Cultura

06/04/2022 | domtotal.com

Foodie Love: um banquete na TV

Série espanhola discute a vida atual por meio da comida

Cena da série espanhola 'Foodie Love'
Cena da série espanhola 'Foodie Love' Foto (HBO/Divulgação)

Alexix Parrot*

Autores dedicados a várias formas de expressão artística retomam, de quando em quando, a associação entre paixão e comida para construir suas obras. Chegou a vez da televisão abraçar o assunto na ótima Foodie Love, série espanhola em oito episódios, disponível na HBO Max. Um aplicativo de encontros para amantes da gastronomia é o ponto de partida ("há muitos imbecis no mundo foodie... mas no mundo em geral também. Mas alguém apaixonado por comida não pode ser tão imbecil assim", como confidencia o protagonista). Comida é a desculpa e o tom é de romance, mas o que de fato é servido acerta em alvos mais ambiciosos.

Por trás da aparente simplicidade dos encontros e desencontros de uma história de amor, paradigmas emblemáticos do nosso tempo são expostos e questionados. Prestes a mergulhar em definitivo nas águas nem tão límpidas assim do Metaverso de Zuckerberg, redefinindo e borrando de vez as fronteiras entre real e virtual, a série convida a refletir sobre o caminho que percorremos para chegar a tal estado.

Se até o amor depende da mediação digital, devemos de uma vez por todas aceitar o jugo do algoritmo a determinar nossos destinos? Neste cenário, o que ainda resta de legítimo e verdadeiro, senão os prazeres da carne, da comilança e do gosto? É provavelmente o sabor a última instância ainda não dominada pelos novos deuses da tecnologia digital. Talvez, a partir dele, possamos nos conectar com o outro sem o auxílio de cabos ou wi-fi, além de preservar o que ainda nos toca como genuíno.

Um casal sem nome é apresentado à medida em que eles mesmos vão se conhecendo. Só sabemos deles o que dizem e a partir do momento em que dizem. O meio é a televisão, mas quem determina tudo é a palavra e a conversa que se estabelece. Do diálogo nasce o drama, mas não apenas entre os protagonistas. Para elaborar seu discurso, a série lança mão do entrelaçamento de várias linguagens - indicada logo na abertura do programa com uma animação que poderia ser uma publicidade do Ifood. Cinema, vídeo, música, literatura e fotografia virão completar o menu de ingredientes para trazer à mesa, como anunciado nos créditos iniciais, "uma série cozinhada por Isabel Coixet".

A catalã Coixet, diretora cult de Minha Vida Sem Mim (2003), A Vida Secreta das Palavras (2005) e o mais recente Neva em Benidorm (2020), tem dedicado toda a carreira a uma pesquisa do sensível, traduzindo em imagens a intimidade e o espanto.

Talvez interessada em uma maior legibilidade por parte do público nesta visita à televisão seriada, Coixet encontra um equilíbrio perfeito entre autoral, experimental e popular, sem abrir mão da gramática muito pessoal que a marca como realizadora de cinema. Como único porém, só consigo apontar o excesso de intervenções a título de comentário ou gracejo, sobretudo no primeiro episódio. Ao contrário do diálogo com o cinema ou com as canções (que surgem orgânicos na narrativa), estes maneirismos soam datados, remontando a uma época em que eram recorrentes no trabalho de videastas e videomakers. Menos mal que vão ralentando à medida que os episódios se sucedem.

Cada episódio é um encontro e uma refeição. Se hoje somos dominados pelos protocolos do ambiente virtual, é importante lembrar que a vida aqui fora não irá cobrar de ninguém uma senha ou a leitura biométrica do polegar. Ela quer apenas que se observem os seus ritos - e comer é um ritual, assim como se apaixonar ou mesmo o ato sexual. É nesta seara que Foddie Love floresce, operando uma celebração do essencial enquanto nos leva por um tour guiado por ramblas e restaurantes de Barcelona.

Mas o que se vê é a Barcelona do dia a dia; uma cidade bela em sua funcionalidade e naquilo que possui de comum, como qualquer outro grande centro urbano. Os monumentos, pontos turísticos e cartões postais não comparecem diante da câmera de Coixet, que prefere enquadrar esquinas, becos e vielas. A cidade que interessa é aquela que propicia encontros, humana na medida em que não existe sem seus habitantes. Neste ponto, "Que habitantes são estes?" emerge como a grande questão.

A extrema dependência da tecnologia à qual nos entregamos pode ser uma pista para elucidar a pergunta. Parece que só é possível expor-se verdadeiramente pelo celular, pelo face time ou em uma sessão do Zoom (da mesma forma como age a protagonista da série). Contrassenso dos contrassensos, mais que mediador, o aparato digital torna-se um escudo atrás do qual nos escondemos justamente para nos revelar.

Se estamos mesmo perdidos, como a série mostra, como sair desta sinuca de bico? Acreditar na força dos ritos e conciliar-se com a própria história podem ser chaves para abrir novas portas. Sentar-se para comer com calma, gosto e bem acompanhado é certamente um bom começo para recuperar o prazer e estar à vontade na própria pele: um indivíduo novamente, não mais uma foto de perfil.

Aí sim, dá para pensar em pedir a sobremesa.

(FOODIE LOVE - primeira temporada em oito episódios disponível na HBO Max).


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de Tv, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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