Cultura

25/01/2022 | domtotal.com

Três séries, três cidades

Um mapa repleto de história, poesia e identidade

Cenário é a Nova York de 1883 e os ricos salões das mansões ao redor do Central Park.
Cenário é a Nova York de 1883 e os ricos salões das mansões ao redor do Central Park. Foto (Reprodução)

Alexis Parrot*

Há certos cineastas que se tornam donos das cidades que retratam em seus filmes, pois é a partir de sua mirada que passamos a conhecer, reconhecer e construir simbolicamente tanto o visual quanto a ideia que representa cada um desses lugares.

Por outro lado, a Nova York de Woody Allen, a Roma de Fellini, a Madri de Almodóvar e a Paris de Truffaut acabam se tornando também as nossas. Mesmo se conhecemos ou viermos a conhecer concretamente estas cidades, a experiência real fatalmente se mesclará com a experiência estética e uma coisa irá complementar a outra, guiando como as esculpimos em nosso imaginário.

Na televisão acontece algo similar, porém, de forma mais diluída. Das séries que abraçam o óbvio ao já carregar no título o nome de algum lugar (Nova York contra o crime, Atlanta, Miami Vice, Schitt's Creek, South Park, Mare of Easttown, Picket Fences), passamos para outras cuja narrativa é estritamente a história do próprio local, não importa se território real ou inventado (Versailles, Deadwood, Ripper Street). Por fim, chegamos naquelas, mais ambiciosas, em que a cidade é praticamente um personagem (Seinfeld, Sex and the City, Tales of the City, Ela quer tudo, The Wire, Trapped).

O tema é inesgotável, haja vista algumas séries lançadas recentemente. Em comum, apoiam-se fortemente na cidade onde foram ambientadas para desenvolver seu enredo. Mas diferem absolutamente uma da outra na maneira como tratam narrativamente este aspecto.

A Idade dourada (e a perspectiva histórica)

Após o fenômeno de Downton Abbey e a digna Belgravia, o autor inglês Julian Felowes nos faz embarcar em mais uma viagem ao passado. Sua ilha natal é deixada para trás e o cenário agora é a Nova York de 1883 e os ricos salões das mansões ao redor do Central Park.

Obrigada a morar com a tia viúva endinheirada em Nova York após a morte do pai, a jovem Marian (a estreante Louisa Jacobson) irá se debater contra as rígidas regras sociais da época. Da janela de seu quarto, é possível avistar a nababesca residência de Bertha Russel (Carrie Coom, de The Leftovers), nova-rica engajada na batalha para ser aceita pelos altos círculos da sociedade local. Em paralelo também acompanharemos a trajetória de Peggy Scott (Denée Benton), jovem negra que sonha ser escritora. 

Temas recorrentes no universo de Felowes retornam ao centro do palco: as dinâmicas sociais e suas injustiças; as relações entre patrões e empregados; o preconceito; e o eterno embate entre o velho e o novo, o passado e o futuro. Dentro do recorte temporal eleito, trama tão ambiciosa só poderia ser ambientada em uma cidade complexa e estratificada como a Nova York de então. Porém, por mais que as discussões trazidas sigam atualíssimas, o resultado final decepciona. Infelizmente, a travessia do Atlântico deve ter mareado o autor.

Tudo que era vivo e mordaz reaparece agora meio murcho e banal. Até Christine Baranski, sempre impecável, parece meio perdida em meio a tanto tafetá e espartilhos. Perceptivelmente escalada para assumir o posto antes ocupado por Maggie Smith em Downton (com as melhores tiradas e o empedernimento que só o sangue azul é capaz de produzir), Baranski faz o que pode, mas o texto não ajuda.

O roteiro não condiz com o tempo de mais de dez anos em que o projeto foi gestado; é apressado e preguiçoso. De uma cena para outra, a personagem de Baranski, que não queria ver a sobrinha nem pintada de ouro, passa a tratá-la como se filha fosse. Cynthia Nixon (a Miranda de Sex and the City), vivendo a outra tia da protagonista, padece do mesmo mal. Sua personagem, de tão exageradamente monocórdia, lembra uma das fadas madrinhas da Cinderela em versão 2D. Mas a culpa não pode recair sobre elas (e nem sobre o mordomo, como ensina o senso comum ou em Gosford Park).

Apesar das boas intenções, é preciso dar a Felowes o que é de Felowes.

- A série em uma frase: Um blind date malsucedido entre A Época da Inocência e Downton Abbey.

Alguém em algum lugar (e a perspectiva poética)

Perdida, fracassada e desiludida, Sam (Bridget Everett) está de volta à cidadezinha onde nasceu e cresceu, Manhattan, no Kansas. A cidade é real e ao visitar sua página de turismo na internet descobrimos que carrega o apelido de Little apple, em contraposição à homônima mais famosa - muito embora as semelhanças parem por aí.

Apesar de sediar a Universidade Estadual (o que deve representar alguma pujança e movimentação), a Manhattan que se revela é desolada e anacrônica. Visualmente, é de uma desatualização constrangedora - como se tivesse parado no tempo, porém sem nenhum charme vintage.

À exceção da secura da paisagem (a aridez aqui é de outra ordem), remete a True Stories, o filme experimento de David Byrne, lançado em 1986 e ambientado no Texas. Muitos dos personagens entre os que vimos até agora e várias das situações (a série está no segundo episódio da primeira temporada) também poderiam ter saído da cabeça do eterno Talking Head para surgir naquele filme ou em alguma canção melancólica.

Aliás, a melancolia é mesmo a tônica da série. Quando Sam admite não se lembrar do antigo companheiro de escola Joel (Jeff Hiller), este dispara: "tudo bem, um monte de gente não se lembra mesmo de mim." À primeira vista, a desesperança parece ser tamanha que não basta ser fracassado, há que se abraçar ao fracasso e cultivá-lo. Com o andar da carruagem, esta melodia desafinada irá se harmonizar aos poucos, mas é como Adão disse para Eva quando a conheceu: a primeira impressão é a que fica.

Inclusive por ser uma cidade real, "Manhattan, Kansas" evoca todo o desalento de "Paris, Texas" - lugares que são e não são ao mesmo tempo. Ainda que passíveis de se visualizar no Google maps, se resumem a um trocadilho geográfico, quase um hai-kai.

Outra referência territorial, o Kansas não surge gratuita ou estritamente como o estado federativo. Embora ironicamente neste caso, simboliza aquela instância tão cara para o imaginário dos Estados Unidos, a quintessência do home sweet home, o lar idealizado para onde todos desejam voltar - como Dorothy, no Mágico de Oz.

- A série em uma frase: Losers de todo mundo, uni-vos!

Vida de Carlo (e a perspectiva existencial)

É um dos expedientes mais batidos da sitcom norte-americana: moldado à luz do caráter de seu intérprete, o personagem (que geralmente dá título ao programa) encarna certas características e nuances que seriam próprias da personalidade do ator ou atriz que irá vivê-lo. I love Lucy, Seinfeld, Roseanne, Ellen, Everybody loves Raymond... a lista é quilométrica.

Com o advento do reality show e após o público ter se viciado no formato, para navegar na mesma onda, a teledramaturgia decidiu fundir mais ainda intérprete e personagem, criando ficções baseadas na própria biografia do artista. Esta é a premissa do Segura a onda com Larry David e, mais recentemente, da série italiana Vida de Carlo.

Tentando uma virada na bem-sucedida carreira, o ator e diretor Carlo Verdone (o melhor amigo de Jepp Gambardella em A grande Beleza) tenta fazer a passagem da comédia para um cinema mais autoral. Por um acaso, acaba vendo seu nome incluído entre os candidatos a prefeito de Roma. Mordido pela mosca azul, mal sabe que ao se deixar seduzir pela ideia, irá apenas acrescentar mais uma confusão ao rol de problemas que já fazem parte de seu cotidiano.

Escrita e interpretada pelo próprio Verdone, esta versão ficcionalizada de si mesmo expõe dilemas morais, inabilidades emocionais e questionamentos existenciais que resultam muito verossímeis se colados à persona pública do artista. Ainda assim, tudo parece ser mera desculpa para declarar amor incondicional à cidade eterna.

Do Gianicolo ao EUR, do Trastevere ao Coliseu, do Fórum à Via del Corso, a cidade emerge como parte mais visível da identidade de seus filhos. Aprendemos que há romanos e romanistas: os nascidos na cidade e aqueles especialistas ou apaixonados pela cidade. Algo muito forte os une e de sua atmosfera parece emanar uma essência mágica única e coletiva a uma só vez.  

Evoca-se a todo tempo sua ancestralidade histórica - todos os romanos (Verdone aí incluído) sentem-se descendentes diretos do legado de reis e imperadores e se revoltam ao perceber que aquela Roma de Augusto e Tito Lívio acabou se tornando uma enorme sinuca de bico.

O caos pessoal de Verdone é o mesmo caos da metrópole. Querer assumir a prefeitura simboliza a tentativa (vã que seja) de tomar as rédeas da própria vida. O cidadão e a cidade são uma coisa só: a felicidade de um está atrelada ao bom funcionamento da outra e vice-versa - uma filosofia que faria bem a qualquer lugar do mundo.

Atrapalha muito o descaso com que o Amazon Prime trata o seu catálogo (por conseguinte, seus assinantes). Vida de Carlo é mais uma das séries em que não está disponível a legenda em português, muito menos alguma dublagem. É a torre de babel do streaming.

Aqueles que puderem ultrapassar a barreira da língua assistirão aos dez episódios da série com um sorriso de satisfação no rosto. À sua maneira, Verdone investe sua versão ficcionalizada da mesma ingenuidade idealista e pazzesca com que Tati e Chaplin lapidaram Hulot e Carlitos.

Como não simpatizar com alguém em busca de sentido e alguma alegria em meio à desordem da vida urbana moderna? Não estamos todos no mesmo barco?

- A série em uma frase: Em Roma, faça como Verdone.

A ERA DOURADA - primeiro episódio disponível na HBO Max

ALGUÉM, EM ALGUM LUGAR - os dois primeiros episódios disponíveis na HBO Max

VIDA DE CARLO - primeira temporada disponível no Amazon Prime



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*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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