Brasil

27/01/2022 | domtotal.com

O vaivém da política nacional

Lula saiu da cadeia para voltar ao Planalto, enquanto Bolsonaro perigas sair do Planalto para entrar na cadeia

Palácio do Planalto
Palácio do Planalto Foto (ABr)

Jorge Fernando dos Santos*

A frase é atribuída a Magalhães Pinto, mas também já ouvi dizer que foi Tancredo Neves quem disse. De qual maneira, “a política é como nuvens”. Ou seja, a paisagem muda a cada mirada do observador. Para confirmar isso, basta comparar a corrida eleitoral deste ano com as eleições de 2020, quando os dois maiores derrotados nas urnas foram Lula e Jair Bolsonaro.

Dos 63 candidatos apoiados por Bolsonaro, somente 11 vereadores e cinco prefeitos foram eleitos em todo o país. Lula, por sua vez, não elegeu sequer um prefeito de capital. Guilherme Boulos, do PSOL, até que chegou perto em São Paulo, mas foi só o líder petista o apoiar abertamente para que ele despencasse nas pesquisas. O mesmo se deu com o bolsonarista Celso Russomano, tão logo o “mito” declarou que o apoiava.

Este ano, ao que tudo indica, tanto Lula quanto Bolsonaro se recuperaram do desastre. Prova disso é que o primeiro lidera as pesquisas para as eleições presidenciais, enquanto o outro se mantém no segundo lugar. Ou seja, quem não se livrou do desastre foram os eleitores.

A ironia é que Lula saiu da cadeia para voltar ao Planalto, enquanto Bolsonaro perigas sair do Planalto para entrar na cadeia. É o vaivém da política nacional, que pode mudar a qualquer momento ao sabor do acaso ou de forças ocultas.

Outro exemplo disso é a escolha do provável vice de Lula, Geraldo Alkmin. Bom lembrar que o ex-governador de São Paulo foi adversário do PT em várias eleições, sendo muitas vezes ridicularizado pelos petistas. Agora, o “picolé de chuchu” aceita se coligar com os antigos adversários, mesmo não concordando com eles no quesito economia. Também o ex-presidente Michel Temer, acusado de golpista pelo PT e apoiador de Bolsonaro, parece balançar em favor de Lula.

Combinações absurdas

Não há nada de novo nas contradições da política nacional. Nas eleições presidenciais de 1990, o então senador Itamar Franco caiu de paraquedas na chapa de Fernando Collor de Mello. Eleito vice, acabou salvando o país da ruína, após o caçador de marajás ser cassado por

corrupção. Tempos depois, ao se eleger governador de Minas, o mesmo Itamar teve que engolir, no cargo de vice, o inimigo político Newton Cardoso.

No entanto, há que se lembrar que o quadro eleitoral brasileiro já foi bem mais complicado. Antes do golpe civil-militar de 1964, o presidente e o vice não precisavam ser do mesmo partido ou da mesma coligação. A eleição para os dois cargos era feita em separado. Ou seja, os candidatos aos dois cargos que obtivessem o maior número de votos tomavam posse para juntos governar o país, ainda que fossem adversários.

O melhor exemplo disso foram as eleições de 1960, quando Jânio Quadros, do PTN, bateu o recorde de votos válidos. Entretanto, o candidato a vice em sua chapa, o udenista Milton Campos, perdeu para o petebista João Goulart. Este concorrera a vice na chapa do marechal Henrique Teixeira Lott, candidato derrotado do PSD.

No governo anterior, Jango tinha sido vice-presidente de Juscelino Kubitschek, sendo este colega de partido de Lott. Isso porque, nas eleições de 1955, a coligação PSD-PTB, os dois partidos criados por Getúlio Vargas, sagrou-se vitoriosa nas urnas.

A súbita renúncia de Jânio, em agosto de 1961, mergulhou o país no caos e sepultou de vez a absurda lógica da eleição em separado. Se Milton Campos fosse o vice, é quase certo que não teria havido golpe. Afinal, os golpistas eram quase todos ligados à UDN e, por consequência, inimigos da herança getulista representada por Jango.


Dom Total

*Jornalista, escritor e compositor, tem 46 livros publicados. Entre eles, Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa 1989), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA 2015), A Turma da Savassi e Condomínio Solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte 2012).



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