13/11/2011 | domtotal.com
Atualizada às 10h49
RIO - As comunidades da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu, na zona sul do Rio de Janeiro, foram ocupadas pelas forças policiais na madrugada de hoje (13). Às 4h10, blindados da Marinha iniciaram a incursão e pouco depois das 6h deste domingo as autoridades anunciaram que as comunidades estavam dominadas por homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do Batalhão de Choque. Eles tiveram apoio de helicópteros.
Três milhares de policiais e soldados apoiados por helicópteros ocuparam a maior favela do Rio de Janeiro neste domingo sem disparar um tiro, na maior ação das autoridades até agora para melhorar a segurança e pôr fim ao reinado dos traficantes de drogas.
A ocupação da Rocinha é vista por autoridades como parte crucial dos preparativos da cidade para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas dois anos depois.
Forças de segurança ocuparam quase 20 favelas nos últimos três anos, mas nenhuma tão simbolicamente ou estrategicamente importante como a Rocinha, uma amontoado de barracos, lojas e igrejas localizado num ponto de tráfico entre a zonas sul e oeste, onde a maioria dos eventos olímpicos serão realizados.
Com grandes helicópteros militares dando cobertura, as tropas começaram a subir ruas sinuosas da favela logo após as 4h da manhã e após duas horas consideraram a operação um sucesso, já que não haviam encontrado resistência.
A invasão da Rocinha e da favela vizinha do Vidigal era tanto um evento de mídia como uma operação militar, com centenas de repórteres acompanhando soldados e policiais na subida das ruas desertas e repletas de lixo. As autoridades haviam anunciado os planos com dias de antecedência, permitindo que muitos membros do tráfico fugissem.
De acordo com o canal GloboNews, apenas uma pessoa foi detida durante a operação. Não houve relatos de vítimas.
Depois de anos com medo tanto de membros de facções criminosas quanto das táticas muitas vezes violentas da polícia, os moradores olhavam a nova realidade com algum receio.
"Vamos esperar o melhor, mas há muito mais que precisa ser feito", disse Sergio Pimentel, gerente de uma funerária que assistiu ao desenrolar da operação.
Ele apontou um beco que, segundo ele, há vazamento de esgoto sempre que chove.
"Precisamos de saneamento básico, saúde, educação. Eles têm que vir com tudo, não apenas a polícia."
"PACIFICAÇÃO" AVANÇA
O governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, disse que ligou para a presidente Dilma Rousseff para informar-lhe do sucesso da operação, dizendo que era um "dia histórico" para a cidade.
"Estas são pessoas que necessitam de paz, para criar seus filhos em paz", disse ele a repórteres. "... Eles querem acesso a uma vida digna."
Segundo autoridades, a comunidade possui uma das maiores taxas de tuberculose do Brasil. Acredita-se que seja o principal ponto de distribuição de drogas da segunda maior cidade do Brasil.
A polícia capturou o traficante Nem, de 35 anos, no porta-malas de um carro na quinta-feira, depois de reforçar o controle em torno da Rocinha.
Neste domingo, um grupo de policiais descansou por um momento na casa de outro chefe do tráfico capturado e admiraram um aquário enorme, uma piscina no terraço e uma jacuzzi no quarto.
Entre os artigos deixados para trás às pressas pelo traficante, conhecido como "Peixe", estavam pedaços de carne prontos para o churrasco e o livro "A Arte da Guerra", de Sun Tzu.
Por meio do programa de "pacificação", as autoridades do Rio de Janeiro estão tomando favelas e as entregando à polícia comunitária, especialmente treinada e oferecendo serviços como centros de saúde e energia elétrica. O objetivo é promover a inclusão social e dar à cidade, cuja população em favelas supera um milhão, uma maior participação na economia brasileira.
No entanto, o progresso tem sido lento. Um ano depois de uma operação semelhante ocupar o complexo do Alemão, a favela ainda precisa receber uma força da polícia comunitária, conforme as forças de segurança têm tido dificuldades em treinar oficiais suficientes.
A maioria das ocupações tem ocorrido em favelas próximas às áreas mais ricas do Rio, estimulando críticas de que o programa é destinado principalmente a apoiar o crescimento imobiliário da cidade e prepará-la para os eventos esportivos. Favelas enormes em áreas mais distantes ainda são controladas por facções ou grupos de milícia composta por policiais corruptos.
Reuters/Agência Brasil