Cultura

22/03/2022 | domtotal.com

Streaming no Oscar

Em pouco tempo os streamings viram seu status mudar completamente, de patinho feio para galinha dos ovos de ouro

Netflix
Netflix Foto (Pixabay)

Alexis Parrot*

Domingo é dia de Oscar e este ano a Academia irá reconhecer o que não dá mais para negar. Não só a televisão, mas também o cinema segue a trilha de tijolos amarelos pavimentada pelo streaming.

Antes rechaçada por diretores e produtores tradicionais do cinema, em pouco tempo a associação com os serviços que disponibilizam conteúdos audiovisuais via internet viu seu status mudar completamente, de patinho feio para galinha dos ovos de ouro. Spielberg chegou a afirmar que filmes exibidos por Netflix e congêneres seriam na verdade telefilmes e deveriam concorrer apenas ao Emmy, e não ao Oscar.

Scorsese foi um dos primeiros a se render ao canto da sereia milionário das plataformas. Sem a Netflix, não poderia ter realizado O Irlandês, projeto acalentado há décadas, mas de produção caríssima. À época do lançamento do filme, rogou ao público que, pelo menos, tentasse assisti-lo em uma tela a maior possível.

Até Almodóvar capitulou. Quando presidente do júri em Cannes há alguns anos atrás, negou a premiação de qualquer filme produzido sob o carimbo do streaming. Para tanto, argumentou que a experiência coletiva das salas de exibição seria o principal fator para que uma produção pudesse ser considerada cinema de fato. A inflexibilidade durou pouco, haja vista seu último filme, Madres Paralelas, lançado nos cinemas e quinze dias depois no streaming da América Latina.

O truque é simples. Para qualquer filme se tornar elegível ao Oscar, basta que tenha ficado em cartaz apenas uma semana nos EUA no ano anterior à premiação. Após o imbroglio em Cannes com Almodóvar, foi exatamente o que a Netflix passou a fazer, sendo copiada (como de costume) por toda a concorrência na prática.

Por que o Oscar? Porque é o mais comercial de todos os prêmios do cinema e se a indicação já é sinônimo de prestígio, uma vitória significa uma selo de qualidade e propaganda inestimável, capazes de multiplicar consideravelmente o número de zeros das cifras obtidas na bilheteria.

Entre os dez indicados a melhor filme este ano, a Netflix emplacou dois: Não Olhe para Cima e Ataque dos Cães, este último com grandes chances de levar a estatueta. Seus principais rivais são a refilmagem de West Side Story e Belfast. Ataque dos cães é favorito também nas categorias ator (Benedict Cumberbatch, que só tem a temer Will Smith) e ator coadjuvante (Jesse Plemons e Kodi Smit-McPhee), além de garantir com quase 100% de chances o prêmio à diretora Jane Campion.

Outras certezas de premiação repousam sobre A Filha Perdida, baseado no romance de Elena Ferrante. Merecidamente, Olivia Colman deve faturar o segundo Oscar e Maggie Gyllenhaal levar o seu primeiro pelo roteiro adpatado.

Também concorrendo a melhor filme, a ficção científica Duna e King Richard: Criando Campeãs, da Warner Brothers, já estão disponíveis na HBO Max após cumprirem temporada nos cinemas. Trata-se de caso interessante, porque tanto a plataforma de streaming quanto o estúdio de cinema pertencem ao mesmo grupo, a Warner Media. Como descolar uma coisa da outra? Qual linha pode separar o streaming e o cinema se ambos se sentam à mesma mesa e comem do mesmo prato?

Novas configurações como esta embolam mais ainda o meio de campo para aqueles que ainda tentam separar uma coisa da outra. Apontam sim para uma associação mais constante (e inevitável) entre os vários modelos de produção e exibição que o cinema vem vivenciando nos últimos anos.

Em breve, esta questão estará totalmente superada. Não questionaremos mais o que é e o que não é cinema e a pergunta principal voltará a ser simplesmente "que filme vamos ver hoje"?


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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