Cultura

18/05/2022 | domtotal.com

Masterchef 2022: primeiras impressões

Entre erros e acertos, nada de novo no ar

Cartaz de divulgação do Masterchef Brasil
Cartaz de divulgação do Masterchef Brasil Foto (Divulgação)

Alexis Parrot*

Retorna à tela da Band um dos favoritos da programação nacional, o Masterchef Brasil. Em sua nona edição, segue se equivocando em detalhes que já deveriam ter sido superados, após tantos anos no ar.

Novamente não exibiram os testes de seleção e tudo se iniciou como um grande susto. Assistir ao primeiro episódio foi o mesmo que ler um livro sem prefácio, ou começar a acompanhar Pantanal sem ter visto a primeira fase da novela: ficou um buraco.

Ao nos jogar assim no colo os novos competidores, julgaram-se suficientes apenas aqueles elementos já conhecidos do programa para segurar o interesse da audiência - cenário, dinâmicas, jurados e apresentadora. Este excesso de segurança é típico de quem entra em campo de salto alto, uma atitude nada recomendável - mesmo para aqueles times nas cabeças do campeonato.

Sem a transparência da seleção, o Masterchef se iguala ao BBB, cuja escolha de brothers e sisters recai sobre uma decisão pessoal do diretor, sem critérios declarados ou justificativas. Ainda que não haja um Boninho na Band, seu espírito ronda a atração neste aspecto. A prática fere no coração a ideia principal do programa que se arvora de um sentido de justiça para declarar seu valor. O mantra "ganha quem cozinha melhor", repetido à exaustão ano após ano, perde todo o peso: não se sabe mais se é mesmo preciso cozinhar bem para entrar naquela cozinha.

Além disso, desrespeitar o formato significa correr riscos geralmente desnecessários. Se todos os participantes são desconhecidos aos olhos do público, a torcida por eles irá demorar a se estabelecer, fazendo com que o programa custe a engrenar, a exemplo da temporada passada. Lá, acabou dando tudo certo, porque o elenco realmente nos conquistou à medida que os episódios avançavam. A mágica se repetirá desta vez?

Não há muito ainda a dizer deste novo elenco, a não ser daquilo que dizem profissionalmente de si mesmos. O paraense que ganhou a primeira prova é agente de saneamento básico; o carioca organizado é gamer; o estiloso de Paulínia é missionário (de qual mensagem, parece ser apenas um detalhe); a gaúcha de São Borja é dermopigmentadora e arrogante. Esta, pagou preço alto pelo excesso de autoestima e chorou a cântaros durante toda a noite. No final, salvou-se não por uma cabeça (como se diz no turfe), mas apenas por uma batata.

No cenário profissional, destacou-se o rapaz de cabelos coloridos, artesão de acessórios de couro, pelo inusitado desdobramento que seu ofício oferta. Produz chicotes e máscaras para fetichistas e praticantes do BDSM. Se souberem fazer direito (direção e participante), já dá para sentir um cheiro de bordão no ar, com direito a efeito sonoro de chicote a cada vez que ele diga algo ferino - como faziam com Sinhozinho Malta e o som de chocalho de cascavel em Roque Santeiro.

Porque o reality, como gênero televisivo, está muito mais próximo da novela do que do documentário. Drama, comédia e melodrama são a matéria-prima do formato, tão roteirizável quanto os melhores (ou piores) folhetins da nossa telinha. O assunto é culinária e a competição é a guia mestra da narrativa, mas ambos são elementos estritamente funcionais. O colorido da coisa, o que nos engaja e fideliza (o "tampêrro", como diria Jacquin) é a maneira como cada um dos personagens é trabalhado dramaturgicamente ao longo da temporada. Mas, como em qualquer cozinha, tudo pode estar por um fio, se a receita não for respeitada.

A exemplo do sucesso global (referendado pela audiência em quase 50 países), o programa já é um dos clássicos também da TV brasileira. Para se manter arejado ou interessante, o apoio ou "inspiração" de outras atrações é totalmente dispensável. A prova intermediária, de degustação às cegas, foi novamente uma cópia de tradicional desafio do Hell's Kitchen de Gordon Ramsey, estrelado por sorvetes de sabores exóticos. Na temporada passada foi a mesmíssima coisa - trocando apenas de sentido, o paladar pelo olfato, porém, sem mudar a matriz de onde plagiaram a ideia.

Aí está a grande questão desta nova edição do Masterchef: com uma trajetória já consolidada de muitos anos de estrada, repetir os acertos é o óbvio. Mas repetir os erros já conhecidos é indefensável.


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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