Religião

13/05/2022 | domtotal.com

Amor, o 'dinamismo divino' que nos 'des-centra'

'Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros' (Jo 13,35)

O amor é expansivo, inclusivo, universal
O amor é expansivo, inclusivo, universal Foto (Pixabay)

Adroaldo Palaoro*

No evangelho deste domingo Jesus nos coloca diante da realidade mais profunda de sua mensagem e, ao mesmo tempo, a realidade que nos faz mais humanos: a vivência do amor. A forma como Ele se expressa é clara e simples: frente aos inumeráveis mandamentos rabínicos, frente ao Decálogo de Moisés, suas palavras soam taxativas: “Eu vos dou um novo mandamento”.

Confira também: O novo mandamento para um mundo novo

Só há um mandamento, não há outro: amar os outros, não de qualquer maneira, mas como Jesus nos amou. Ou seja, manifestar esse amor que é Deus, em nossas relações com os outros.

Jesus nos deixa a marca de identidade que nos distingue como cristãos. É o mandamento novo, em oposição ao mandamento antigo, a Lei. Jesus não manda amar a Deus nem amar a Ele, mas amar como Deus e como Ele ama.

O amor é expansivo, inclusivo, universal. Ao conectar com ele, graças à compreensão do que somos, tocamos aquele Centro que nos descentra ou, talvez melhor, nos des-egocentra. Porque a compreensão de quem somos não nos fecha nem nos faz girar em torno a nós mesmos em um narcisismo infantil e asfixiante, mas nos abre, como um abraço sem limites, a toda a realidade.

O amor é o “dinamismo divino”, poderosa força centrípeta e centrífuga ao mesmo tempo. No mesmo movimento, unifica nossa pessoa para “dentro” (integra e harmoniza todas as dimensões de nosso ser) e nos abre para “fora”, ao encontro inspirador com todos.

Jesus não propõe como primeiro mandamento o amar a Deus, nem o amor a ele mesmo. Não diz: “amai-me como eu vos amei”. Deus é dom total e não pede nada em troca. Não precisa de nós, nem nós podemos dar nada a Ele. Deus é puro dom, amor total. É preciso descobrir em nós e reativar esse dom incondicional de Deus que, através de nós deve chegar a todos.

O texto fala de “novo mandamento”, como querendo destacar a importância daquilo que aí se anuncia. Não se trata de um “conselho” nem de uma “recomendação”, mas de um "modo divino de proceder".

Ao dizer que é “mandamento novo”, provavelmente é um eco daquilo que os próprios discípulos perce-biam como “novidade” no modo de viver do Mestre, na gratuidade e na incondicionalidade de seu amor.

“Que vos ameis uns aos outros” foi, muitas vezes, entendido como um amor aos “nossos”. A partir de cada comunidade cristã, o amor deve chegar a todos. Não se trata de amor aos que são amáveis (dignos de serem amados), mas de estar a serviço de todos como se fossem nós mesmos. Se deixamos de amar uma só pessoa, nosso amor evangélico se esvazia. Não se trata de um amor humano a mais, senão do “ágape” divino (amor gratuito).

Sem essa experiência de que Deus é Amor em nós, a mensagem evangélica não terá acesso ao nosso próprio ser. O amor que Jesus nos pede, não é algo que possa ter sua origem em nós. Só podemos ser espelho que reflete a essência de Deus, que é puro Amor.

Naturalmente não se pode impor o amor por decreto. O principal erro que continuamos cometendo é apresentar o amor como um preceito que vem de fora. Todos os esforços que façamos por cumprir um “mandamento” de amor estão fadados ao fracasso. O empenho está em descobrir que Deus é amor dentro de nós. Na realidade não se trata de uma lei, mas de uma resposta ao que Deus é em cada um de nós, e que em Jesus se manifestou de maneira contundente. Nosso amor será “um amor que responde a seu amor”.

O amor que Jesus nos pede deve surgir a partir de dentro, não se impor a partir de fora como uma obri-gação. Trata-se de manifestar o que é Deus no fundo de nosso ser, através do nosso modo de ser e viver.

Por isso, não é um mandato dado por outro, vindo de fora, como uma imposição arbitrária. Pelo contrário, ressoa em nós como um convite a viver o que somos, ou seja, conectados com o Mistério amoroso “d’Aquele que é”. Isso será possível, não tanto através de um voluntarismo moral, mas graças à compreensão daquilo que somos. Na medida em que vamos conhecendo e vivendo o que somos, o amor brota espontâneo e vai abrindo caminho de vida, despertando o amor latente nos outros.

O mandamento de Jesus não diz respeito à relação com Deus, mas à relação com todo ser humano. O que Jesus pede aos seus é um amor incondicional e a todos sem exceção. Todas as normas, todas as leis devem orientar-se a esse fim.

Não se trata de um amor humano, mais ou menos perfeito. É preciso entrar na dinâmica do Amor do mesmo Deus. Isto é impossível sem primeiro experimentar esse amor. Tudo parte do amor do Pai, que se manifesta em Jesus e que agora circula através dos seus(suas) seguidores(as).

Falamos do mesmo e único Amor, que constitui o segredo último do Criador. O que se pede aos discípu-los é que permitam que esse Amor, primeiro e originante, se expresse e seja vivido através deles.

Antes de dizer, antes de pedir, Jesus viveu até o limite a capacidade de amar, até amar como Deus ama: “como eu vos amei”. Mas essa expressão não é comparativa, mas originante e “causal”: porque eu vos amei”. Em outras palavras: “vocês devem se amar porque eu vos amei, e tanto quanto eu vos amei”. A tradução mais justa do texto joanino poderia ser esta: “Com o mesmo amor com que eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Leon-Dufour).

Esta é a marca da identidade dos(as) seguidores(as) de Jesus, a característica mais importante da vida cristã.

João emprega no seu evangelho a palavra ágape, que expressa o amor sem mistura de interesse pessoal; seria o puro dom de si mesmo, só possível em Deus. A expressão “agapate” (“que vos ameis”) faz referência ao amor que é Deus, ou seja, ao grau mais elevado do dom de si mesmo. Não está falando de amor de amizade ou amor entre familiares. O amor de Deus é a realidade primeira e fundante.

Ágape é o amor divino. Esse amor é o mais raro, o mais precioso, o mais milagroso.

Seria como que uma renúncia à centralidade do ego, ao poder, à força...

Assim como Jesus, que se “esvaziou de sua divindade”, o ágape se esvazia de si mesmo para dar mais lugar, para não invadir, para deixar ao outro um pouco mais de espaço, de liberdade...

É a doçura, a delicadeza de se afirmar menos, a autolimitação de seu poder, o esquecimento de si, o sacri-fício de seu prazer, de seu bem-estar ou de seus interesses...

Estas são algumas características do ágape cristão: é um amor espontâneo e gratuito, sem motivo, sem interesse, até mesmo sem justificação... o puro amor.

“O ágape é um amor criador. O amor divino não se dirige ao que já é em si digno de amor; ao contrário, ele toma como objeto o que não tem nenhum valor em si e lhe dá um valor. O ágape não constata valores, cria-os. Ele ama e, com isso, confere valor. O homem amado por Deus não tem nenhum valor em si; o que lhe dá valor é o fato de Deus amá-lo. O ágape é um princípio criador de valor” (Nygren).

Descobrir essa realidade e vivê-la é o distintivo do(a) seguidor(a) de Jesus. E é essa qualidade do amor o sinal decisivo pelo qual os discípulos de Jesus deverão ser reconhecidos. Os seguidores dos fariseus eram reconhecidos pelas “filaterias” que usavam; os de João Batista, por batizar, os de Jesus, unicamente pelo amor.

O amor ágape é expansivo: nos alarga através dos nossos membros, mãos e pés.

Podemos dizer que o amor tem coração, mãos e pés: coração cheio de compaixão e ternura, mãos que cuidam, curam, abençoam... e pés que nos arrancam de nossos lugares estreitos e nos deslocam para as mar-gens, os pobres... Desse modo, o mandato do amor remete à Fonte que o possibilita, ao Amor originante que tece a unidade de tudo que É e somos.

Texto bíblico: Jo 13,31-35

Na oração: - deixe que aflore (recorde) os dons e benefícios recebidos,

manifestação do carinho e da ternura amorosa de Deus.

- Faça “memória agradecida” de sua presença amorosa na realidade cotidiana.

- Viva em clima de ação de graças como atitude permanente; isso reforça os laços, faz a vida mais leve, desperta o sentido do humor e anima a assumir os novos desafios, próprios deste tempo.


Dom Total

*Adroaldo Palaoro é padre jesuíta e atua no ministério dos Exercícios Espirituais.



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