Religião

03/04/2022 | domtotal.com

1º dia de viagem: em Malta, Francisco alerta para 'Guerra Fria estendida'

No início de sua 36ª visita apostólica, o Papa condena invasão na Ucrânia e manda recado para Putin

Papa Francisco, em voo a Malta, neste sábado (2), diz a jornalistas que cogita ir à Ucrânia
Papa Francisco, em voo a Malta, neste sábado (2), diz a jornalistas que cogita ir à Ucrânia Foto (Dom Total)

Mirticeli Medeiros, enviada especial a Malta

Tudo começou no avião papal. É certo que, mais cedo ou mais tarde, algum jornalista perguntaria a Francisco sobre uma visita a Ucrânia. Isso porque, desde o início da semana, há rumores de que o Vaticano cogita uma visita pontifícia ao país. E a visita do presidente do país que mais tem recebido refugiados ucranianos – a Polônia -, um dia antes da viagem a Malta, deixa claro que há uma articulação nesse sentido.

No voo que o conduzia para a Malta neste sábado (2), como em todas as viagens, além de colaboradores do Vaticano, 90% dos assentos são ocupados por jornalistas. Um deles, Claudio Lavanga, lhe perguntou, na lata: “O senhor pensa mesmo em ir para a Ucrânia neste momento?”. E sem fazer “rodeios diplomáticos”, o santo padre deu uma resposta direta: “Está na mesa”. Isso para dizer que, além de ele não descartar a possibilidade, a questão está em negociação.

Era de se esperar que Francisco se sentisse livre para lançar seu apelo de paz num país que disse sim, em 2020, para o pacto da ONU que proibe das armas nucleares, um tratado que ao qual a Santa Sé também aderiu.

E ficou tão à vontade para dizer o que pensava, que usou palavras duras ao condenar os “novos nacionalismos” que geram destruição. Foi clara a sua alfinetada em Vladmir Putin, embora ele não tenha especificado que era para o “czar” o seu discurso.

“E, enquanto isso, mais uma vez, certos poderosos, tristemente fechado nas suas anacrônicas pretensões de interesses nacionalistas, provocam e fomentam conflitos, o povo comum quer somente construir seu futuro”, salientou Francisco.

Como sempre, embora se solidarize com o que ocorre na Ucrânia, o líder católico disse, ao final da sua colocação, que seus conselhos também se encaixam no drama vivido no Líbano, Síria e Iêmen, deixando claro, mais uma vez, que outros conflitos também devem receber visibilidade.

Um termo interessante, usado por Francisco, foi “infantilismo”, uma atitude que, segundo ele, é própria de populistas e nacionalistas. Ao entrar nesse tema, ele trouxe uma definição que, até hoje, não tinha utilizado ao se referir à invasão da Ucrânia: “uma guerra fria estendida”.

O medo de que o mundo volte à bipolaridade do pós-segunda guerra mundial, tem feito o pontífice jogar cartas nunca imaginadas. A própria visita à Ucrânia, caso aconteça, vai contra o “protocolo” da diplomacia pontifícia em situações de conflito, a qual – historicamente - prefere atuar nos bastidores para preservar seu status quo de mediação.

Pelo jeito, Francisco trata a situação como uma “nova crise dos mísseis”, que levou a Santa Sé, por meio de seu aparato diplomático, durante o pontificado de João XXIII, a intervir de maneira mais incisiva.

Também nesse discurso, que foi o mais importante do dia, por isso merece nossa atenção, Francisco admitiu ter medo de que a ameaça atômica não seja algo que tenha ficado no passado.

Nessa viagem, a Santa Sé entra, mais uma vez, no tabuleiro geopolítico global e está disposta, ao que parece, até a burlar as próprias regras para que a vida dos mais vulneráveis, o “povo comum”, como o Papa gosta de dizer, veja a Igreja Católica como porta-voz do seu sofrimento.

Em um momento de descontração, Mirticeli Medeiros, enviada especial do Dom Total, pergunta ao papa sobre sua preferência: "Maradona ou Pelé?", ao que Francisco responde com outra pergunta: "Água ou cachaça?". Mirticeli responde, então: "cachaça", e Francisco retruca: "então posso responder Maradona!".

Veja o vídeo do momento:


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