Religião

13/05/2022 | domtotal.com

Progredir num modo de proceder que agrada a Deus

Se queremos de fato fazer um caminho de fé, com verdade e sinceridade de coração, precisamos nos esforçar a cada dia para "deixar de fazer o mal e aprender a fazer o bem" (cf. Is 1,16-17)

São Paulo apresenta a vida cristã vivida na caridade e no serviço fraterno como a verdadeira liturgia que agrada a Deus
São Paulo apresenta a vida cristã vivida na caridade e no serviço fraterno como a verdadeira liturgia que agrada a Deus Foto (Pixabay)

 

Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

A carta de São Paulo aos Tessalonicenses (1 Ts 4,1-12) exorta a comunidade cristã a progredir num modo de proceder que agrada a Deus. Para muitas pessoas, a santidade é algo estático, pronto e acabado. Porém, quando lemos a vida dos santos (as) e o caminho de seguimento feito pelos discípulos (as) de Jesus percebemos que a santidade é obra de cada dia. Se queremos de fato fazer um caminho de fé, com verdade e sinceridade de coração, precisamos nos esforçar a cada dia para “deixar de fazer o mal e aprender a fazer o bem” (cf. Is 1,16-17). Isto é, para progredirmos na santidade e no amor fraterno, como nos exorta São Paulo. Porque a prática do bem também se aprende e se progride. Isso porque a santidade não consiste em fazer coisas extraordinárias, mas em colocar o coração em tudo o que fizermos e, com pequenos gestos, irmos progredindo na prática da justiça, no testemunho de caridade e na busca de realizar em nós o querer de Deus.

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No tempo do profeta Miqueias, o povo queria aumentar os sacrifícios rituais como forma de agradar a Deus e se purificar dos seus pecados. O profeta, porém, indica outro caminho de santidade. Deus não está preocupado com as belas liturgias, mas com a prática do direito e da justiça, ou seja, com uma vida que lhe agrada. “Ele te deu a conhecer, ó homem, o que é bom e o que o SENHOR procura de ti: simplesmente praticar o direito, amar a bondade e caminhar humildemente com o teu Deus” (Mq 6,8).

O salmista também insiste nessa mesma perspectiva do profeta quando afirma: “Não quiseste sacrifício ritual nem oferta, mas abriste meus ouvidos. Não pedistes holocausto nem vítima pelo pecado, e então eu disse: ‘Eis que venho [...]. Fazer a tua vontade, meu Deus, eu quero; a tua lei está no fundo do meu coração” (Sl 40, 7-9). Observa-se que a oferta mais agradável a Deus não são os sacrifícios rituais, mas o testemunho de uma vida reta, de quem procura obedecê-Lo, na prática da justiça e do amor fraterno. “O que agrada ao SENHOR é afastar-se da iniquidade: propiciar pelos pecados é afastar-se da injustiça” (Eclo 35, 5).

No evangelho, Jesus também reafirma a necessidade de uma vida pautada no amor fraterno como condição para o verdadeiro culto espiritual. “Se, portanto, ao levares a tua oferenda ao altar, te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda lá diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com seu irmão e, então, volta para apresentar a tua oferenda” (Mt 5, 23-24). Na verdade, Deus não aceita uma liturgia desligada da vida. Um discurso de fé que não se traduz em obras de misericórdia e compaixão para com o próximo. A oração é preciosa, se alimenta uma doação diária de amor. O nosso culto agrada a Deus, quando levamos lá os propósitos de viver com generosidade e quando deixamos que o dom lá recebido se manifeste na dedicação aos irmãos.

Um dos grandes desafios para a vivência da fé é não dissociar o culto a Deus da prática da justiça e do amor fraterno. Pois quando a nossa oração e a nossa liturgia não se traduzem em compromisso ético com o outro, em amor pela evangelização, acabam se tornando um ídolo vazio, não chegam a Deus. Neste sentido, São Paulo apresenta a vida cristã vivida na caridade e no serviço fraterno como a verdadeira liturgia que agrada a Deus. “Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto” (Rm 12, 1).

A exortação de São Paulo faz referência direta ao sacrifício ritual de animais que era oferecido pela expiação dos pecados. Por isso, Paulo fala de oferenda e de sacrifício vivo. Porém, o sacrifício mais perfeito que agrada a Deus não é mais o de cordeiros e touros, mais de uma vida doada a serviço de outrem. Neste sentido, podemos olhar o próprio sacrifício eucarístico. Nele Jesus se oferece a si mesmo, seu Corpo e seu Sangue, sua vida, sua existência, todo o seu ser como uma oferenda agradável ao Pai em favor de muitos. Nós, também, ao celebrarmos a Santa Eucaristia somos transformados misticamente num só corpo, para vivermos a comunhão e a unidade no amor. 

Se antes era pelo sacrifício ritual que se dava a expiação dos pecados, se era pelo culto que o crente se religava a Deus, temos agora um “novo culto”, um novo modo de nos aproximarmos de Deus. Por isso, a carta de São Pedro chama os cristãos de um povo sacerdotal. “Aproximai-vos do Senhor, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e valiosa aos olhos de Deus. Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual, um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo” (1 Pd 2, 5).

Se, pois, somente os sacerdotes podiam oferecer o sacrifício ritual a Deus, em nome do povo, o novo sacrifício está à altura de todos nós. Todos os batizados (as) podemos e devemos nos apresentar a nós mesmos ao Senhor no testemunho de uma vida consagrada a Deus a serviço dos outros. Pois “a todos que procedem retamente, eu mostrarei a salvação que vem de Deus” (Sl 50, 23).

Que Deus nos dê a graça de progredirmos sempre na santidade e no amor fraterno, fazendo da nossa vida a cada instante, um santo e verdadeiro sacrifício de louvor. Pois somente uma vida pautada na justiça e no amor pode agradar a Deus.


Dom Total

*Pe. Rodrigo, SDN, Missionário Sacramentino de Nossa Senhora, licenciado em Filosofia (ISTA), bacharel em Teologia (FAJE), com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação (Faculdade Dehoniana) e pároco da Paróquia de Santa Luzia – Arquidiocese de Teresina-Piauí.



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