Cultura

30/03/2022 | domtotal.com

Todos os ritos de Pantanal

Qualidades e defeitos de um remake inevitável

Novela Pantanal
Novela Pantanal Foto (Divulgação)

Alexis Parrot*

No primeiro respiro após dois anos de uma pandemia que parecia interminável, a Globo saca da cartola o remake de Pantanal, uma novela icônica por inúmeros motivos. Se há 22 anos atrás a emissora dos Marinho entregou de mão beijada o pote de ouro para a concorrência, dessa vez a história é outra.

Ao finalmente tomar posse dos direitos comerciais sobre a obra de Benedito Ruy Barbosa, a emissora dos Marinho tenta se redimir do maior erro cometido em sua história. Em movimento raro em sua trajetória, despe-se momentaneamente da arrogância para assumir de público a própria falibilidade - provavelmente, a única novidade trazida a reboque de uma novela já vista e conhecida.

Tudo nessa revisitação é homenagem. Em primeiro lugar a Benedito Ruy Barbosa, mas também ao povo desbravador do centro-oeste brasileiro e sua cultura e a atores do elenco original, que retornam agora em participações especiais. Mas, inadvertidamente, o tributo maior é concedido à TV Manchete e sua ousadia de desafiar a hegemonia da campeã de audiência. Ao se agarrar à saga de José Leôncio e Juma Marruá para vendê-la como se sua fosse, a Globo não entende que acaba exaltando mesmo é Adolpho Bloch e as valentes equipes da emissora carioca da Rua do Russel. A TV Manchete não sobreviveu, porém, seu legado segue no ar.

Criou-se uma estética para representar o tempo do bioma e daquela gente que, organicamente, o habita. O silêncio da savana alagada ditava o ritmo da trama, enquanto o elogio da simplicidade e os códigos pantaneiros eram incorporados ao roteiro de forma natural. Ao apostar no risco e renunciar à facilidade dos lugares comuns da teledramaturgia de então, Pantanal causou impacto inédito e, merecidamente, se tornou sucesso de público e crítica. Ao assistir à estreia do remake na noite de ontem, ficou claro o que se ganhou e se perdeu entre uma e outra versão da novela.

Apesar da história ser exatamente a mesma, o texto, depurado, aprofunda e atualiza com zelo o que já havia sido dito há três décadas. O ritual de passagem do adolescente Zé Leôncio para a vida adulta não se trata mais de deitar com uma prostituta; é cumprido no trabalho, quando completa a primeira comitiva no papel de ponteiro. Só aí ele ganha o direito a uma noite de amor. A diferença é sutil, mas significativa. O primado machista ainda predomina, porém, abre-se espaço para outro tipo de masculinidade ser representada e aflorar.

E rito parece ser a palavra de ordem aqui. Entre todos os personagens, o Joventino de Irandhir Santos é o que mais e melhor celebra a beleza de um mundo que ainda acredita na força do ritual para se sustentar. Com um pé no chão e outro no infinito, incorpora a visão de totalidade cósmica, própria dos nossos povos indígenas e sobre a qual se debruçam autores como Daniel Munduruku e Ailton Krenak. Se quisermos mesmo adiar o fim do mundo, este é o caminho.

Neste ponto, há que se celebrar também a qualidade das interpretações. Irandhir Santos, magnético, puxa a carroça, mas no conjunto o nível foi muito bom. Nos momentos em que Joventino se depara com o marruá e desenvolve verdadeiro ballet para domá-lo sem o laço, o risco do risível seria grande se fosse outro ator. Dono de seu corpo e da verdade de seu ofício, Santos ofereceu uma performance inesquecível, afastando definitivamente o perigo de testemunharmos um novo Crocodilo Dundee, exportado diretamente da Austrália para o Pantanal.

Outro rito, o do velho peão que passa para o substituto o posto de chefe de comitiva, é metáfora precisa para os bastidores da novela: Benedito Ruy Barbosa também está passando o berrante para a nova geração, incumbindo agora o neto Bruno de renovar suas palavras, como já havia feito com as filhas Edilene e Edmara. Como disse o velho Joventino, "um dia acontece".

Mas se texto e interpretações fazem jus à história da novela, direção e concepção estética decepcionam na mesma medida. As imagens são tão pasteurizadas que o Pantanal poderia ser o Jalapão ou a Chapada Diamantina - o significado é sempre o mesmo, transformando o que deveria ser principal em secundário. O épico diz mais respeito à objetividade do que ao grandioso, e o drama deve estar na trajetória dos personagens e não na paisagem.

A imprensa irá dizer que a novela tem uma "qualidade cinematográfica", quando na verdade apenas simula visualmente tudo aquilo que é de fato significado no cinema. Movimentos de câmera em excesso e narrativamente sem justificativa unidos a uma série de grandes planos gerais que simplesmente mostram um ambiente não passam de propaganda turística.

Reside aí a grande diferença entre os dois Pantanais. O remake se ancora na beleza esvaziada de sentido, um reino onde a Globo se tornou imbatível. Esqueça José Leôncio (Claudio Marzo ou Marcos Palmeira, tanto faz a essa altura): os drones são os verdadeiros protagonistas deste novo Pantanal.


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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