Religião

20/05/2022 | domtotal.com

A potência da experiência religiosa na construção de uma cultura de paz

Ao difundir os valores da não violência, a religião encoraja o debate e promove a cultura do encontro

A religião como cultura da paz
A religião como cultura da paz Foto (Pixabay)

Danielle Barbosa Negromonte*

"Dá-nos a PAZ que luta pela PAZ!

Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta,
Que não nos deixa em PAZ!"

(Pedro Casaldáliga)

A história da humanidade é marcada por inúmeros conflitos. Muitos são os registros datados em diferentes épocas, em que a guerra aparece como expressão-limite das divergências humanas.

O tema da violência já faz parte do cotidiano e parece não mais causar indignação. Tal condição acaba por gerar a indigesta sensação paradoxal de ?mal-estar? e nos convida a (re)visitar a crônica escrita em 1937, por Marina Colasanti, ao afirmar: ?eu sei que a gente se acostuma, mas não devia?. 

Um estudo realizado pelo Global Burden of Disease, em 2016 (GBD 2016), disponível no site da Secretaria de Vigilância em Saúde, apresenta as violências interpessoais como a 6ª causa de morte na população brasileira geral.

O caráter multidimensional dos conflitos faz com que a violência seja um fenômeno discutido e estudado por diferentes campos das ciências humanas. A religião, muitas vezes, aparece no centro destas grandes batalhas. Se por um lado ela é mediadora de conflitos, é bem verdade que ela também pode ser potencialmente a raiz dos mesmos.

Desde as guerras ditas ?santas? à ?devoção militante? do conservadorismo religioso dos dias atuais, a religião pode ser utilizada como ferramenta de controle e manipulação social. A tentativa de massificação resulta no sequestro da subjetividade, e, consequentemente, no aniquilamento do ?EU?.

A alienação e violência presentes em algumas religiões revela-se através do abuso de poder, de consciência ou espiritual. A manipulação da consciência acontece sempre ?em nome da divindade? e é legitimada por meio da autoridade conferida às lideranças. Todo abuso espiritual é considerado abuso de poder.

Diante do contexto atual e dos diversos cenários que nos atravessam, é imperativo transpor o campo da racionalidade e quebrar o paradigma da normatização da violência. Pleitear ações, gestos e atitudes, que possibilitem espaços de reflexão e partilha acerca do tema e compreender a Religião como ferramenta potencial, na construção de uma cultura da paz.

A palavra paz vem do latim pax e significa ausência de guerra. No entanto, seria puro reducionismo atermo-nos a esta definição e desconsiderarmos as diversas batalhas e guerras diárias que travamos interiormente. No coração da humanidade existe um anseio profundo por justiça e paz. O desejo de conectar-se com algo para além de si mesmo, move homens e mulheres nesta empreitada.

Ante este cenário tão conturbado, onde tudo parece perder o sentido, a humanidade tem buscado desenvolver estratégias que apaziguem o sofrimento e apontar sinais de luz. Nesse percurso, encontramos o psiquiatra Viktor Frankl, criador da Logoterapia. Frankl desenvolveu uma teoria psicológica que dialoga com a religião e é aberta à espiritualidade.

A chamada Terapia do Sentido apresenta pistas que se revelam em valores criativos, vivenciais e de atitude. Tais valores oportunizam a partilha generosa de si, auxiliam no resgate da cultura do encontro e desenvolvem recursos internos, importantes para o enfrentamento de situações-limite que a vida impõe. Estes valores, ou recursos internos, podem encontrar na experiência religiosa um terreno fértil para o seu cultivo e desenvolvimento, tornando-se um caminho laboral de potencial para paz.

Na filosofia, a palavra potência é definida como a capacidade de efetivar uma mudança. Aristóteles a traduz como ?aquilo que no momento ainda não é, mas que pode vir a ser?. Ela se revela na força gestacional contida no ?entre?, que se traduz entre o ?já e ainda não?. Ao afirmar a experiência religiosa como potência na construção de uma cultura de paz, reconhecemos sua importância enquanto agente social, que se revela, etimologicamente, em seu propósito, de re-ligar.

Em 1999, a Organização Nacional das Nações Unidas (ONU), define Cultura de paz, como um estilo de vida. Ela se expressa num conjunto de comportamentos revelados por meio de atitudes de não-violência. Este conceito tem por base a legitimação dos direitos humanos, a garantia de liberdades fundamentais inalienáveis e o respeito à vida.

O caminho para a paz passa pela inquietude diante das injustiças. As religiões têm um papel fundamental dentro deste processo. Quando implicadas eticamente na defesa da vida, fazem de seu poder-serviço, uma ferramenta de intervenção no mundo. Ao denunciar as injustiças sociais, mostram que sem justiça não é possível haver paz. Um coração que se deixa alcançar pela sacralidade da vida carrega essa paz inquieta.

Ao ?retirar as sandálias?, com respeito e reverência frente o solo sagrado do coração da humanidade, as religiões se fazem potência. Estimulam atitudes e gestos concretos na construção da fraternidade. Propagam valores imprescindíveis como solidariedade, respeito às diferenças, corresponsabilidade e laços de convivência social.

Perscrutar os sinais dos tempos e apontar os sinais de luz. É possível constatar esta realidade concretamente no exemplo e testemunho do potencial pacificador de grandes líderes religiosos: Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Dalai Lama, e, atualmente, o líder da Igreja Católica, Papa Francisco. Quando reconhecemos a singularidade da pluralidade, valorizamos o diverso como dom.

Ao difundir os valores da não violência, a religião encoraja o debate e promove a cultura do encontro. E só é de fato instrumento de paz, quando, na luta por justiça, forma para a alteridade e afirma a individualidade. A forma mais salutar de manter viva a chama da esperança é lutar. Mas lutar com palavras e atitudes, e não com armas. O resgate da chamada cultura do encontro possibilita re-encontros e sensibiliza para responsabilidade social e consciência coletiva.

O poder religioso mobiliza as pessoas. Pode reconectar o ser humano consigo mesmo, com seus iguais e com o transcendente. Logo, a dimensão ética de sua prática perpassa, potencialmente, pela construção de uma cultura da paz. Re-conhecer o diálogo e a amizade social como compromisso com o bem-estar comum é transformar a paz-inquieta que transpassa o coração, em esperança.


Dom Total

*Danielle Barbosa Negromonte é graduada em Psicologia pela Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE). Religiosa da Congregação das Irmãs Franciscanas de Maristella. Secretária da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB- Recife). Secretária do Pensionato Maristella.



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