Cultura TV

10/05/2022 | domtotal.com

Lugar de propaganda é no intervalo

Quando o amor é interrompido por um xampu

Juma e Joviano, em 'Pantanal'
Juma e Joviano, em 'Pantanal' Foto (Divulgação/TV Globo)

Alexis Parrot*

Embalados pelo talento e carisma de Jesuíta e Alanis, Jove e Juma são o casal do ano da TV brasileira. Na semana passada, em cena delicada e de bom gosto, pudemos testemunhar o primeiro banho de chuveiro da Marruá, por incrível que pareça, cumprindo temporada civilizatória justamente em uma das cidades menos civilizadas do globo, o Rio de Janeiro.

Após se queimar com a água quente da ducha e proferir a frase que já nasceu antológica ("tá cuspino fogo nieu!") a bugra do pantanal ganhou a companhia do rebento de Zé Leôncio no box do banheiro da mansão dos Novaes. A partir daí foi só o de sempre, como acontece todas as vezes em que os dois contracenam: a ternura transborda e dá-lhe suspirar no sofá da sala de casa.

Sem seios à mostra (camuflados estrategicamente debaixo das longas madeixas), esta nova versão da pantaneira diverge substancialmente daquela imortalizada por Cristiana Oliveira há distantes 32 neste quesito. Se no Pantanal da Manchete um dos grandes apelos era a nudez do elenco em contato com a natureza, agora a história é outra. Em tempos de bolsonarismo e falsos moralismos, a Globo - que já é chamada de lixo a três por quatro - optou por bem botar as barbas do Velho do Rio de molho e, aparentemente, nem mesmo um mamilo será visto. Parece até o facebook.

O líquido idílio da bugra com o frosô ia às mil maravilhas, até o momento em que foi inapropriadamente interrompido para uma mal-vinda propaganda de xampu, quebrando todo o encanto da cena. Era um descarado merchandising - expediente comercial que parece ter voltado com força total, manchando a retomada da produção teledramatúrgica global no pós-pandemia.

Como um poltergeist indesejado, o fenômeno já se manifestava dia sim, dia não, na novela das nove anterior, Um Lugar ao Sol. Nem atrizes do calibre de Andréa Beltrão e Mariana Lima seriam capazes de dar veracidade a uma cena inteira dedicada a louvar as facilidades e prazeres de fazer um pedido de compras pelo celular - como não foram. Havia também a marca de cerveja que todo o elenco fazia questão de tomar ostensivamente, fizesse sol ou chuva; na praia ou na mesa do bar.

Em breve, dá para imaginar até Dona Mariana (Selma Egrei), que vive às voltas com o gerente do bancário ao telefone, dizendo o nome do banco e até comentando, em tom de falsa naturalidade, quanto está rendendo por mês a aplicação tal em comparação com a poupança. Tudo para não mexer naqueles terrenos na Barra, o único patrimônio que seu Antero não perdeu no jogo.

Estas inserções comerciais são no mínimo constrangedoras e, no limite, ridículas. Atrapalham o andamento da história e distraem o espectador daquilo que de fato importa (ou, pelo menos, do que deveria importar). Alguém de direito na emissora deveria tomar as rédeas da situação e colocar a propaganda de volta em seu lugar devido, o intervalo.

Virou moda de alguns anos para cá a presença obrigatória de publicidade in loco no palco dos programas de auditório (mesmo aqueles sem auditório). Funciona assim: o apresentador muda de câmera, dá dois passos para o lado e faz as vezes de garoto propaganda de algum produto que, segundo seu testemunho, é fenomenal. Se nas atrações de entretenimento o expediente já é insuportável, o que dirá nas novelas?

Em uma época que a televisão era mais honesta com o público e mais bem realizada, Fausto Silva mandava entrar "os reclames do Plim-Plim" nos breaks do Domingão; e Renato Aragão, quando anunciava o intervalo dos Trapalhões, dizia que era chegada a hora do "patrão".

Hoje em dia, o negócio é tão ostensivo que, no inicio da segunda fase de Pantanal, em todas as cenas na cozinha da fazenda, não importa qual fosse o diálogo entre Marcos Palmeira e Dira Paes, parecia sempre que estavam contracenando com a geladeira. Além de enorme e moderna demais, destoando completamente do tom rústico do cenário, sua onipresença em praticamente todos os planos escancarava o que todo mundo já sabe (menos os autoproclamados gênios do marketing): lugar de propaganda é no intervalo.


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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