Religião

05/08/2016 | domtotal.com

Deus em tempos de crises: uma narrativa

Fontes bíblicas mostram Deus apaixonado que não encontra limites para guiar seu povo.

Deus, antes mesmo de nós, tornou-se, Narrativa da Vida, que dá a vida e a promove como boa e feliz.
Deus, antes mesmo de nós, tornou-se, Narrativa da Vida, que dá a vida e a promove como boa e feliz.

Por Tânia da Silva Mayer*

A triste constatação de que vivemos em tempos de crises é que nos impele a procurar razões que justifiquem nosso empenho de fazer do nosso tempo um tempo melhor para se viver. Como vimos em nosso artigo anterior, é crescente a síndrome da desesperança que furta o sonho e a utopia de mulheres e homens que creram na possibilidade de um mundo novo. No entanto, mesmo que estejamos mergulhados nas profundezas das crises da nossa época, esse é o momento que temos para, a partir da fé no Deus que liberta, transpor as barreiras que nos impedem de vislumbrar o equilíbrio do mundo e das relações humanas, equilíbrio que é fruto da justiça e da paz.

A humanidade tem sobrevivido a muitos momentos difíceis, talvez até mais medonhos que o nosso. À duras penas, o mundo e as relações têm sido reconstruídos após grandes catástrofes, sejam elas naturais ou promovidas pela violência e o ódio que dispõem semelhantes à aniquilação mútua, como é o caso das guerras entre pessoas e povos. Uma das maneiras de se sobreviver às catastróficas crises da humanidade reside num hábito primitivo, bastante presente em populações e grupos originários: o hábito de narrar. A narrativa é um importante instrumento para superar os tempos de crises.

Isso se dá graças ao fato de que narrar é próprio do ser humano. Como um éthos humano, narrar os acontecimentos que nos circundam e que fundamentam a nossa história, seja num movimento pessoal ou como comunidade humana, é prática a que se recorre em momentos sombrios da humanidade. Diante do caos inominável que nos subtrai da superfície e nos lança à depressão das crises, a narrativa da vida tem seu lugar como memória dos tempos bons em vistas de um futuro melhor para se viver. Precisamente, é desse lugar de mudez que a crise promove que uma palavra é pronunciada trazendo à linguagem a vida daqueles que agora sofrem. Nesse sentido, a narrativa da vida, construída nesses contextos de desmantelamento humano, é um poderoso instrumento lógico-experiencial capaz de nos arrancar do presente sombrio ao evocar o passado, com a finalidade de que um novo tempo se torne realidade no agora de nossas existências.

Porém, devemos nos atentar a um detalhe que não pode passar sem que o discriminemos. Ao lado de toda tentativa de saída dos tempos de crises por meio da narrativa da vida está a “força” dos sistemas opressores trazendo à baila outras narrativas manipuladas dos fatos e acontecimentos. Como toda história comporta duas ou mais leituras, esses grupos poderosos se aproveitam dos seus imponentes mecanismos de comunicação para promoverem “propagandas” de um passado, presente e futuro sem crises. Agindo assim, eles desviam o nosso olhar da realidade crítica em que vivemos, roubam-nos a memória do passado que nos pertence, ao mesmo tempo em que maquiam um futuro, o qual não compreenderá a libertação de quem hoje é oprimido. Por isso, esse detalhe não pode deixar de ser discriminado, ele deve ser compreendido como um movimento contra as narrativas que desejam instaurar um tempo novo, diferente e melhor do que esse em que vivemos. Para distinguir uma da outra, a falsa narrativa da narrativa da vida, é importante prender-se aos detalhes, sobretudo àqueles que prometem facilidades, coisa não muito costumeira nesses contextos de crises.

E é nessa esteira que há lugar, para os que creem no Deus que narrativizou-se, ao vir ao encontro da humanidade em Jesus de Nazaré, para um retorno às narrativas bíblicas, que não cessam de interpelar leitores e ouvintes atentos a respeito da relação de Deus com seu povo e com cada pessoa que o invoca na aflição. As narrativas bíblicas, muitas delas concebidas em tempos de crises, nos quais o povo de Deus havia sido destroçado pela violência dos outros povos, sendo surpreendido e mantido em cabresto por impérios autoritários, são memórias existenciais de um povo que sempre soube, em meio a muitas adversidades, que Deus caminha ao seu lado e deseja que esse tempo de penúria tenha logo um fim. Quem retornar às fontes bíblicas encontrar-se-á com um Deus apaixonado, que não encontra barreiras nem limites para guiar o povo a uma terra boa, onde corre leite e mel; onde se mata a fome e sede eternas. 

Talvez por isso a narrativa da vida tenha um papel e importância enormes em contextos de grandes dificuldades e pelejas para o povo de Deus; talvez por isso a narrativa constitua-se como caminho lógico-experiencial de enfrentamento da epidemia de pranto e tristeza, que com frequência assombra nossa existência, pelo fato de que Deus, antes mesmo de nós, tornou-se, Ele próprio, Narrativa da Vida, que dá a vida e a promove numa dinâmica que a convoca a ser boa e feliz. É porque Deus narrou-se na historicidade do homem Jesus, tornando-se Ele uma Narrativa de Vida Plena, que nossos tempos de crises são momento oportuno de voltarmos às Escrituras Sagradas, a fim de que, escutando a Palavra que liberta e os clamores contemporâneos dos que sofrem, narremos a vida que tende a ser melhor, em breve, porque tudo vai passar.

*Tânia da Silva Mayer é Mestra e Bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje); Cursa Letras na UFMG. É editora de textos da Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Escreve às sextas-feiras.

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