Engenharia Ensaios em Engenharia, Ciência e Sustentabilidade

10/05/2022 | domtotal.com

O Brasil, os fertilizantes e o potássio

O potássio aumenta a retenção de água nas plantas, melhora o rendimento das culturas e influencia o sabor, a textura e o valor nutricional de muitas plantas

O potássio influencia o sabor, a textura e o valor nutricional de muitas plantas
O potássio influencia o sabor, a textura e o valor nutricional de muitas plantas Foto (Pixabay)

*Jose Antonio de Sousa Neto

**Gustavo Barros Paolinelli

Potassa é o termo comumente usado para descrever sais contendo potássio usados como fertilizantes. A maior parte da potassa é derivada do cloreto de potássio (KCl), que também é conhecido como muriato de potassa (MOP). Como fonte de potássio solúvel, a potassa é vital para a indústria agrícola como nutriente primário das plantas. O potássio aumenta a retenção de água nas plantas, melhora o rendimento das culturas e influencia o sabor, a textura e o valor nutricional de muitas plantas. A maior parte do potássio do mundo vem do Canadá (com os maiores depósitos localizados em Saskatchewan e New Brunswick) Rússia e Bielorrússia.

Como comentamos aqui neste espaço na semana passada, um dos temas mais importantes no mundo hoje é o enorme desafio da segurança alimentar. A produção agrícola ainda apresenta um potencial de crescimento entre 20 e 30% da produtividade das cultivares (sem aumento das áreas de produção), desde que sejam otimizadas as práticas de manejo. A agricultura tropical é protagonista nesta empreitada e o desenvolvimento tecnológico é a chave para realizar este potencial. A Verde Agritech (https://verde.ag/), por exemplo, desenvolveu um novo tipo fertilizante, que fornece potássio, silício, magnésio e manganês e será o primeiro fertilizante mineral da Terra a utilizar também tecnologia biológica desenvolvida com o apoio da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais). Neste caso o primeiro microrganismo a ser adicionado é o já consagrado Bacillus aryabhattai. Também conhecido como rainha da noite o Bacillus aryabhattai, é uma espécie de rizobactéria, em formato de bastonete, que foi isolada e identificada pela primeira vez somente em 2009.

O controle biológico de doenças tem com premissa o controle de pragas agrícolas e insetos transmissores de doenças a partir da inserção de seus inimigos naturais no sistema, sendo as rizobactérias um desses agentes. A utilização das rizobactérias visa criar um biofilme capaz de proteger a semente da infecção pelos fitopatógenos. E como elas apresentam uma velocidade de crescimento muito superior aos demais microrganismos, se tornam uma ótima alternativa para o controle biológico.

O papel das rizobactérias não se limita apenas ao controle de patógenos radiculares, uma vez que elas também são conhecidas como promotoras de crescimento das plantas por aumentar a solubilização de nutrientes, a fixação de nitrogênio e a tolerância ao estresse hídrico, salinidade e toxicidade de metais.

Os Bioinsumos são produzidos a partir da bactéria Bacillus aryabhattai, presente nos solos da Caatinga. Esses microrganismos são capazes de hidratar as raízes e atuam na fisiologia dos vegetais, fazendo com que respondam melhor à escassez de água. Como comenta o Dr Alysson Paolinelli***, “acho que estamos mudando o conceito de fertilização do solo”. E como um salto tecnológico para a agricultura, isto potencialmente também tem um grande impacto para a segurança alimentar no mundo.

Apesar da extremamente importante biorevolução em curso na agricultura tropical os insumos minerais são e continuarão sendo essenciais. Na verdade, estas duas dimensões não são excludentes, mas complementares. E no contexto da produção de fertilizantes, o potássio é um dos elementos fundamentais. Hoje, o potássio vem da mineração subterrânea ou da mineração de solução. “Os depósitos subterrâneos de potássio vêm de leitos marinhos evaporados. As máquinas de perfuração extraem o minério, que é transportado até a superfície para a usina de beneficiamento, onde o minério bruto é triturado e refinado para extrair os sais de potássio. Quando os depósitos estão localizados muito profundamente na terra, a mineração de solução é usada como uma alternativa à mineração subterrânea tradicional. A mineração de solução emprega o uso de água ou salmoura para dissolver minerais solúveis em água, como potássio, magnésio ou outros sais. Os poços são perfurados até os depósitos de sal e o solvente é injetado no corpo de minério para dissolvê-lo. A solução é então bombeada para a superfície e os minerais são recuperados através da recristalização”.

A indústria de mineração é responsável pelo fornecimento de muitos dos blocos de construção do mundo, desde minérios diversos com um número incontável de usos e aplicações até terras raras utilizadas em materiais e tecnologias avançadas. No entanto, a mineração também pode ser responsável por um aspecto ainda mais fundamental da existência humana, que viu uma de suas cadeias de suprimentos sofrer intensa pressão nos últimos anos: a cadeia de alimentos. “Os números do Banco Mundial mostram que a quantidade de terras agrícolas viáveis por pessoa caiu drasticamente no último meio século, com a quantidade de terras aráveis caindo de 0,361 hectares por pessoa em 1961 para apenas 0,184 hectares por pessoa em 2018”.

O Brasil poderia reduzir a dependência das importações de potássio para atender às suas necessidades agrícolas desenvolvendo minas domésticas? Atualmente, o Brasil importa cerca de 95% de sua potassa de minas localizadas no Canadá, Rússia, Alemanha e Israel. Como o potássio é um nutriente essencial e sem substituto para o cultivo de alimentos e os solos do Brasil são naturalmente deficientes em nutrientes devido ao alto teor de argila, é da mais alta importância estratégica que o Brasil tenha uma grande oferta doméstica de potássio.

O Potássio Brasileiro tem algumas vantagens muito significativas com relação ao cloreto de potássio importado:

“1. O Cloreto de Potássio é um sal altamente solúvel em água. O Potássio Brasileiro, graças a propriedades da sua matéria-prima, é capaz de resistir às chuvas e ficar em profundidades do solo nas quais a planta possa continuar absorvendo.

2. Favorece o desenvolvimento da microbiota do solo. O Cloreto de Potássio mata os microrganismos do solo. Aplicar 200kg de KCl em uma área é igual a despejar 1.600 litros de água sanitária no solo2 em relação ao efeito biocida. Devido à propriedades da sua matéria-prima, o Potássio Brasileiro favorece o desenvolvimento da microbiota do solo. E, por ser livre de cloro, não mata os microrganismos.

3. Não compacta nem saliniza o solo. O Cloreto de Potássio é altamente salino. O Potássio Brasileiro é livre de salinidade. Aplique diretamente na raiz, no sulco de plantio e em grandes doses sem causar qualquer mal à planta e ao solo.

4. Libera os nutrientes de forma gradual. A aplicação do Cloreto de Potássio tem que ser parcelada. O Potássio Brasileiro, graças à Cambridge Tech, tecnologia descoberta pela Universidade de Cambridge, libera os nutrientes de forma gradual e tem um efeito residual prolongado.”

Mas todos esses elementos tão importantes não podem nos desviar de avaliar com os mais rigorosos critérios a exploração do potássio existente em território nacional. Seja pelo absolutamente essencial cuidado com relação às questões ambientais, seja pelo absolutamente essencial cuidado com as questões indígenas. Mas se pudermos superar turvamentos ideológicos seremos capazes de construir soluções equilibradas e dignas para todos, evitando os erros e os imensos danos causados à nação, por exemplo, em projetos como o da construção da usina de Belo Monte, onde ideologias radicalizadas e com objetivos políticos e econômicos sem relação com o bem da sociedade brasileira venceram a razão e ignoraram a realidade.

O processo de mineração do potássio, de uma forma geral, se faz em áreas restritas, em profundidade e não em grandes áreas abertas (mineração a céu aberto) como é comum na exploração, por exemplo, do minério de ferro. Por outro lado, é preciso rigor com o subproduto sulfato de hidrogênio (H2S) resultante de alguns dos processos possíveis para a extração do potássio. Quanto maior a operação industrial de potássio, maior a necessidade de controle de emissões nocivas. Os investimentos nesse controle devem ser condição sine-qua-non e a priorização de resultados econômicos sobre esse controle deve resultar em severas consequências penais e financeiras. Se os impactos ambientais são tratados com responsabilidade e com as tecnologias adequadas que já estão a nossa disposição, os desafios ambientais podem ser mitigados a curto, a médio e a longo prazo. A natureza bem respeitada também coopera, e muito.

Finalmente temos de tratar da questão indígena. Mesmo que as áreas de exploração sejam bem restritas e possam ser bem delimitadas é imprescindível tratar e priorizar este ponto de forma compatível com a sua importância: “A questão humana é sempre central. A questão indígena é fundamental. Da mesma forma que o Papa Francisco nos chama a atenção para a questão dos refugiados aqui caberia a mesma reflexão: "e se eu fosse um deles"? Tratar a questão e as decisões sobre Belo Monte apenas sob a perspectiva da teoria utilitarista do que é mais útil para a grande maioria é uma simplificação grosseira. A tirania de maiorias é um risco permanente e frequentemente / assustadoramente subestimado. É preciso se colocar na posição do outro. Mas também é preciso realmente estar disposto a ouvir o outro. A interferência em outras culturas e civilizações, e há evidências consistentes e contundentes sobre isso, têm sido causa de tragédias. Mas artificialmente impedir que culturas tenham opções e possam por livre arbítrio exercê-las, pode ser igualmente trágico. A narrativa de "tutelar" o livre arbítrio não se sustenta”. É preciso, portanto, ouvir o que realmente querem os legítimos representantes destas comunidades e evitar muitos que tentam falar por eles sem ter a legitimidade e a representatividade essencial.

Assim como no caso de Belo Monte (volto a ele porque as semelhanças são muito relevantes) é preciso reconhecer que no curto prazo haverá alguns desafios e desequilíbrios, mas isso poderá ser superado. Aqui como lá, com os devidos recursos, o conhecimento e a tecnologia que temos hoje, algumas eventuais realocações que venham a ser necessárias poderiam não somente ser feitas com a devida dignidade, mas com abertura de opções e oportunidades de melhoria para as comunidades que as desejarem. E assim como a questão indígena, a questão de segurança nacional deve ser tratada com a mesma prioridade e respeito.

* Professor da EMGE (Dom Helder Tech)

** Professor da FDC, consultor e empresário rural

*** Alysson Paolinelli:

. Promoveu a reorganização da Embrapa;

. Criação da Empresa Brasileira de Extensão Rural (Embrater) para transferência das inovações para o agricultor;

. Reconhecido como o pai da agricultura tropical;

. Em 2006 recebeu o Prêmio Mundial da Alimentação, um reconhecimento por sua contribuição no avanço do desenvolvimento humano em aprimorar a qualidade, quantidade e disponibilidade de alimentos no mundo. . Indicado ao Prêmio Nobel da Paz 2021 e novamente concorrendo ao prêmio em 2022.


Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos

Não há outras notícias com as tags relacionadas.