Religião

21/06/2022 | domtotal.com

Bispo de Kyiv adverte contra visita papal: Francisco não é mais visto como 'imparcial'

"Seria uma alegria extraordinária receber o Papa Francisco em Kyiv, mas no momento afirmo que não há condições para a visita"

O Papa Francisco ouve as perguntas das crianças durante uma audiência no pátio de San Damaso, no Vaticano, sábado, 4 de junho de 2022
O Papa Francisco ouve as perguntas das crianças durante uma audiência no pátio de San Damaso, no Vaticano, sábado, 4 de junho de 2022 Foto (AP Photo/Alessandra Tarantino)

Crux

ROMA – O bispo de rito latino de Kyiv disse em uma nova entrevista que, embora uma visita papal à Ucrânia seja uma fonte de esperança, atualmente não é possível devido a preocupações de segurança e uma crescente desconfiança do pontífice, devido a alguns de seus recentes comentários públicos sobre a guerra.

Falando ao Avvenire, o jornal oficial dos bispos italianos, Dom Vitaliy Krivitskiy disse: "A intenção do papa de estar no meio de um povo que sofre é para nós católicos, começando comigo como bispo, um motivo de grande esperança".

"Sentimos sua proximidade que se manifesta através de seus repetidos pedidos de cessar-fogo e com gestos concretos que também resultaram em múltiplos envios de ajuda humanitária. E depois há sua oração constante que envolve toda a Igreja. Sua visita nos daria mais coragem", disse Avvenire.

No entanto, perguntado se era possível estimar um cronograma para quando uma possível visita papal à Ucrânia poderia ocorrer, Krivitskiy disse que não.

O Papa não apenas precisa de um alto nível de segurança que seria difícil de fornecer, já que a maioria dos soldados ucranianos está na linha de frente da luta contra a Rússia, mas "deve-se acrescentar que, em comparação com o início do conflito, um parte da população não gostou das palavras do Papa, que foram consideradas incorretas", disse Krivitskiy.

Embora ele não tenha se referido a quais declarações o Papa fez, é sabido que a hesitação do Papa Francisco em apoiar o armamento da Ucrânia em sua luta contra a Rússia e sua sugestão de que a Otan poderia ter provocado a guerra causaram ampla controvérsia.

Em uma conversa recente com editores do jornal jesuíta La Civiltà Cattolica, publicado na terça-feira, Francisco, referindo-se à guerra na Ucrânia, disse: "Não há mocinhos e bandidos transcendentais aqui, de maneira abstrata. Algo global está surgindo, com elementos que estão muito entrelaçados entre si".

Francisco condenou "a ferocidade e a crueldade das tropas russas", mas criticou também o comércio de armas por incentivar a guerra, que alguns observadores consideraram como oposição ao armamento da Ucrânia.

Francisco também se referiu a uma conversa que teve com um chefe de Estado não identificado antes da invasão da Ucrânia pela Rússia em 24 de fevereiro, na qual o político supostamente disse que a Otan estava "latindo à porta da Rússia" e que as atividades da OTAN "poderiam levar à guerra" indicando que a OTAN poderia, em parte, ser responsável pelo conflito.

O Papa foi pressionado por outros comentários e decisões que tomou desde o início da guerra, como pedir a uma russa e uma ucraniana que carregassem a cruz juntas durante a Via Crucis da Sexta-feira Santa em Roma.

Francisco foi fotografado beijando uma bandeira ucraniana de Bucha, onde os supostos crimes de guerra ocorreram, e pediu continuamente um cessar-fogo e se ofereceu para ajudar nas negociações, mas ainda não nomeou "Rússia" ou "Putin" como os agressores no conflito.

Em uma entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera em maio, o Papa não chegou a opinar sobre se era apropriado que outras nações armassem a Ucrânia, dizendo: "Não posso responder; estou muito longe".

"O claro é que as armas estão sendo testadas naquela terra. Os russos agora sabem que os tanques são de pouca utilidade e estão pensando em outras coisas. As guerras são feitas para isso: testar as armas que produzimos", disse na entrevista. "O comércio de armas é um escândalo; poucos lutam contra isso."

Essas observações atraíram críticas de amigos e inimigos, incluindo o amigo de longa data do papa de Buenos Aires, o arcebispo major Sviatoslav Shevchuk, que supervisiona a Igreja Greco-Católica na Ucrânia.

Em uma aparente resposta às observações do papa em La Civiltà Cattolica, Shevchuk em uma mensagem de vídeo recente disse: "as causas desta guerra estão dentro da própria Rússia. E o agressor russo está tentando resolver seus problemas internos com a ajuda da agressão externa".

"A agressão da Rússia contra a Ucrânia é completamente espontânea", apontou. "Qualquer um que pense que alguma causa externa provocou a agressão militar da Rússia ou está nas garras da propaganda russa ou está simplesmente e deliberadamente enganando o mundo."

O Papa Francisco também concedeu recentemente uma audiência de quase duas horas com um pequeno grupo de ucranianos que estavam preocupados com sua retórica "ambígua" sobre a guerra.

Em sua entrevista ao Avvenire, Krivitskiy disse que, para que o papa visite a Ucrânia, é necessário "reconstruir um ‘consenso’ em torno de sua jornada".

Isso leva tempo, disse. "Seria uma alegria extraordinária receber o Papa Francisco em Kyiv, mas no momento afirmo que não há condições para a visita".

Krivitskiy, que foi nomeado para Kyiv pelo Papa Francisco em 2017, lidera cerca de 200.000 católicos de rito latino em uma cidade de cerca de oito milhões.

Questionado se acredita que o papa ainda pode contribuir para parar a guerra, Krivitskiy disse "certamente" e que a Santa Sé "pode desempenhar um papel fundamental como mediador entre nós e a Rússia".

"As negociações precisam de ‘conciliadores’ e o papa é um, embora alguns aqui não o considerem mais imparcial (não partidário)", disse.

Apesar da controvérsia sobre as declarações do papa, Krivitskiy expressou confiança de que Francisco e todos os envolvidos na diplomacia do Vaticano "estão plantando sementes para criar um ambiente de diálogo que é o pré-requisito para a abertura de negociações".

Traduzido por Ramón Lara.


Dom Total

Escrito por Elise Ann Allen @eliseannallen



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