Brasil

20/06/2022 | domtotal.com

A beleza de uma morte

Os olhinhos dela, a nossa mãe, brilhavam. Aqueles olhinhos nunca foram tão azuis como naquele dia

Olhos azuis
Olhos azuis Foto (Pixabay)

Afonso Barroso*

Faz 31 anos que morreu dona Maria Barroso, minha mãe. Mas, espera: ela não morreu. O que ela fez foi uma transição bonita e emocionante desta para a outra vida. Tão bonita que é preciso contar como foi.

Lembro-me como se fosse ontem aquele 10 de junho de 1991. Estávamos todos os filhos em volta da cama onde ela agonizava. Padre Luiz, um dos irmãos, rezava em silêncio. E nós outros ouvíamos em silêncio o que nossa mãe dizia naqueles momentos de agonia. Ouçam-na vocês também:

-Meus filhos, eu vi Jesus. Vi Maria e José. Eu os estou vendo agora.

Os olhinhos dela, a nossa mãe, brilhavam. Aqueles olhinhos nunca foram tão azuis como naquele dia. Neles parece que se concentrava todo o azul do céu. De vez em quando ela os fechava e rezava com sua voz já bem fraquinha:

- Jesus, Maria, José, minha alma vossa é.

Abria de novo os olhos e informava com o sorriso mais sincero e puro do mundo:

-Eu vejo o Céu, meus filhos, eu estou vendo o Céu. Que amplidão, que beleza, que beleza.

Éramos todos os oito filhos reunidos diante do leito de morte da mãe Maria. Uma mãe terrena com o nome da mãe de Deus. Lá estávamos nós: duas professoras (Maria Barrosinho e Ambrosina), um homem do campo (Antônio), um pequeno empresário (Jair), um coletor estadual (José Barrosinho), dois jornalistas (Jadir e Afonso) e um sacerdote, o Padre Luiz Barroso, ordenado no seminário de Diamantina. Nenhum de nós jamais tinha presenciado morte tão bonita. Nem mesmo o padre que em muitos anos de sacerdócio ministrara extrema unção em um sem número de fiéis.

Jadir, como repórter que sempre foi, anotava nos seus papéis tudo que nossa mãe dizia naquela hora. Ele certamente pensava em imprimir aquelas palavras no santinho do convite para a missa de sétimo dia, como realmente fez.

Até que, em determinado momento, nossa mãe respirou fundo três vezes, compassadamente, e em seguida deu o suspiro final. Profundo e sem dor. Havia um sorriso nos seus lábios quando os olhos se fecharam para sempre. Choramos todos, com lágrimas mudas.

Nossa mãe, nascida no século 19, em 17 de setembro de 1899, morreu aos 91 anos depois de uma vida consagrada a Deus, aos filhos e ao próximo.

No dia seguinte, 11 de junho, em seu sermão durante a missa de corpo presente, Dom Antônio Felipe da Cunha, bispo de Guanhães, disse:

-Digo a vocês, meus irmãos, que quando dona Maria disse, ao agonizar, que viu Jesus, Maria e José, é porque ela viu mesmo. Este é um privilégio dos santos, e dona Maria era uma santa.

Nunca houve na história de São José do Jacuri sepultamento mais concorrido do que o de dona Maria Nogueira, a Sá Maria Barroso. Parecia que toda a população do município se juntara em procissão para dar adeus àquela mulher insuperável em amor, devoção, caridade e fé.

Assim era a minha mãe. Maria, esposa de José. Do Jacuri.


Dom Total

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos

Não há outras notícias com as tags relacionadas.