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20/01/2022 | domtotal.com

A saga das canecas antigas

Amei quem não devia, deixei quem não merecia, relevei e vivi com gente que não gostava de poesia e nem de cachorros.

tenho a ligeira impressão de que não disse tudo que devia ao meu pai e minha mãe e me penitencio por ter acreditado em miragens e ter deixado escapar entre os dedos tantas emoções baratas.
tenho a ligeira impressão de que não disse tudo que devia ao meu pai e minha mãe e me penitencio por ter acreditado em miragens e ter deixado escapar entre os dedos tantas emoções baratas. Foto (Pixabay)

Ricardo Soares*

Chove faz dias no meu tempo de menino e demoro a perceber que na verdade chove é agora no meu tempo de “envelhescência” onde muitos amigos e amigas preferem não tocar no assunto mas andam infelizes, sem açúcares e sem afetos. A tristeza anda virando um assunto tabu diante de tantos dissabores nacionais e internacionais mas , infelizmente, às vezes não temos como fugir do tema.

Andei, viajei, acumulei xícaras e canecas, amigos e desafetos, poentes e ausentes, discos e rabiscos e cheguei, conformado, ao degrau da irrelevância absoluta o que nos dá a dimensão de não abandonar a luta mas sim a certeza de que tudo é possível arriscar. Afinal é a idade de não temer mais nenhum ridículo, de estender lençóis manchados e o coração partido para visitação pública.

Amei quem não devia, deixei quem não merecia, relevei e vivi com gente que não gostava de poesia e nem de cachorros o que no fundo é a mesma coisa. Recebi cartas antigas e muitas não respondi o que agora não é possível visto que alguns destinatários já foram para as terras dos pés juntos. E nesse contexto, ainda hoje, tantos anos passados, tenho a ligeira impressão de que não disse tudo que devia ao meu pai e minha mãe e me penitencio por ter acreditado em miragens e ter deixado escapar entre os dedos tantas emoções baratas.

Ainda agorinha acho livros manchados pelo tempo com marcadores antigos mostrando onde parei de ler um dia. Agora não adianta retomar porque sou outro e o melhor é doar esses livros para que cumpram seus destinos de não serem lidos por outros olhos.

Creio ter perdido alguns mapas, quebrei alguns objetos que venerava e sigo olhando para trás, contemplando o caminho percorrido, tentando achar nele não o meu futuro, mas somente o tempo que eu suponho perdido.


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*Ricardo Soares é escritor, documentarista e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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