaz.

No frigir dos ovos, o grande acontecimento da noite talvez tenha passado desapercebido. Logo no início do BBB Tadeu Shmidt chamou uma série de stories de redes sociais em que famosos se pronunciavam sobre a nova edição do programa. Entre eles, o youtuber Casimiro negava que tivesse sido chamado para se tornar um dos brothers.

Fenômeno merecido das redes sociais e comentarista esportivo do SBT, o futuro da nossa televisão passa obrigatoriamente pelo seu nome. Até de "novo Faustão" ele já foi chamado. Como quem não quer nada, a Globo disse sem dizer que ele já está em seu radar.

O sucesso de Casimiro pode mesmo inaugurar outra era na mídia e meios de comunicação do Brasil, em que os conteúdos voltassem a ter conteúdo e influenciadores saíssem de cena para dar lugar a verdadeiros comunicadores. Isto sim seria uma revolução.


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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