Cultura

15/03/2022 | domtotal.com

A revolução não passará pela novela

2022 promete mais do mesmo no horário nobre e no streaming

Alanis Guillen é Juma Marruá no remake de Pantanal
Alanis Guillen é Juma Marruá no remake de Pantanal Foto (Reprodução/TV Globo)

Alexix Parrot*

Não dá para falar de novela no Brasil sem falar de Rede Globo. Herdeira soberana da TV Tupi no campo da teledramaturgia, a emissora da família Marinho ainda é a grande referência no país. Em 2022, sua primazia na área será posta à prova com a promessa de uma série de movimentos ousados das grandes do streaming.

No passado houve a TV Manchete, que fez bonito em 1990 ao quebrar a hegemonia da rival com a produção e exibição de Pantanal. A novela de Benedito Ruy Barbosa com direção de Jayme Monjardim, que assimilava temas mais afeitos à literatura e ao ativismo ambiental do que ao costumeiro visto na TV até então, foi um sucesso de público e crítica. E o pior: dado de mão beijada pela Globo para a TV de Adolpho Bloch.

Em entrevista recente, Boni (o todo poderoso global durante décadas) admite ter sido um erro vetar a trama de Ruy Barbosa por questões logísticas e de orçamento. E ainda autorizou o autor a ir bater na porta da concorrente, por achar que ele não se arriscaria tanto. Deu no que deu. Apesar da Manchete nem existir mais, Pantanal entrou para a história.

Agora, novamente por uma questão de economia, a emissora vem encerrando contratos de medalhões do naipe de Lima Duarte, Antonio Fagundes, Gloria Menezes, Malu Mader e que tais. A ordem é só fechar negócio por obra, nada mais de contratações de longa duração, a não ser para poucos e bons - definidos por um critério incerto.

De olho nessa constelação repentinamente disponível no mercado, Netflix, Amazon Prime e HBO Max estão estendendo tapetes vermelhos na porta de seus Departamentos de RH como se não houvesse amanhã. Camila Pitanga e Fagundes já estão na HBO Max e Lázaro Ramos no Amazon Prime. Corre também a notícia que todas as plataformas de streaming investirão na produção de novelas.

Além de atores e atrizes, a Warner Media (dona dos canais HBO Max, TNT e Warner Channel) botou na folha de pagamento Monica Albuquerque. Depois de chefiar a contratação e gerenciamento de atores, atrizes, autores e diretores da Globo por 7 anos, a executiva assumiu funções análogas no conglomerado, para toda a América Latina. Silvio de Abreu, autor de grandes sucessos na TV e responsável pelo setor de dramaturgia global até o final de 2021, seguiu os passos da antiga parceira. Irá desenvolver o que estão chamando de "novelas curtas", com o objetivo de explorar a paixão brasileira pelo gênero.

Para provar que o streaming é mesmo o novo Eldorado da história da televisão, a HBO Max vai promover um concurso para escolher entre atrizes desconhecidas a protagonista da primeira dessas "novelas curtas". Em um crossover tão inesperado quanto o encontro dos três homem-aranhas no último filme do aracnídeo, a competição será realizada no programa do Faustão na Band. Pelo jeito, para as plataformas o único concorrente a temer é mesmo só o canal do Plim Plim.

Esta história de "novelas curtas" deve ser algo parecido com o que o Globoplay fez com Verdades Secretas II - de fato, mais curta que uma novela convencional; porém, muito mais longa do que merecia. Tentando sair na frente mais uma vez, a nova diretoria artística da Globo anunciou que irá colocar no ar simultaneamente duas novelas das nove: uma, convencional, no canal aberto e outra, mais curta, no streaming.

A notícia é interessante porque abre a possibilidade de serem trabalhados temas adultos, sem a preocupação com moralismos e classificações etárias - como nas produções levadas ao ar às 22 horas nas décadas de 1970 e 1980 ou na faixa de minisséries. Fica a impressão de que há algo mesmo no ar além dos aviões de carreira de praxe. Quem viver, verá.

Mas isso está previsto apenas para o segundo semestre. Até lá, a novidade prometida é... Pantanal - uma estreia que já aconteceu há mais de 30 anos.

Em termos de idade, Juma Marruá só não compete com Moisés e seus Dez Mandamentos. A novela nem é tão velha, mas como reprisa tanto, parece que já o conhecemos desde a época da Tupi. Não satisfeito em atravessar o mar vermelho, subverteu a ordenação de canais do dial da TV de plasma. Como quem sai do Egito em busca da Terra Prometida, migrou da Record e está agora até na programação da TV Brasil.

Aliás, que vergonha essa TV Brasil... No pós-golpe da era Temer, fechava negócio com a Globo e agora compra novela da emissora de Edir 'nada a perder' Macedo; não por acaso aliado de primeira hora de Bolsonaro. Receber um dinheirinho (público) e ainda ampliar a captação de fiéis para sua igreja no canal que deveria ser público mas se tornou escancaradamente estatal é como celebrar uma coligação política com o governo - ou um pacto com o diabo. Apesar do clima bíblico da produção, o problema no caso é determinar quem é exatamente o diabo.

Enquanto isso, a HBO Max também já sacramentou o seu pacto. Não com o diabo, mas com o passado. Colocar Monica Albuquerque e Silvio de Abreu à frente de seu departamento de novelas não significa exatamente ousar. Do que adianta enfrentar a Globo se a estratégia usada é se transformar na Globo? Quem precisa de duas Globos?

No ano em que completa 71 anos, a novela brasileira segue mais viva do que nunca, porém, aparentemente, permanece longe de alguma revolução consistente que a transforme. A quantidade de títulos oferecida será inflada, mas o risco de vermos mais do mesmo é igualmente amplo.

Para honrar o gênero em 2022, vale mais celebrar os centenários de Ivani Ribeiro (20 de fevereiro) e Dias Gomes (19 de outubro) do que enveredar pelas polêmicas (as reais e as inventadas) trazidas na esteira dos cem anos da Semana de Arte Moderna. Se a massa ainda comerá do biscoito fino que Oswald fabricava, não consigo dizer se sim ou não. O que sei é que no horário nobre já fomos servidos de quitutes mais frescos.


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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