Cultura

16/04/2022 | domtotal.com

Um tapa é um tapa é um tapa

O golpe do momento mostra a força da TV ao vivo

Will Smith
Will Smith Foto (AFP)

Alexis Parrot*

O mais novo golpe militar já está em ação, dessa vez nos cofres públicos. Para que o Ministério da Defesa precisa de viagra superfaturado? Para içar as velas da nossa frota marítima? Para emergir o periscópio de nossos submarinos? Para ajudar a abrir os flaps, garantindo que os caças aéreos consigam subir? Ou só para levantar o moral da tropa? De tanto passar a mão na cabeça do presidente, referendando suas loucuras inconstitucionais, as Forças Armadas brasileiras já estavam mesmo desmoralizadas - mas agora atingiram o clímax.

Enquanto isso, no Congresso, outro golpe parece estar se desenhando. A meses da eleição, não é que o presidente da casa decidiu tirar da cartola uma discussão delirante sobre o semipresidencialismo? Arthur Lira - que já governa o país em conjunto com o chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira - quer agora assumir controle total sobre as emendas parlamentares, excluindo da equação o presidente eleito, seja quem for.

E o Edir 'nada a perder' Macedo que, apesar de bispo, quer dar o golpe do vigário no fisco? O nababesco Templo de Salomão, sede da Universal do Reino de Deus em São Paulo, foi construído com pedras importadas da Palestina, sobre as quais o guru maior do faith business se recusa a pagar os impostos de importação. O imbroglio está há anos na justiça, com todas as despesas processuais correndo por conta do dinheiro do dízimo e das correntes dos fiéis. Se alguém pensou na palavra "vendilhão", acertou em cheio.

De golpe em golpe, vamos nos defendendo como podemos... Mas, ainda assim, entre tantos, de qual golpe temos nos ocupado nas redes sociais? Golpes contra a democracia, contra a roubalheira generalizada, contra a Constituição? Não. O golpe do momento é outro e nem aconteceu aqui no Brasil.

Entrou para a história do cinema (e da TV) mundial o tapa que Will Smith desferiu no rosto de Chris Rock, logo após uma piada (sem graça) sobre Jada Pinkett, a Senhora Smith. Apesar da característica, digamos, cinematográfica da ação, a repercussão alcançada pelo tabefe só chegou no patamar que chegou porque tudo aconteceu no palco da cerimônia de entrega do Oscar.

E, sim, o prêmio tem perdido fôlego e envelhecido com rapidez assombrosa. A começar pela falta de diversidade entre os ganhadores. Em quase cem anos, a láurea de direção foi concedida para uma mulher pela primeira vez há apenas doze anos atrás. A regra do jogo agora é outra e, para não perder o bonde da história, as perspectivas da Academia tiveram que se atualizar e se adaptar ao clima desse nosso tempo.

Tanto é que, do ano passado para cá, duas outras mulheres repetiram o feito. Não se discute o mérito das vitoriosas mas, se pararmos para pensar, já deviam esse Oscar a Jane Campion desde O Piano. Reconhecer seu talento justamente agora é certamente um desagravo, mas também um manifesto e uma ação de contenção de danos. É como se o carequinha dourado ganhasse novamente cor nas faces pálidas e se levantasse do leito de morte todo serelepe, buscando o respeito perdido e dizendo sorridente o quão atual e relevante ele ainda pode ser.

Porém, todas estas discussões caíram por terra e se tornaram coadjuvantes após o tapa de Will Smith. Há que defenda o gesto cavalheiresco de sair em defesa da mulher; há quem reprove o ato que, por fim, coloca a mulher em segundo plano para transformar o assunto em briga de galos tentando provar quem manda no quintal. Mesmo aqueles poucos que não se manifestaram publicamente contra ou a favor, têm uma opinião sobre o acontecido e, mais importante, sabem o que aconteceu e porque.

Parafraseando Gertrude Stein, um tapa é um tapa é um tapa é um tapa - a não ser que seja desferido ao vivo na televisão. Aí, vira O tapa. Se os envolvidos forem nomes conhecidos, a escala tende a aumentar, mas não é isto que determina a força com que qualquer tapa dado na mesma condição também nos atingiria.

Esta é a força insuperável da TV ao vivo; a surpresa que pode acontecer a qualquer momento diante de nossos olhos e nos deixar sem reação. Plot Twist nenhum de seriado do streaming, por melhor que seja, consegue superar o efeito do inesperado da vida quando testemunhado em tempo real e em sincronia com milhões de telespectadores.

Para quem ainda acha que a TV tem os dias contados, está aí um tapa na cara para defender o contrário.


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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