Jornalismo

27/01/2022 | domtotal.com

Jornalismo e ego trip

Como lembra a minha amiga "ranzinza", às vezes é muito bom deixarmos os mortos em paz

Segue firme a confusão entre o que é público e o que é privado, entre o que é tietagem e o que é admiração legítima com isenção
Segue firme a confusão entre o que é público e o que é privado, entre o que é tietagem e o que é admiração legítima com isenção Foto (Pixabay)

*Ricardo Soares

É batata. Toda vez que morre alguém importante e querido aqui no Brasil em seguida surgem em todas as redes sociais centenas de fotos de admiradores abraçados aos ídolos nos raros momentos de privacidade consentida que partilharam, geralmente em entrevistas. Sim, a maior parte dos que compartilharam, por exemplo, beijos e abraços com Elza Soares eram de jornalistas que dividiram alguns minutos de fama com a cantora. E isso se repete com muitos outros famosos que desaparecem.

Mas, antes que o “leitorado” me lasque a peja de ranzinza venho a declarar que não estou exatamente condenando o hábito e sim me incomodando mais uma vez porque já faz algum tempo que partilho do estranhamento que é jornalista pedir autógrafo para entrevistado ou (mais atualmente) posar em selfie do lado dele. Sou de uma encadernação antiga onde isso seria inconcebível, até condenável. Mas são, definitivamente, outros tempos e não esses em que passou a ser banal jornalistas sugerirem intimidade com famosos seja na cultura, política, esporte ou na fuleiragem do entretenimento mainstream.

O assunto me vem à baila porque uma amigona jornalista, veterana como eu, ficou irritadíssima com o número de conhecidos e amigos dela que postaram fotos ao lado de Elza Soares como se fossem mais importantes do que a diva. Num primeiro momento partilhei da estupefação dela mas depois dei aos “exibidos” o benefício da dúvida. E se tudo aquilo não fosse simplesmente um jeito carinhoso (?) de homenagear a defunta? E se tudo não fosse apenas e tão somente açúcar e afeto por uma das grandes personalidades culturais do nosso tempo ? Ou como disse outra colega no mesmo post reflexivo de minha amiga : “Mas olha… acho muito humano - e super a ver com redes sociais - que quem esteve com ela e tem um registro interessante, queira publicar e contar sobre esse momento. Alguns amigos bacanas fizeram isso. Cafonas? Aproveitadores? Egocêntricos? Ah, pode ser, mas gostei do que vi até agora. Um amigo querido, por exemplo, tem um registro lindo com ela, dando uma bitoca na moça. Adorei ver. Não conhecia essa foto”. E, pode ser, mas também pode não ser como lembrou outra pessoa : “ olha como sou importante! Estou do lado da Elza!” esquecendo-se assim que a importância é da falecida e não de quem esteve alguns minutos com ela.

É do conhecimento público que a reportagem cultural definha a olhos vistos no Brasil e por isso só há o que comemorar quando vemos ainda o Sergio Augusto, na flor dos seus 80 anos, em plena atividade e dando aula sobre o assunto todo dia. No entanto parece que muitos dos que deveriam aprender com ele sequer sabem quem ele seja. E assim segue firme e forte essa enorme confusão entre o que é público e o que é privado, entre o que é tietagem e o que é admiração legítima com isenção. Pois abraçar literalmente um ídolo que se vai parece que além da exibição quer passar a impressão para quem vê de que apoiamos muitas vezes suas vidas e obras esquecendo que há um abismo entre o que foram como artistas e o que foram como pessoas. E, convenhamos, poucos são os que tem vida e obra tão bem costuradas e coerentes quanto Elza Soares. No mais toda a confusão que se dá sobre o tema é fruto dessa era de selfies, ego trips e lavagem de roupa suja em público. Sendo que como lembra a minha amiga “ranzinza” às vezes é muito bom deixarmos os mortos em paz.


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*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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