Brasil

23/06/2022 | domtotal.com

São Paulo, cidade sitiada

"A vida é muito curta pra viver em São Paulo"

Lapa, São Paulo /
Lapa, São Paulo / Foto (Pixabay)

Ricardo Soares*

Houve um tempo, madrugadas quase antigas, que quando insônia ou aflições d’alma me acometiam eu saia por longas peregrinações noturnas por São Paulo dirigindo fusquinha a partir da avenida 23 de maio até atingir limites extremos da zona norte, sul, leste ou oeste da metrópole. Das cercanias de Interlagos às proximidades do bico do Jaraguá ou aos limites da serra da Mantiqueira. Isso hoje se tornou inviável não só pelo preço assustador dos combustíveis ( pior ainda que tenho carro a diesel, mais caro que a gasolina) como pelo risco a segurança de qualquer carro e qualquer condutor. São Paulo transformou-se, mais ainda à noite, numa cidade violenta, inóspita, uma cidade morta, prisão domiciliar como escreveu recentemente no site “Construir Resistência” o jornalista Walter Falceta.

O referido colega lembrou que pela natureza do seu trabalho jornalístico muitas vezes teve que realizar suas compras de madrugada e que hoje o processo de destruição da economia brasileira, a partir da conspiração contra Dilma Rousseff, começou a desarticular amplos setores , especialmente o chamado varejo de conveniência. O Brasil andou para trás. E lembra : “hoje, as noites, em São Paulo, por exemplo, são um completo deserto. Há quem diga que é culpa da pandemia. Óbvio que a Covid contribuiu para o processo. Mas o esvaziamento da noite é fenômeno muito mais antigo, resultado do desligamento de engenhos relevantes da máquina do comércio”.

Não bastasse a feiura de São Paulo e a crença de que felicidade é passear nos shoppings e comer comida rançosa em fedidas praças de alimentação - são templos de comida requentada – a capital dos paulistas vem perdendo seu status de metrópole onde os serviços funcionam 24 hs. Não é verdade. Cada vez mais há menos postos , lojas e padarias abertas 24 hs e isso tudo , óbvio , é sinal da absoluta falta de segurança em ficar zanzando de madrugada por uma cidade sitiada pelo medo.

Falceta lembrou em seu texto do livro de Roberto Pompeu de Toledo (“ São Paulo, capital da solidão”) cujo título torna-se cada vez mais ajustado aos nossos tristes dias. Somos a capital da solidão, da desigualdade, das avenidas áridas, feias, vazias, perigosas, de um centro velho que poderia ser lindo mas é aterrador pois povoado de zumbis do crack que recebem apenas repressão e não amparo do Estado.

Há colegas que afirmam que São Paulo sempre foi careta, medrosa, reacionária. Há controvérsias. Mas, por exemplo, o fechamento da histórica boate Love Story, também mencionada por Falceta, dá bem a medida de onde estamos na medida em que apenas se junta a uma lista de inúmeras atrações paulistas que morreram a mingua transformando a cidade num grande cemitério de memórias. É uma cidade da desmemoria cada vez mais soterrada por torres imensas onde estão sitiados habitantes temerosos de levar seus cãezinhos até as calçadas para o xixi noturno. Não há renascimento . Há sepultamento das utopias sob aquele hediondo mote sempre veiculado à exaustão por rádios estupidas como a “Jovem Klan” que apregoam “vamo embora,vamo embora,tá na hora!! Vamo embora!” . Tá na hora do que minha gente? De se converter definitivamente numa masmorra sitiada , “vigiada” por uma polícia violenta, assassina e racista? Essa pseudo – estética de que São Paulo é a locomotiva da nação mais do que nunca soa completamente inadequada. Viramos, isso sim, uma sucata civilizatória, superpovoada e desumana. Antes que meus dias terminem preciso por em prática o triste grafite que se espalha pelos muros da capital paulista: “a vida é muito curta pra viver em São Paulo”. Que pena.


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Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários. No Instagram fala de livros em 1 minuto em @naredecomsede.



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