Cultura

27/04/2022 | domtotal.com

Do outro lado do fogo

O que está acontecendo? eu estive febril todo o tempo para só agora encontrar teus olhos do outro lado da fogueira?

Ricardo Soares
Ricardo Soares Foto (Pixabay)

Ricardo Soares*

Ainda respiro e bem depois de dois anos da maldita pandemia . E vi agora teus olhos do outro lado da fogueira antes de achar que em algum momento eu poderia estar morrendo. O que está acontecendo? eu estive febril todo o tempo para só agora encontrar teus olhos do outro lado da fogueira? 

Tenho saudade e este sentimento pesa. Saudade da tua gengiva alta que aparecia mais que os dentes à beira de um sorriso. Saudade da volta que demos, todos nus, ao redor do campo de pouso, saudade do teatro primal, dos rituais de iniciação, da mistura de vinho barato com pinhão e amendoim, do fusca à álcool que não pegava, da comida em volta da mesa, da pizza fria, da dor da obturação, das prestações infindáveis dos móveis baratos , dos quindins amanhecidos e dos sorrisos na varanda. Ainda respiro forte e meu nariz escorre mais por nostalgia de corizas passadas do que pela umidade do presente. A umidade já não me afeta. Nem o mofo, o bolor , os ácaros e bichos do ar. Tanto faz se tenho pulmões vazados ou pleno fluxo de respiração. Tanto faz se ainda respiro pó, fuligem , pólen. Mas se eu respiro eu levito. Se levito eu sobrevoo . Se eu sobrevoo me alço a libélula, louva- a –Deus , mariposa barata .

Pouso em planta, em folha, flor, esterco. Não cheiro nada. Sinto, não toco. E sem tocar em nada me vem a saudade de quando a fogueira ardia , quando o velho atingia o cume, quando a mão encostava na cidreira, quando a grama voltava a crescer, quando a forca dá em nada e quando o carrasco padece. Sucede que o mundo cresce e eu não me tanjo. Gado velho esquece do tamanho do pasto e cai em valas, vilipendia pernas, aumenta os hematomas, dá trabalho aos especialistas em saúde. Assim vejo a fogueira e tusso. Assim vejo a fogueira e pigarreio. Assim me incendeio e te vejo do outro lado. Se está quente – os nossos pulsos também ? – é porque respiro. Se respiro interfiro, sintonizo , arremato, mando sinais vitais aos que acham que eu “vareio”. Sou um neto de Guimarães Rosa , um produto do meu lixo, um caminhão cheio de ouriços, uma navalha cega, um verso esquisito de Bocage, uma ponte que ruiu , uma bocada insensata , uma equação errada, um botijão que explodiu porque esteve ali, sempre do outro lado da fogueira. E através dela viu teus olhos mas jamais os enxergou. Ao ter certeza disso tenho certeza de que não mais respiro. Mas estou em paz. Depois da pandemia creio agora finalmente ver seus olhos plenos do outro lado do fogo.


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*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários. Fala em 1 minuto sobre livros no Instagram @naredecomsede.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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